domingo, 22 de novembro de 2009











entrou descalça dentro do sorriso, lembrou-se depois que não ia preparada para amar e, com um frio gélido de língua aos pés, quis recuar, do alto do céu de boca algumas estrelas roubaram-lhe a atenção, foi quando se esqueceu do frio e se começou lentamente a despir.
já nua dentro do sorriso amou.



segunda-feira, 16 de novembro de 2009

e por certo sabes: está escuro dentro das veias, enquanto corro ou adormeço a dor no peito, enquanto a dor existe, se dor houver antes da morte, como se a morte fosse feita de noite e não lhe coubessem estrelas. e por certo sabes como é mórbido o sentimento como este, tão entrelaçado ao corpo, tão consumado de vento que se embriaga, colossal até ao lamento último de todas as coisas, no cárcere do peito. estou hoje em apuros, creio, sempre estive, mas hoje mais do que sempre.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009



















Fica ao menos o tempo de um cigarro, evita
comigo que este tempo ande. Lá fora estão as
casas, vive gente perto do candeeiro, o som
que nos chega apagado pela distância só
denuncia o nosso silêncio interrompido.
Ajuda-me, faremos o inventário das coisas
que quisemos fazer e não fizemos, mágoas
que deixámos esquecidas entre o ruído das
cidades. Fica, não te aproximes, nenhum
dia é menos sombrio, quando anoitecer vamos
ver as árvores caminhando cercando a casa.




Hélder Moura Pereira






chegaste donde o medo tecia os meus cabelos
donde os pássaros ardiam a voz
donde só o silêncio se desconhecia

era tão larga a morte
que não se podia ver dos meus olhos

chegaste quando o fim sangrava dos meus braços
a casa soterrou-me dos teus passos
terra de mim todo
chegaste pelo coração de água da noite
quando o mistério escorre em grito pelos telhados
e Deus se desabita

chegaste tão de dentro de mim mesmo
que agora que a morte me nasce na garganta
a noite e o meu rosto são alguém
que eu próprio desconheço



Pedro Sena-Lino

segunda-feira, 26 de outubro de 2009
















# onde foi o vento esta noite que não passa