sábado, 26 de setembro de 2009
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
"Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados."
bernardo soares
da raiz do coração à tona da epiderme,
tudo me dói, de dentro para fora, como se o mundo
me morresse.
e o mundo morre-me demasiadas vezes entre as mãos,
raramente me apercebo da vida que perco enquanto escrevo,
talvez porque me não pertença ou porque é feita
desta estação e dos ramos, quebradiços como braços,
semi-nús, semi-despidos, semi-tudo.
o corpo, este, já está calejado,
podem vir ventos, outros, como estes,
tempestades de sombra, equinócios de morte
que enquanto houver amor tudo suporto.
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