quinta-feira, 24 de setembro de 2009















auguste rodin




















# ah, se ao menos houvesse menos poesia neste corpo!


















da minha janela vê-se uma espécie muito rara de angústia
tem o corpo que não ousei que me fosse
usa o amor como se fosse a origem da sede
e sossega-se contra o peito da alvorada

da minha janela vê-se uma espécie única de medo
chama-se eu mas diz-se tu
e por vezes nós quando prende a vida
a algo tão falível como a vida

da minha janela não se vê mais nada
ouve-se o silêncio contra mim
e chove a morte contra os vidros
por dentro como soa o fim


pedro sena-lino























quarta-feira, 23 de setembro de 2009









penso a solidão da casa plantada sobre a minha íris, enceno a sua morte, lenta, como um incêncio mais interior do que exterior. a solidão dos espaços é indiferente à minha solidão, quase como se de tão aparentemente indissociáveis se unissem em sangue, quase como irmãs. a solidão da casa não choro, não me pertence, e embora lhe saiba todas as estações como se me pertencessem, não sou outono nela. posso ser outono na minha solidão, mas na minha casa não o sou, aqui dentro sou o que quiser ser por fora. subitamente é aqui que aprendo a morrer mais devagar.



































Chamo-me Ofélia. Aquela que não vai conseguir aguentar. A mulher no patíbulo. A mulher com as artérias cortadas. A mulher com overdose NOS LÁBIOS NEVE. A mulher com a cabeça no forno de gás. Ontem parei de me matar. Estou sozinha com os meus peitos as minhas coxas o meu colo. Eu arranco os instrumentos da minha prisão o banco a mesa a cama. Eu destruo o campo de batalha que era a minha casa. Arranco as portas das suas dobradiças para deixar entrar o vento e o grito do mundo. Eu rebento a janela. Com as minhas mãos a sangrar eu rasgo as fotografias dos homens que eu amei e que me usaram na cama na mesa na cadeira no chão. Pego fogo à minha prisão. Atiro a minha roupa para o fogo. Eu desenterro o relógio que era o meu coração para fora do meu peito. Vou para a rua, vestida no meu sangue.





      Heiner Mueller
(http://theresonly1alice.blogspot.com)