quarta-feira, 12 de agosto de 2009

#201

dói-me o mundo
de já não me quereres.
doem-me as casas, as portas,
as ruas e os passeios.
dói-me este tempo de nada me dizeres,
e se agora me falasses
meio mundo fugiria
porque a mim, sem ti,
apenas me pertencem
meios dias.
nada é inteiro na tua ausência.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

#200



dissemos sempre tão pouco um ao outro e, no entanto, tão pouco ficou por dizer. gosto de ti.

#199



o destino.

#198

do baú de memórias:

é madrugada e habitam-me algumas memórias. esta varanda está demasiado quieta, o copo de licor beirão apoia-se no chão a meu lado. na mão descansa-me o cigarro que nunca hei-de fumar, nos olhos repousa intacta a tua imagem, no corpo em peso a vontade de te abraçar. sou tão pequena joão, antes fosse maior, do tamanho da distância que nos separa para os meus braços tocarem os teus e te trazerem para mais perto. ando há dias a vaguear uma qualquer saudade, dessas que inquieta e acanha a pele por todo o corpo e arranha as paredes da alma. já há algum tempo que andava para te escrever mas a indecisão ou a astúcia do meu não jeito para sentimentos arrastava-me a vontade.hoje escrevo-te enquanto chove no meu rosto.

#197

* a ti, que não gostas de poemas, hei-de escrever uma antologia.

- hoje já escrevi três pequenos poemas.

domingo, 9 de agosto de 2009

#196


O Grito de Edward Munch.


... ou o meu.

#195

minhas pequenas dúvidas estabelecem
habitação violenta. furam pelos ossos,
espalham os dedos em volta, os caules
aquecidos de vento, roem
lentamente os pátios inertes,
instalam a dobra azul dos cotovelos,
resistem. Têm, ambígua, a elegância
elementar da água. Dobram
as espigas nos dentes,
conhecem o nervo
estendido no céu.
mexem
os dedos na gaveta, calcário
das costas, vigiam com cuidado
as vísceras dos galos, a variável
rotação dos planetas; enquanto a galáxia
gira em si mesma intensamente inútil.
minhas pequenas dúvidas multiplicam os dentes,
decoram marx, passeiam o silêncio
pela trela.resistem,
furam pelos dedos, as vísceras
intensas do vento, estabelecem
cotovelos completos.
têm
a violência constante dos ossos,
resistem, dobram lentamente
a trela das estrelas,
ferem as vísceras
inertes do silêncio, espalham
em volta a demasia oblíqua
das espigas nos pulsos. lêem
o jornal misturado à saliva, aprendem
sem ruído as máquinas da pele:
minhas pequenas dúvidas resistem
o calcário dos nervos,
estabelecem
habitação inútil,
dobram os ossos ao calor dos pátios.



António Franco Alexandre



* as tuas pequenas dúvidas são guerra em mim.