sábado, 28 de agosto de 2010


















# crescem-me palavras na boca. preciso dizer - TE



























































não me importa o amor que tenhas
e o amor não se dá nem tem nada para dar
as tuas mãos nas minhas são o tempo que volta
a mover sombras de nanquim, e nos teus lábios
é o sabor a tinta que me atrai.
Ebbro d’inchiostro é mais bonito, quando
ao calor de agosto as bocas se desatam
e as línguas mordem a brancura do linho.

antónio franco alexandre.























Havia uma cidade em espanto linear a cavalo noutra cidade em geometria ambígua, um jardim era metade do outro, em que as pétalas andavam para trás e para diante, com o perfume trocado e o silêncio das cores tremendo no seu erro cheio de alvoroço florido, os arquitectos disseram: é preciso um novo espaço para estas duas pessoas que estão a pensar tanto com o corpo – e numa casa abria-se a porta que vigiava os corredores onde o pólen se acendia e dançava, e de repente a porta descerrava o espectáculo antigo do nascimento da lua num quarto escuro, via-se o que a lua sempre fez para trepar do soalho para o tecto pelas paredes docemente retardadas, era o tempo da seda entre os nossos vinte dedos embrulhados, e alguém escrevia à máquina num dos planos de intersecção urbana, e a frase escrita aparecia com o seu rumor externo noutro sítio, mas agora via-se no meio de uma clareira de silêncio vivo, e ia-se apreendendo a nossa mútua nudez colocada no sentido da frase, nós éramos essa cidade tremendamente posta em uso, em toda a parte estavam mãos em vez de garfos e lâmpadas, e a frase era assim: o amor, as mãos ininterruptas.

herberto hélder





















robert doisneau
















sexta-feira, 27 de agosto de 2010













# todos os dias calmos têm o teu nome e abraçam-me quando me chamas.























talvez amanhã me socorra calmo, entre duas costelas , já depois entranha, já depois não bate e ninguém ouve. debaixo do seio fica, ainda assim, não bater não mata quando a boca fala e a cabeça pensa.estranha. quando o corpo senta e os braços estrebucham. amanhã, talvez, outro dia seja, o dia póstumo, como um dia seguinte. e do mamilo saia já como um enfermo, chora.