terça-feira, 31 de agosto de 2010







central.






se estivesses aqui provavelmente encostava a cabeça no teu ombro e pedia-te que me contasses uma história. uma qualquer só para entreter o tempo. há anúncios de amores nas paredes, velhos amor, sem nome, vencidos pela lixívia. queria falar-te do amor que agora passa. este que acontece. que este amor, meu, tem o teu nome repetido.





























aconteceu-me
nascer.


















De cada vez que te busco
sei do que venho ao encontro


Como se fosses o útero
de onde hei-de nascer de novo.

veneza,
david mourão-ferreira
























III

porque amanhece, subindo
a casa calcária, súbitas asas espalhadas
no silêncio da rocha: o próprio asco
da água calcinada, a curva líquida de merda
à beira do palazzo,
& o doce ventre onde uma espiga ardente
jorra na piazza o céu dentro dos vidros.
suba a cà foscari! os dentes
ácidos de sementes quebradas, ii manifesto
deitado sobre a cama, junto ao sexo.
desabotoando a camisola verde, dizia «os braços,
& na porta de areia os turistas pacientemente esmagavam
o papel dos chuveiros, dizia, «o torso,
& eu sentia, no quadrado cerrado, o suor
escorrido dos lábios, dizia, «a neve,
algures o vento,
& as lajes molhadas, um re de cinza
contra os olhos,
enquanto as asas se despiam, vagarosas.
porque amanhece. almoço de bataglia
c/ spaghetti.
mrs. stone roendo as implacáveis unhas.
a mão que dobra, lenta, a dobra dos cabelos.
a flor pousa no pássaro. miragem. quase noite.
vago, de hashish, o acre
minuto de falar. dizia, «ninguém,
& o quarto quebrado, as mesas onde o mundo
pousa os dedos, porque
certamente amanhece, dizia, «o medo,
& o ombro levantado ameaçava os dias.
invento, a água,
o testículo de ouro,
a lâmina das folhas, invento, na bicicleta verde,
pousava sobre o pêlo: a flor.
& o quarto quebrado, a franja das falanges
sobre a curva das asas.
a pálida brancura das gavetas.
o crânio do silêncio contra a mesa. in
vento, manhãs, quando se parte, de dentro
das esquinas, dizia, «o sol,
algures o sangue,
&. as mãos espalhavam a pele,
cobriam cuidadosas os ossos, o lençol.
noite fora crescia a bicicleta verde,
de cornos espetados sobre o olhar deserto.
esmagava, no peito, o papel das sementes. dizia, «o ar,
& repartido o trigo, amanhecia.
a casa, escura. a relva incendiada. e por dentro
da luz, a seiva do calcário, miragem. invento.
o sol partido em dois. azul, e quase noite
os degraus encardidos, a cama onde adormece
o moedeiro falso.
colar a boca aos passos, o desejo.
devagar se despindo; dizia «o mar,
algures os astros,
& a boca amealhava o ouro ardido.
invento, o ombro de água,
a ruga onde começa
a brancura das asas, horizontal respira.
a carne mansa, do calor da relva
deitada sobre a cama, junto às lajes.
uma manhã, invento, dentro da chuva, erguido
sobre a cinza, dizia «quase noite,
então amanhecia.
ao fundo, longe, vê: a poeira nos pulsos,
& a mão se dobra, lenta, no travão das rodas.
despindo em torno o ar, dizia, «o dia,
& os aviões roncavam sobre a areia.
subindo o céu de vidro,
a casa desertada, ao longe
a cúpula dos sinos, a névoa de são marcos.
ventre que a noite invade,
madrugador o pão dos embarcados. não invento.
papel de azul, as asas, um fio cortado a vento.
inclinado nos olhos, olhava, inclinado nas unhas,
olhava, dizia «amanhece,
porque amanhecia.




veneza, travessia
antónio franco Alexandre

















quando olho a pele dos braços lembro-me do teu cansaço. de como encostavas os olhos ao pescoço do mundo e choravas. de como eu tapava o meu corpo com uma manta de lã. quase sorria. e tu choravas e eu quase te dizia que não voltasses. hoje queria que aqui estivesses, ver a noite, ficar só a vê-la dentro do silêncio a esbracejar.até tarde. até ser de manhã e tu seres da terra.























fica.





peço-te de dentro da noite.






















1
Odeio
quem me ama
e os que me procuram
de madrugada
não me acham

2
Se estou bem
é culpa de Deus
se estou mal
a culpa é minha

3
O que
tenho a dizer
grito-o
do alto dos telhados

4
Quem
muita sacha
muita acha
(a viúva
não sabe
da peúga)

5
Não é
com as pernas
que se fazem
as merdas
(é com a alma)



Adília Lopes