Mostrar mensagens com a etiqueta #notas autobiográficas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta #notas autobiográficas. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 7 de julho de 2011








































As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada

al berto







sabes. fomos quase felizes. faltou um bocadinho de céu e o tempo. todo o tempo. tinha feito sentido. faltou só um bocadinho. às vezes ainda ouço a tua boca: regressa que amanhã é sexta-feira e as árvores vão embora. as árvores nunca foram embora. só os teus braços partiram - o corpo que foge - era tarde e fomos quase felizes. faltou à cara a insistência da boca - às vezes era como se sorrisses e ainda assim faltava aos lábios a força dos oceanos. não conheci os teus dentes - só um olhar muito tímido. medo ao futuro.talvez o mar manso - trago nos braços um mundo novo. só existe neles. tão dentro a pele o criou que não há olhos que o vejam. era para ti -







terça-feira, 5 de julho de 2011

















e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

al berto



- teu nome de ave dá pena ao meu. não ter-te perto dói. porquê. porquê morrer - que grandes voos te reservam as asas. que noite é esta onde te espero ainda. por que céu andas tu. se andas. se há céu - teu nome era grande. meu corpo todo cabia nele. esticado. estendido. como roupa que seca molhada na corda - e dizer-te outras palavras mais sábias e inteiras. que se dizem quando a vida já não faz sentido e é um absurdo esperar dias felizes. por se ser triste - eu sou triste -










quarta-feira, 29 de junho de 2011

























patricija stepanovic







Sobre os cotovelos a água olha o dia sobre

os cotovelos. batem folhas da luz
um pouco abaixo do silêncio. Quero saber
o nome de quem morre: o vestido de ar
ardendo, os pés e movimento no meio
do meu coração. O nome: madeira que arqueja, seca desde o fundo
do seu tempo vegetal coarctado.
E, ao abrir-se a toalha viva, o
nome: a beleza a voltar-se para trás, com seus
pulmões de algodão queimando.
Uma serpente de ouro abraça os quadris
negros e molhados. E a água que se debruça

olha a loucura com seu nome: indecifrável cego

herberto helder




quero para nós o silêncio dos dias imensos. que carregam nuvens - um céu com queda para anjos. estrada sem saída. cume. ravina. tecido fosco. boca sem fôlego - quero para nós o silêncio dos dias vivos. sangue que corre nas veias. eras cobrindo paredes. silvas crescendo nos muros - afinal nas pedras ainda há vida - respira - o mundo está deserto neste corpo. nem uma nesga de luz acode à pele - quero para ti um barco. jardim. arvoredo. pássaros grandes. muito grandes. tão grandes como os anos que passei sem ti.





































Eu não sou muito grande nasci numa aldeia
mas o país que tinha já de si pequeno
fizeram-no pequeno para mim
os donos das pessoas e das terras
os vendilhões das almas no templo do mundo
Sou donde estou e só sou português
por ter em portugal olhado a luz pela primeira vez


ruy belo








pela manhã é o teu rosto que me visita. pânico ou lucidez - estavas tão quieta. pequena. branca. teu corpo frio de neve. queria contar-te uma história de uma senhora que assim quieta plantou o coração em terra baldia. queria contar-te uma história - foges pela casa. o teu corpo pequeno atira-se às sombras. nunca foste a lugar nenhum sei-o hoje - todos os dias a memória do teu rosto pequeno branco. a pele tão murcha. os dias eram tão grandes que te caíam do corpo - havemos de ir à europa.









domingo, 26 de junho de 2011































Que importa sermos de uma só manhã e não haver
em volta
árvore mais açoitada pelos diversos ventos?
Que importa partirmos num desmoronar de poentes?
Mais triste mesmo a vida onde outros passarão
multiplicando-lhe a ausência que importa
se onde pomos os pés é primavera?


ruy belo







escrevo para ti. porque são teus os dias. e todas as árvores se perdem por ti. como se perde o tempo a cada dia. escrevo para ti que sabes que as sombras são escassas e a pele à noite desaparece. com a idade sei das memórias imensas onde não fui feliz. sou novamente a criança que cresce com os pés enterrados no mato e os olhos de um silvado bravo - por vezes soube da felicidade. um manto de neve branca na pele pálida de fome ou remorso. por vezes soube de ti. acreditei que em algum lugar me esperavas com outra infância ao colo. mais feliz. mais nossa. sem o cinzento dos dias tristes ou a geada das manhãs frias. onde não estavas. nem sabias. nem esperavas - às vezes sonhava. prados verdes. mantos de água. tão limpo o céu que nem uma nuvem se via. nem ninguém. só eu corria livre como o vento corre - quero sonhar.contigo.









sábado, 25 de junho de 2011








































Eu sei que às vezes encontro sem saber porquê
Um simples não quê em estátuas retratos antigos
de límpidas mulheres desconhecidas
eu que de súbito à primeira vista me apaixono adolescentemente
por essas mulheres mortas mas contemporâneas
de um pobre poeta português do século vinte
levadas até ele talvez por um discreto gesto
às formas e às cores impresso por um homem
que na arte encontrava a única razão de vida
abro a pasta e deparo com o teu retrato
um retrato de passe anos atrás tirado
no sítio suburbano onde primeiro vivemos
e juntos suportámos com surpresa a solidão
de sermos dois e ela só vergar os ombros onde os dias nos poisavam


ruy belo




nascer de novo para um grande amor. onde também estivesses de braços abertos voltado para o mar - quero dizer-te que todas as manhãs te esperei como se esperam os anos. que de rosto em rosto andei. à procura de uma boca onde pousar o coração - aos campos da minha infância regresso. quero a felicidade dos dias mansos. memórias: da pele estar fria com o vento na tapada. do rosto caído. o umbigo deserto de fome e medo. - aprendi que voltado para norte o corpo adormece mais depressa - abraça-me muito que amanhã é domingo e fazes anos. e não sei nascer de novo. nem sei como te trazer a felicidade dos dias mansos que não tive. um vento fresco de amor no rosto. na tua boca deixo o meu coração para que te invente estrelas. queria dizer-te dos futuros dias calmos. amor. abraça-me muito.










sexta-feira, 24 de junho de 2011












Escuta, escuta:
tenho ainda uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei,
não vai salvar o mundo,
não mudará a vida de ninguém
- mas quem é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco mais.
Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

eugénio de andrade






um mundo de água onde o meu coração coubesse inteiro. e em todas as florestas um sorriso que dentro levasse o teu rosto. o teu rosto para o sol voltado. à espera das folhas. quando caem as folhas. quando se erguem as árvores. quando chegas. quando partes. já não importa. se o mundo fosse assim grande. onde o teu coração no meu batesse. onde o teu corpo com o meu fosse. não importa para onde. que lugares há muitos. tantos.







segunda-feira, 6 de junho de 2011

























I… I used to make long speeches to you after you left. I used to talk to you all the time, even though I was alone. I walked around for months talking to you. Now I don’t know what to say. It was easier when I just imagined you. I even imagined you talking back to me. We’d have long conversations, the two of us. It was almost like you were there. I could here you, I could see you, smell you. I could hear your voice. Sometimes your voice would wake me up. It would wake me up in the middle of the night, just like you were in the room with me. Then… it slowly faded. I couldn’t picture you anymore. I tried to talk out loud to you like I used to, but there was nothing there. I couldn’t hear you. Then… I just gave it up. Everything stopped. You just… disappeared. And now I’m working here. I hear your voice all the time. Every man has your voice.

Paris, Texas





a gente sempre espera por um abraço. é quando a noite cai e o mundo sossega. essas memórias encontram-me. fomos tão felizes com os vestidos brancos de comunhão e o cheiro a cal. fomos tão felizes. a lenha a estalar na lareira. os melhores poemas do mundo. sabor a terra. e um silêncio de inverno. frio na soleira da porta. o teu andar. esse jeito de andar indiscreto e tardio. todos os passos vão ao teu encontro. teu rosto magro. parado na fotografia. que pele tão sã. que olhar tão manso. pergunto-me onde estarás. qu'é do teu avental de seda pura comprado a preço de ouro no pechisbeque. e as longas noites de chuva. a telha coberta de água. o branco sujo do vento. a casa voltada para o nascer do sol. e sol nem vê-lo. o banco ainda lá está. à tua espera. pequeno como são pequenos os bancos de gente pequena. a vista para o monte. os pinheiros mansos. a erva rasa. os pássaros sem norte. para onde fogem as árvores quando morrem. quem as espera. pergunto sempre por ti aos que partem talvez um dia regresses.














quinta-feira, 26 de maio de 2011















Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem.

sophia de mello breyner





o barco roubou ao mar as maiores ondas. foi numa dessas noites. quando o rosto da menina figurou a melhor metáfora do escritor - um grito soterrado - quero escrever sobre o sol. o fundo do mar. sem peixes. a escuridão devolvida à pele - finalmente a sós. despeço-me de ti como se estivesse a escrever o melhor romance. com final feliz. melodrama de sintaxe imperfeita - guardo para amanhã o adeus. a última página. o rosto em claro voltado para a água. sem pronto socorro. nem nada. só uma luz muito pura a impede de ir.
















segunda-feira, 23 de maio de 2011
















Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura








quando eu morrer. se eu morrer. manda construir uma ponte sobre o precipício. escreve cartas do mundo dos vivos. descreve-me os lugares. as árvores. fala-me dos pássaros como se eu tivesse ainda ouvidos. ajuda-me a voar. guarda as estações. que eu não regresso. nem para assustar quem me fez mal. não regresso. mas quero ouvir a tua voz do outro lado do mundo. sentir os teus lábios ainda no meu ouvido: não partas nunca mais - não. em nenhum outro lugar poderei ser tão feliz. nenhum pássaro será tão livre. não haverão assim árvores bonitas. como nos teus olhos. em nenhum outro lugar.








domingo, 22 de maio de 2011






































Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.



herberto helder














contam-me uma história. de um amor feliz por outras terras. mais frias. um coração que adormece enterrado na neve - quis ser tua amante. levar-te para as terras altas. onde o frio das manhãs brancas sobe troncos. as árvores estão como mortas. quis ser tua amante para te contar todas as histórias de um amor feliz. decorei as palavras. todas. para tas dizer baixinho ao ouvido. nos lábios guardo toda a beleza do mundo que já vi. o outro mundo. o teu. o que tu viste. fala-me dele quando adormecer for difícil como agora - enquanto o amor quiser hei-de escrever. manhãs tristes. noites inteiras. enquanto o sal durar dentro das lágrimas - tarda. já tarde. noites fora nada me chega. e um abraço era tudo o que queria para sossegar a saudade na pele. ainda não aprendi a estar quieta. durmo como se corresse. por entre as ondas vou ao teu encontro. o corpo dói pela violência da água. forte no peito. ossos para dentro dos órgãos todos - quero chorar muito. fugir dos nomes. dos rostos. do mundo. um dia hei-de morrer e o corpo quieto será velado pelo teu. contarás a história de um amor feliz por terras amenas. onde as árvores sonham deitar a copa nas nuvens.











sábado, 21 de maio de 2011



































A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.

herberto helder




quero o silêncio dos teus braços. o socorro do teu corpo. o coração.










































zeynep kayan






As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada

al berto





para onde voam os pássaros. juntos. como palavras deitadas ao vento. houve coisas que te queria ter dito com a mesma força com que os pássaros se lançam ao céu. como por dentro das nuvens o mundo é maior. ou a força do corpo que quieto sonha contigo. às vezes só na companhia dos móveis encontramos o afecto. ou a sua falta se reproduz de tal maneira na pele que choramos um pouco. chorar não é mau quando estamos na companhia dos móveis. e sei: não se pode adiar o voo. vou com os pássaros. manhãs claras de maio esperem-me noutro ano.


























o teu amor, bem sei, é uma palavra musical,
espalha-se por todos nós com a mesma ignorância,
o mesmo ar alheio com que fazes girar, suponho, os epiciclos;
ergues os ombros e dizes, hoje, amanhã, nunca mais,
surpreende o vigor, a plenitude
das coxas masculinas, habituadas ao cansaço,
separamo-nos, à procura de sinais mais fixos,
e o circuito das chamas recomeça.

é um país subtil, o olho franco das mulheres,
há nos passeios garrafas com leite apenas cinzento,
os teus pais disseram: o melhor de tudo é ser engenheiro,
morrer de casaco, com todas as pirâmides acesas,
viajar de navio de buenos aires a montevideu.
esta é a viagem que não faremos nunca, soltos
na minuciosa tarde dos lábios,
ágil pobreza.

permanentemente floresce o horizonte em colinas,
os animais olham por dentro, cheios de vazio,
como um ladrão de pouca perícia a luz
desfaz devagarmente os corpos.
ele exclama: quando me libertarás da tosca voz dormida,
para que seja
alto e altivo o coração das coisas? até quando aguardarei,
no harmonioso beliche, que a tua visão cesse?



antónio franco alexandre








às vezes o tempo pára. quando nos damos as mãos. o corpo todo nelas. e a boca na boca à margem da palavra. tão pequena. a luz forte do sol por detrás do rosto. quieto. nem as árvores mexem. um cheiro a terra. forte. a voz no ouvido: não fujas. amanhã é tarde para o coração. e eu sei teus olhos são a chuva. a tempestade. pela manhã o silêncio que acorda. durante a tarde a secura da pedra. fomos. decerto sobre nós só as manhãs claras ou as tardes de maio. amanhã é outro dia e os dias passam. não fujas.










domingo, 15 de maio de 2011




































As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.

herberto helder






do silêncio um beijo. se duas bocas fossem como cair do nono andar de um prédio antigo. no centro da cidade. onde as paredes abandonam o ruído dos corpos que não se abraçam. eu quero muito abraçar-te. por cima das nuvens construir um prédio. alto. que desse para outro mundo. um mundo onde corpos se abraçassem. onde beijos fossem palavras como: amor. e barcos voassem dentro dos olhos. e tudo fosse um mar de ser feliz e sorrir muito.










































Esta mulher é formosa
como uma flor da montanha,
mas é fria, fria, e é fria
como a margem de neve
onde fria floresce.

herberto helder





só não sabemos por que dói às vezes. por ser deserto por certo. também o coração não tarda a existir dentro de todos os corpos que amei. fico em silêncio. nenhum movimento me pertence. quero dizer-te hoje que está um bom dia. para correr. para chorar um pouco. para escrever sobre estas árvores de onde subitamente se levanta o vento. estou só. ando há algum tempo só. talvez por ser assim mais fácil esquecer o coração. há rostos que te lembram da vida. queria também dizer-te que faz frio no azulejo e os pássaros procuram no telhados lugares para fazer ninho. quero um ninho posto do lado esquerdo do peito. talvez também por ser deserto fico sem voz. há qualquer coisa de descoberta em não ter voz. em doer-nos o mundo. lá fora. fico quieta. talvez algum pensamento me visite. este domingo está fresco.









segunda-feira, 9 de maio de 2011

































Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.

clarice lispector




não é tarde. talvez daqui a algum tempo te olhe nos olhos e te diga: para sempre. até lá não é tarde. nunca mais. meu bem. tarde só em sonhos. quando os não tenho. ou quando por não tê-los durmo mal. as noites são por defeito minhas amigas. como as nuvens ou a chuva. ou o frio nos arraiais. é verão e decerto em hora já tardia o coração não sabe o que dizer. melhor esperar. silêncio. amanhã falo-te dos dias da minha infância. onde fui feliz. por não conhecer o mundo. hoje talvez o mundo seja essa coisa feia. mas aqui ainda moram os campos da minha infância. com cores que já não existem. quero trazer-te para aqui. sossega coração só. amanhã o futuro chega. até lá vamos por aí conquistando terra ao coração.













domingo, 8 de maio de 2011















Acreditei que se amasse de novo
Esqueceria outros
Pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
Organizei a memória em alfabetos
Como quem conta carneiros e amansa
No entanto flanco aberto não esqueço
E amo em ti os outros rostos.

ana cristina césar




dentro da pele guardo essas histórias. tempo de abraços. e nenhum de nós aqui ficará para falar do lugar onde nos amamos. como se habitássemos ainda as nuvens. e nenhuma árvore tivesse descoberto dois corpos assim tão dados. que nem vento passava entre as peles. nem nada. fomos felizes. decerto. ninguém nos tira esse lugar onde fomos felizes. que levaremos connosco para debaixo de qualquer terra. ainda penso muito em ti. sei dos teus olhos. enormes castanhos. o mundo inteiro à minha espera. contavas nos dedos os anos como chuva. sabias de cor o nome dos meses. os dias. os anos. fomos sempre felizes. no tempo em que nos conheciam as águas. as flores. todas as noites. estrelas. o próprio silêncio. cúmplice dos melhores amantes. nos acompanhou. velaram o teu corpo quando morreste. sei-o. tão perto sempre estiveram. tão perto. impossível seria não lembrar-te neles. a boca. o beijo. um beijo de dias inteiros. para sempre.










































A que se referia?
- À morte – respondi.
- Sim, eu também falava da morte. Mas surpreendeu-me que você estivesse a pensar o
mesmo.
- Pensamos todos no mesmo a partir de certa altura.
- Talvez – murmurou, e a voz tinha uma ponta de orgulho. – Mas nem todos de igual maneira. Sou forte. Por isso é que penso nela. Detesto a fraqueza que se remedeia na imaginação, nas hipóteses. Não creio em nada. Não desejo crer em nada.
- Pensa que vai morrer quando quiser?

herberto helder









os dias passam por nós. tão breves. ninguém repara. ao fim de um dia outro começa. quando acordamos há outro corpo deitado. quando deitamos o outro corpo levanta. nenhum dos dois se sabe vivo. nem a si nem ao outro. os dias atrás dos outros. passam. em nós o tempo faz histórias. que depois contamos uns aos outros. como memórias ou segredos. vários. às vezes queria reinventar essa trio: passado. presente e futuro. criar outro mundo onde deixar a existência. fugir depois selvagem como as águas. por dentro da terra. construir passagens secretas entre os tempos. renascer.









quinta-feira, 5 de maio de 2011






























Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer — fosse abertura —
E a saudade é tudo ser igual.


daniel faria










dizem que foi céu fora. com o vento. ao colo levava todos os lugares onde foi feliz. não sei. não vi. não voltou. não tive como falar-lhe e tenho pena. e magoa. nenhum regresso foi mais esperado. talvez uma nuvem baixa a carregue dentro. já morta de ar ou medo. às árvores fui contando tudo. na terra esperei outras primaveras. mais felizes. tive saudades. tenho saudades. os olhos são duas esferas baças.tenho tanto medo de ficar sozinha.