Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser -
se a luz é tanta,
como se pode morrer?
eugénio de andrade
dar à terra o coração. que a morte é bela onde o corpo cria raízes - só queria que fosses feliz. que como as aves voasses . que do corpo conhecesses bem a ausência e a solidão - faz do teu peito um alarme de tragédias e não chores. quando eu morrer construo uma cidade de nuvens - seremos felizes. tu sem chuva eu dentro dela - que no fim saibas de mim nos dias de calor. todos os dias - farei um mundo quente que arderá nos lábios como um beijo. como todos os beijos que te dei - que saibas que eram minhas todas as florestas do mundo. e todas as flores crescerão para a terra - quando eu morrer que te tenha criado raízes.
As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar
ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada
al berto
sabes. fomos quase felizes. faltou um bocadinho de céu e o tempo. todo o tempo. tinha feito sentido. faltou só um bocadinho. às vezes ainda ouço a tua boca: regressa que amanhã é sexta-feira e as árvores vão embora. as árvores nunca foram embora. só os teus braços partiram - o corpo que foge - era tarde e fomos quase felizes. faltou à cara a insistência da boca - às vezes era como se sorrisses e ainda assim faltava aos lábios a força dos oceanos. não conheci os teus dentes - só um olhar muito tímido. medo ao futuro.talvez o mar manso - trago nos braços um mundo novo. só existe neles. tão dentro a pele o criou que não há olhos que o vejam. era para ti -
terça-feira, 5 de julho de 2011
e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia
al berto
- teu nome de ave dá pena ao meu. não ter-te perto dói. porquê. porquê morrer - que grandes voos te reservam as asas. que noite é esta onde te espero ainda. por que céu andas tu. se andas. se há céu - teu nome era grande. meu corpo todo cabia nele. esticado. estendido. como roupa que seca molhada na corda - e dizer-te outras palavras mais sábias e inteiras. que se dizem quando a vida já não faz sentido e é um absurdo esperar dias felizes. por se ser triste - eu sou triste -
sexta-feira, 1 de julho de 2011
deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.
a dor de todas as ruas vazias.
sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.
al berto
o que sinto. às vezes é como se os braços caíssem e doessem tanto no chão que fosse impossível estar quieta. e o corpo anda às voltas. às voltas. e o tempo não passa. e dói por dentro. ter o mundo às voltas e a cabeça tonta e o corpo quase morto. às vezes tenho a sensação de que um bando de pássaros me ocupou o coração e as crias o comem. todos os dias. não sei se perco o pouco coração que tenho. agora pouco interessa. quero dizer: não me deixes nunca mais - e já não voltas. e é tarde nos beirais das janelas de todas as casas voltadas para o mar. faz deserto na praia - eu estou sem graça.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
patricija stepanovic
Sobre os cotovelos a água olha o dia sobre
os cotovelos. batem folhas da luz
um pouco abaixo do silêncio. Quero saber
o nome de quem morre: o vestido de ar
ardendo, os pés e movimento no meio
do meu coração. O nome: madeira que arqueja, seca desde o fundo
do seu tempo vegetal coarctado.
E, ao abrir-se a toalha viva, o
nome: a beleza a voltar-se para trás, com seus
pulmões de algodão queimando.
Uma serpente de ouro abraça os quadris
negros e molhados. E a água que se debruça
olha a loucura com seu nome: indecifrável cego
herberto helder
quero para nós o silêncio dos dias imensos. que carregam nuvens - um céu com queda para anjos. estrada sem saída. cume. ravina. tecido fosco. boca sem fôlego - quero para nós o silêncio dos dias vivos. sangue que corre nas veias. eras cobrindo paredes. silvas crescendo nos muros - afinal nas pedras ainda há vida - respira - o mundo está deserto neste corpo. nem uma nesga de luz acode à pele - quero para ti um barco. jardim. arvoredo. pássaros grandes. muito grandes. tão grandes como os anos que passei sem ti.
Eu não sou muito grande nasci numa aldeia
mas o país que tinha já de si pequeno
fizeram-no pequeno para mim
os donos das pessoas e das terras
os vendilhões das almas no templo do mundo
Sou donde estou e só sou português
por ter em portugal olhado a luz pela primeira vez
ruy belo
pela manhã é o teu rosto que me visita. pânico ou lucidez - estavas tão quieta. pequena. branca. teu corpo frio de neve. queria contar-te uma história de uma senhora que assim quieta plantou o coração em terra baldia. queria contar-te uma história - foges pela casa. o teu corpo pequeno atira-se às sombras. nunca foste a lugar nenhum sei-o hoje - todos os dias a memória do teu rosto pequeno branco. a pele tão murcha. os dias eram tão grandes que te caíam do corpo - havemos de ir à europa.
domingo, 26 de junho de 2011
Que importa sermos de uma só manhã e não haver
em volta
árvore mais açoitada pelos diversos ventos?
Que importa partirmos num desmoronar de poentes?
Mais triste mesmo a vida onde outros passarão
multiplicando-lhe a ausência que importa
se onde pomos os pés é primavera?
ruy belo
escrevo para ti. porque são teus os dias. e todas as árvores se perdem por ti. como se perde o tempo a cada dia. escrevo para ti que sabes que as sombras são escassas e a pele à noite desaparece. com a idade sei das memórias imensas onde não fui feliz. sou novamente a criança que cresce com os pés enterrados no mato e os olhos de um silvado bravo - por vezes soube da felicidade. um manto de neve branca na pele pálida de fome ou remorso. por vezes soube de ti. acreditei que em algum lugar me esperavas com outra infância ao colo. mais feliz. mais nossa. sem o cinzento dos dias tristes ou a geada das manhãs frias. onde não estavas. nem sabias. nem esperavas - às vezes sonhava. prados verdes. mantos de água. tão limpo o céu que nem uma nuvem se via. nem ninguém. só eu corria livre como o vento corre - quero sonhar.contigo.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
francesca woodman
passei a manhã e parte da tarde a observar-me no espelho. procurava um indício de morte sobre o rosto.
que minuciosa imperceptível tarefa teria ela iniciado durante a noite? nada visível por agora. nada se vislumbra na cor da pele, no movimento das pálpebras ou no húmido dos lábios.
doem-me as mãos. um vómito sobe. sinto-me demasiado fraco para suportar o meu próprio peso. se ao menos a morte me prevenisse que chegaria. bastava que me mostrasse um vertiginoso buraco na água, um diáfano sorriso de pássaros ou uma pedra flutuando.
al berto
pergunto-me porque morrem os pássaros. que o sul ou outro norte os detivesse quando o fracasso das montanhas lhes impedisse o voo. às vezes choro. é quando com os pássaros vou pelas maçãs do mundo. dorso de animal ferido - não falem mais - querer ser assim não basta. outro dia talvez saiba dos pássaros - não sei nunca se regresso. que estes braços me podem fugir do corpo. .quando a pele nos cai é tarde na mó dos dias e os finos cabelos voam - onde está quem nunca soube de mim. nem dos pássaros - que este mundo me pertencesse com tudo. terra.chão.nuvem.céu.erva.ar.vento.sombra.sol.água.homens.pássaros. que este mundo me pertencesse com tudo.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
I… I used to make long speeches to you after you left. I used to talk to you all the time, even though I was alone. I walked around for months talking to you. Now I don’t know what to say. It was easier when I just imagined you. I even imagined you talking back to me. We’d have long conversations, the two of us. It was almost like you were there. I could here you, I could see you, smell you. I could hear your voice. Sometimes your voice would wake me up. It would wake me up in the middle of the night, just like you were in the room with me. Then… it slowly faded. I couldn’t picture you anymore. I tried to talk out loud to you like I used to, but there was nothing there. I couldn’t hear you. Then… I just gave it up. Everything stopped. You just… disappeared. And now I’m working here. I hear your voice all the time. Every man has your voice.
Paris, Texas
a gente sempre espera por um abraço. é quando a noite cai e o mundo sossega. essas memórias encontram-me. fomos tão felizes com os vestidos brancos de comunhão e o cheiro a cal. fomos tão felizes. a lenha a estalar na lareira. os melhores poemas do mundo. sabor a terra. e um silêncio de inverno. frio na soleira da porta. o teu andar. esse jeito de andar indiscreto e tardio. todos os passos vão ao teu encontro. teu rosto magro. parado na fotografia. que pele tão sã. que olhar tão manso. pergunto-me onde estarás. qu'é do teu avental de seda pura comprado a preço de ouro no pechisbeque. e as longas noites de chuva. a telha coberta de água. o branco sujo do vento. a casa voltada para o nascer do sol. e sol nem vê-lo. o banco ainda lá está. à tua espera. pequeno como são pequenos os bancos de gente pequena. a vista para o monte. os pinheiros mansos. a erva rasa. os pássaros sem norte. para onde fogem as árvores quando morrem. quem as espera. pergunto sempre por ti aos que partem talvez um dia regresses.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Não Entres Tão Depressa Nessa NoiteEscura
quando eu morrer. se eu morrer. manda construir uma ponte sobre o precipício. escreve cartas do mundo dos vivos. descreve-me os lugares. as árvores. fala-me dos pássaros como se eu tivesse ainda ouvidos. ajuda-me a voar. guarda as estações. que eu não regresso. nem para assustar quem me fez mal. não regresso. mas quero ouvir a tua voz do outro lado do mundo. sentir os teus lábios ainda no meu ouvido: não partas nunca mais - não. em nenhum outro lugar poderei ser tão feliz. nenhum pássaro será tão livre. não haverão assim árvores bonitas. como nos teus olhos. em nenhum outro lugar.
domingo, 22 de maio de 2011
Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.
herberto helder
contam-me uma história. de um amor feliz por outras terras. mais frias. um coração que adormece enterrado na neve - quis ser tua amante. levar-te para as terras altas. onde o frio das manhãs brancas sobe troncos. as árvores estão como mortas. quis ser tua amante para te contar todas as histórias de um amor feliz. decorei as palavras. todas. para tas dizer baixinho ao ouvido. nos lábios guardo toda a beleza do mundo que já vi. o outro mundo. o teu. o que tu viste. fala-me dele quando adormecer for difícil como agora - enquanto o amor quiser hei-de escrever. manhãs tristes. noites inteiras. enquanto o sal durar dentro das lágrimas - tarda. já tarde. noites fora nada me chega. e um abraço era tudo o que queria para sossegar a saudade na pele. ainda não aprendi a estar quieta. durmo como se corresse. por entre as ondas vou ao teu encontro. o corpo dói pela violência da água. forte no peito. ossos para dentro dos órgãos todos - quero chorar muito. fugir dos nomes. dos rostos. do mundo. um dia hei-de morrer e o corpo quieto será velado pelo teu. contarás a história de um amor feliz por terras amenas. onde as árvores sonham deitar a copa nas nuvens.
sábado, 21 de maio de 2011
e eu que sou louco, um pouco, não ao ponto de ser belo ou maravilhoso
ou assintáctico ou mágico, mas:
um pouco louco,
porque faço com mãos estilísticas um invento fora e dentro dos estados
naturais:e a faúlha e o ar à volta dela, jóia, digo, quero-a de repente,
e as matérias maduras e dramáticas: ouro, petróleo:
e com que potência madibular me debruço sobre o prato,
e ávido e inculto,
com mão aprendiz côlho o áspero alimento do mundo,
e rosto, membros, torso, radiações dos dedod,
trabalho no meu nome,
obra pequena de hemoglobina, enxôfre, células, osso, lume,
para estar mais perto de quem acaso me chame ou toque
---- eu,
sem beleza nem maravilha,
só dor,
desamor ou descuidada memória ----
mas mr conheça por isso que não é bem música,
talvez sim um som
dificílimo, sêco, acerbo, rouco, côncavo, precaríssimo
de apenas consoantes,
pregos
herberto helder
aquele louco sorria. a pele cabia-lhe exactamente no corpo. tremia. os olhos eram cinza escuro quase preto. não havia céu e o silêncio absurdo. nas pernas. nos pés nus. quietos no asfalto. - olha para mim - a cidade foge-lhe. nenhum rosto o encontra. só o tempo o espera do outro lado da estrada. os loucos também têm memória. o cabelo era a reentrância do espanto. - quando anoitecer. se anoitecer. levo-te para casa. e olhavas para mim sem nome. como todos os loucos.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.
herberto helder
quero o silêncio dos teus braços. o socorro do teu corpo. o coração.
o teu amor, bem sei, é uma palavra musical,
espalha-se por todos nós com a mesma ignorância,
o mesmo ar alheio com que fazes girar, suponho, os epiciclos;
ergues os ombros e dizes, hoje, amanhã, nunca mais,
surpreende o vigor, a plenitude
das coxas masculinas, habituadas ao cansaço,
separamo-nos, à procura de sinais mais fixos,
e o circuito das chamas recomeça.
é um país subtil, o olho franco das mulheres,
há nos passeios garrafas com leite apenas cinzento,
os teus pais disseram: o melhor de tudo é ser engenheiro,
morrer de casaco, com todas as pirâmides acesas,
viajar de navio de buenos aires a montevideu.
esta é a viagem que não faremos nunca, soltos
na minuciosa tarde dos lábios,
ágil pobreza.
permanentemente floresce o horizonte em colinas,
os animais olham por dentro, cheios de vazio,
como um ladrão de pouca perícia a luz
desfaz devagarmente os corpos.
ele exclama: quando me libertarás da tosca voz dormida,
para que seja
alto e altivo o coração das coisas? até quando aguardarei,
no harmonioso beliche, que a tua visão cesse?
antónio franco alexandre
às vezes o tempo pára. quando nos damos as mãos. o corpo todo nelas. e a boca na boca à margem da palavra. tão pequena. a luz forte do sol por detrás do rosto. quieto. nem as árvores mexem. um cheiro a terra. forte. a voz no ouvido: não fujas. amanhã é tarde para o coração. e eu sei teus olhos são a chuva. a tempestade. pela manhã o silêncio que acorda. durante a tarde a secura da pedra. fomos. decerto sobre nós só as manhãs claras ou as tardes de maio. amanhã é outro dia e os dias passam. não fujas.
domingo, 15 de maio de 2011
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
herberto helder
do silêncio um beijo. se duas bocas fossem como cair do nono andar de um prédio antigo. no centro da cidade. onde as paredes abandonam o ruído dos corpos que não se abraçam. eu quero muito abraçar-te. por cima das nuvens construir um prédio. alto. que desse para outro mundo. um mundo onde corpos se abraçassem. onde beijos fossem palavras como: amor. e barcos voassem dentro dos olhos. e tudo fosse um mar de ser feliz e sorrir muito.
Esta mulher é formosa
como uma flor da montanha,
mas é fria, fria, e é fria
como a margem de neve
onde fria floresce.
herberto helder
só não sabemos por que dói às vezes. por ser deserto por certo. também o coração não tarda a existir dentro de todos os corpos que amei. fico em silêncio. nenhum movimento me pertence. quero dizer-te hoje que está um bom dia. para correr. para chorar um pouco. para escrever sobre estas árvores de onde subitamente se levanta o vento. estou só. ando há algum tempo só. talvez por ser assim mais fácil esquecer o coração. há rostos que te lembram da vida. queria também dizer-te que faz frio no azulejo e os pássaros procuram no telhados lugares para fazer ninho. quero um ninho posto do lado esquerdo do peito. talvez também por ser deserto fico sem voz. há qualquer coisa de descoberta em não ter voz. em doer-nos o mundo. lá fora. fico quieta. talvez algum pensamento me visite. este domingo está fresco.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.
clarice lispector
não é tarde. talvez daqui a algum tempo te olhe nos olhos e te diga: para sempre. até lá não é tarde. nunca mais. meu bem. tarde só em sonhos. quando os não tenho. ou quando por não tê-los durmo mal. as noites são por defeito minhas amigas. como as nuvens ou a chuva. ou o frio nos arraiais. é verão e decerto em hora já tardia o coração não sabe o que dizer. melhor esperar. silêncio. amanhã falo-te dos dias da minha infância. onde fui feliz. por não conhecer o mundo. hoje talvez o mundo seja essa coisa feia. mas aqui ainda moram os campos da minha infância. com cores que já não existem. quero trazer-te para aqui. sossega coração só. amanhã o futuro chega. até lá vamos por aí conquistando terra ao coração.
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer — fosse abertura —
E a saudade é tudo ser igual.
daniel faria
dizem que foi céu fora. com o vento. ao colo levava todos os lugares onde foi feliz. não sei. não vi. não voltou. não tive como falar-lhe e tenho pena. e magoa. nenhum regresso foi mais esperado. talvez uma nuvem baixa a carregue dentro. já morta de ar ou medo. às árvores fui contando tudo. na terra esperei outras primaveras. mais felizes. tive saudades. tenho saudades. os olhos são duas esferas baças.tenho tanto medo de ficar sozinha.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Conheço algumas cidades da europa e a fantasia vagarosa
da cidade da minha infância.
Tu desapareceste. É um erro
das musas distraídas. Não há guindaste que te levante
do coração das águas,
onde apodreceste envolvida no halo do teu amor invisível,
ou recolhida na tua carne rápida, ou ainda
ligeiramente tocada pelo ardor
de uma existência pura. Conheço grandes casas
onde não habitas, flores que cheiro, tarefas
silenciosas que cumpro humildemente, e luzes,
instrumentos de música,
laranjas que devoro sentindo o gosto da vida, desde a garganta
às mais finas raízes das vísceras. Tu
desapareceste.
herberto helder
tantas vezes o teu nome. chegado de ontem. não sabe do meu. paisagens da minha infância. países de verde musgo e sal marinho. barcos voltados para à terra. ao colo a boneca de trapos. falta-lhe um braço. o meu já dormente. se soubesse escrever poemas. dizê-los em voz alta às árvores. às mais altas montanhas escrevi histórias. no seu cume apanhei nuvens - era uma vez um coração livre que voava, ia com os pássaros - o vento preso aos cabelos. a tornear os troncos. tantas vezes fui com o vento manso do sul. conhecer o azul dos mares. - leva-me para dentro da noite. apanho uma estrela e vou conhecer outros planetas - dizer o teu nome é conhecer o mundo. contar a pele de todos os corpos sós.
domingo, 1 de maio de 2011
"… cantada por um homem chamado Caruso que se diz que já morreu.
A voz era tão macia que até doía ouvir.
A música chamava-se "Una Furtiva Lacrima".
"Una Furtiva Lacrima" fora a única coisa belíssima na sua vida.
Enxugando as próprias lágrimas tentou cantar o que ouvira.
Mas a sua voz era crua e tão desafinada como ela mesma era.
Quando ouviu começara chorar.
Era a primeira vez que chorava, não sabia que tinha tanta água nos olhos.
Não chorava por causa da vida que levava:
porque, não tendo conhecido outros modos de viver, aceitara que, com ela, era "assim".
Mas também creio que chorava porque, através da música,
adivinhava talvez que havia outros modos de sentir,
havia existências mais delicadas e até com um certo luxo de alma.
Muitas coisas sabia que não sabia entender…"
clarice lispector
quando chorava. doíam-lhe todos os meses. e os anos passavam. lentos. a pouco e pouco todos parecem lembrá-la menos. a sua falta só no silêncio da casa. o lugar sempre vazio no sofá. a sua voz. tão triste. que me dizia - é noite todo o dia nesta janela- também eu chorei. no dia calmo de dezembro. em que não chovia. e as nuvens altas cantavam. partiu sozinha. nenhum anjo a esperava. nenhum deus a levou. foi com o sol.