quinta-feira, 24 de setembro de 2009











# doem-me todos os ossos do coração.


















duvido que te chames ocaso embora assim gostasse que
fosse, e nesta dúvida reside a clarificação de qualquer coisa
impune, como o amor. na superficialidade de que és feito
dou pinceladas às cegas, tento a minha sorte, que de tão
tentada já não vai a lado nenhum, estagnou. o coração é um
membro gasto, que bate automaticamente, mecanicamente
bombeia sangue para todo o corpo e, se não fosse este gesto
repetido, diria que é um membro morto, morto de frio ou
calor, morto de morte ou de vida e é, nestas pequenas
contradições, que se começa a chorar. é o não saber, é o não
estar onde, o fechar os olhos e arrastar o corpo para longe, o
degular de ideias vazias e esperar que reproduzam efeito nos
confins da alma. estamos todos incrivelmente mortos e nem
sabemos, e gostamos de não saber, de habitar a ignorância
de quem nunca recebeu afecto. somos feridos e ferimos de
dentro para fora.





















auguste rodin




















# ah, se ao menos houvesse menos poesia neste corpo!


















da minha janela vê-se uma espécie muito rara de angústia
tem o corpo que não ousei que me fosse
usa o amor como se fosse a origem da sede
e sossega-se contra o peito da alvorada

da minha janela vê-se uma espécie única de medo
chama-se eu mas diz-se tu
e por vezes nós quando prende a vida
a algo tão falível como a vida

da minha janela não se vê mais nada
ouve-se o silêncio contra mim
e chove a morte contra os vidros
por dentro como soa o fim


pedro sena-lino























quarta-feira, 23 de setembro de 2009









penso a solidão da casa plantada sobre a minha íris, enceno a sua morte, lenta, como um incêncio mais interior do que exterior. a solidão dos espaços é indiferente à minha solidão, quase como se de tão aparentemente indissociáveis se unissem em sangue, quase como irmãs. a solidão da casa não choro, não me pertence, e embora lhe saiba todas as estações como se me pertencessem, não sou outono nela. posso ser outono na minha solidão, mas na minha casa não o sou, aqui dentro sou o que quiser ser por fora. subitamente é aqui que aprendo a morrer mais devagar.