quinta-feira, 5 de agosto de 2010









Um dia alguém numa grande cidade longínqua dirá que morri
di-lo-á decerto com pena mas sem o alívio que eu próprio decerto senti
primeiro ao solucionar de vez esse problema de respiração que a vida é
desde a convulsão da criança que a meio do copo deixou ir leite para a traqueia
até a instantânea atrapalhação do mergulhador a quem de súbito falta o ar comprimido
só dispõe da reserva e lhe faltava tanto que ver no fundo sonhador do mar
depois senti alívio porque às vezes a meio por exemplo da aragem na face
eu pensava na morte como problema metafísico a resolver pelo menos com higiene
se não com dignidade com acerto como mais um problema à medida do homem
Eu estava do lado dos vivos estou do lado dos mortos
o grande problema era saber se me doía ou se não me doía
agora nem sei se me doeu ou não ou fui um mero espectáculo de mau gosto
para a única pessoa encarregada de me ajudar nesse momento
Ninguém a princípio terá sabido que eu morrera só minha
mulher avisada de longe virá e me porá a mão sobre a testa
os demais não não disponho do olhar para me defender
o tempo depressa se passa são trâmites legais até me terem deixado
debaixo do chão bem debaixo do chão sem frases lidas
ou gravadas sem sentimento nenhum
Uns dias depois um pequeno grupo junto a uma grande janela
olhará a neblina da manhã de janeiro
e terá mãos que eu tive para os meus problemas de vivos
Onde eu estive sobre uma mesa com uma perna cruzada
suaves começarão a suceder-se e acumular-se os dias
como cartas revistas linguísticas ou livros adormecidos
despertos apenas no momento fugaz da leitura
A vida será indistinta virá até nós como árvores
rodará em volta como um lençol até cobrir-nos os ombros
Falareis de mim não posso impedir que faleis de mim
mas já nada disso me pesa como o simples facto de ter de ser vosso amigo
Estou só e só para sempre e só desde sempre
mas antes por direito de opção. Agora não
Deixaram-me aqui doutor em tantas e tão grandes tristezas portuguesas
e durmo o sono das coisas convivo com minerais preparo a minha juventude definitiva
Era como eu esperava mas não posso dizer-vos nada
pois tendes ainda o problema e a cara da pessoa viva


ruy belo



















eva hesse



















terça-feira, 3 de agosto de 2010

















.











ao fundo, ela. o corpo suspenso no arame, o rosto iluminado por uma nesga de luz provinda da porta entreaberta. um pouco acima da sua cabeça um carreiro de insectos, em subida. as mãos estão-lhe acima da linha dos seios, ligeiramente inclinadas para a frente, os pés em estado morto, um equilíbrio que engana o olho nú. quando o suor lhe corre na face as pernas tremem um pouco, abaixo da cintura os ossos fazem um ligeiro movimento, na tentativa de deixar ficar o corpo na posição anterior. os olhos são-lhe dois buracos negros em pele branca, muito branca, demasiado branca. a boca ainda aberta, sempre aberta. não sei o nome dela, queria dizê-lo, mas não há nome que a chame.




























"Se pudesse amar, acreditaria no que amasse, e seria alguma coisa, porem o amor é um obscurecimento e ele sente que nasceu com a visão clara e sem crença na luz (a razão ilumina, indiferente ( o sogro dizia-lhe: "você é um racionalista destituído de afectos, irá longe, mas sem acolhimento", "isso não é verdade": respondia-lhe: "amo a sua filha", "quer dizer, respeita as possibilidades que ela lhe oferece", "e não é isso a que normalmente se chama sentimento?", "esfria-me, você esfria-me", " o senhor deve escrever poemas a horas mortas no escritório", "escrevo a horas vivas, horas mortas são todas as suas"."

rui nunes































francisco de goya.
























# mãos enterradas na cabeça.









































harry callahan