quinta-feira, 24 de setembro de 2009










paula rego















da raiz do coração à tona da epiderme,
tudo me dói, de dentro para fora, como se o mundo
me morresse.
e o mundo morre-me demasiadas vezes entre as mãos,
raramente me apercebo da vida que perco enquanto escrevo,
talvez porque me não pertença ou porque é feita
desta estação e dos ramos, quebradiços como braços,
semi-nús, semi-despidos, semi-tudo.
o corpo, este, já está calejado,
podem vir ventos, outros, como estes,
tempestades de sombra, equinócios de morte
que enquanto houver amor tudo suporto.







































# doem-me todos os ossos do coração.


















duvido que te chames ocaso embora assim gostasse que
fosse, e nesta dúvida reside a clarificação de qualquer coisa
impune, como o amor. na superficialidade de que és feito
dou pinceladas às cegas, tento a minha sorte, que de tão
tentada já não vai a lado nenhum, estagnou. o coração é um
membro gasto, que bate automaticamente, mecanicamente
bombeia sangue para todo o corpo e, se não fosse este gesto
repetido, diria que é um membro morto, morto de frio ou
calor, morto de morte ou de vida e é, nestas pequenas
contradições, que se começa a chorar. é o não saber, é o não
estar onde, o fechar os olhos e arrastar o corpo para longe, o
degular de ideias vazias e esperar que reproduzam efeito nos
confins da alma. estamos todos incrivelmente mortos e nem
sabemos, e gostamos de não saber, de habitar a ignorância
de quem nunca recebeu afecto. somos feridos e ferimos de
dentro para fora.





















auguste rodin




















# ah, se ao menos houvesse menos poesia neste corpo!