sexta-feira, 4 de setembro de 2009







olhas-me como se esperasses um grito,
o coração envolto numa película transparente.
olhas-me as mãos envoltas no corpo,
dado como morto,
dado.
falas-me com a voz travada entre parágrafos,
soltos.



o poema fala das sombras da vontade, à sombra de dúvidas persistentes como esta.









ela pergunta-me: o que queres fazer?
eu respondo-lhe: estar tão atento que tudo o que aconteça seja, mesmo remoto, um seu sinal.
ela diz-me: como deves sofrer
e eu odeio-a, porque vive na vigilância da minha dor, moldando-se à sua ortografia.



rui nunes.







quarta-feira, 2 de setembro de 2009


















tenho medo de perder o tempo de ser feliz.
medo de te perder.










fazia nós no outono. o eco genital de Deus a abrir avessos. um
sangue muito branco falava na água da pele. é aqui o meu corpo,
perguntei, mas deste lado da morte ninguém respondia.
árvores todas caíam os braços. o deserto escorria no lugar da pele.
um lençol cheio de silêncio respondia pelo mundo. é aqui o meu corpo,
perguntei, mas deste lado da morte ninguém respondeu.
o dia não sabia se existia. uma canção de barco abria feridas no
tempo. as janelas diziam dezembro, dezembro, e a primavera tinha sido
ontem por fora. é aqui o meu corpo, perguntei, mas deste lado da morte
ninguém responde.


pedro sena lino










pablo picasso