quarta-feira, 23 de setembro de 2009
diz-me: os rios nunca nascem mar. e eu penso que não quero ser rio, nem quero ser mar, nem quero nascer e calo-me. gostava de lhe mostrar a sombra dos afectos, o caudal dos gestos, as margens do amor, mas ela nunca gostou de coisas simples e eu sou feito de água. um dia descobrirá que debaixo da pele lhe crescem dores, nas articulações, nos órgãos, da boca ao coração, lentamente, até todo o seu corpo ser o cárcere que já é, e desconhecer-se.
diz-me: está frio. é outono. estou triste, ou o inverso, estou triste, é outono e está frio. eu inspiro as lágrimas à boca dos olhos e fujo, na pressa de fugir perco-me. quero morrer longe daqui, onde os dias curtos não me trazem dores, onde as árvores semi-nuas não me trazem semi-deuses, onde a voz dos pássaros migratórios me grita o amor.
podias ao menos ter-me ensinado a sobreviver à mudança das estações.
Podemos ficar sentados a noite inteira
à espera de um sinal que nunca chega,
podemos num desespero sem nome perder
o gosto de tudo, enquanto o eu permanece
brilhante, estupidamente brilhante,
a sussurrar-nos ao ouvido a desgraça;
podemos, numa lufa-lufa, ir de filme
em filme, de livro em livro, como quem
sem terra procura uma casa, um lugar
a que possa chamar seu, onde tenha os seus
pertences e tempo para rir e tempo para
se aborrecer. Podemos ter pena de nós próprios,
podemos viver.
Carlos Bessa
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
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