domingo, 3 de outubro de 2010
Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenha-la com minha mão em seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de flagrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, esta instantênea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.
júlio cortázar
A última palavra será a quarta dimensão.
Comprimento: ela falando
Largura: atrás do pensamento
Profundidade: eu falando dela, dos fatos e sentimentos
e de seu atrás do pensamento.
Eu tenho que ser legível quase no escuro.
Tive um sonho nítido inexplicável: sonhei que brin cava com o meu reflexo. Mas meu reflexo não estava num espelho, mas refletia uma outra pessoa que não eu.
Por causa desse sonho é que inventei Ângela como meu reflexo? Tudo é real mas se move va-ga-ro-sa-men-te em câmara lenta. Ou pula de um tema a outro, desconexo. Se me desenraízo fico de raiz exposta ao vento e à chuva. Friável. E não como o granito azu lado e pedra de Iansã sem fenda nem frincha. Ângela por enquanto tem uma tarja sobre o rosto que lhe es conde a identidade.
[...] Só me interessa escrever quando eu me surpreendo com o que escrevo. Eu prescindo da realidade porque posso ter tudo através do pensamento.
A realidade não me surpreende. Mas não é ver dade: de repente tenho uma tal fome da "coisa acon tecer mesmo" que mordo num grito a realidade com os dentes dilacerantes. E depois suspiro sobre a presa cuja carne comi. E por muito tempo, de novo, pres cindo da realidade real e me aconchego em viver da imaginação.»
clarice lispector
sábado, 2 de outubro de 2010
não fiques triste amanhã falo-te de amor, do sorriso agora amarelo da minha avó, das mãos sempre gastas do meu avô. depois talvez te conte de como a vida me tramou. se tiveres tempo choro contigo só um bocadinho. o corpo precisa de água. deixa-me dizer-te antes de afogares que o tempo não chega. e num dia de água como o de hoje, morri. morri abraçada a uma nuvem baixa que me ficou presa nos cabelos. depressa fui para o céu amparada por dois pássaros de pescoços altos e esguios e longas asas. nunca mais ninguém me viu. dizem-me as nuvens que sentem saudades minhas agora que nunca mais me verão. dizem-me que às vezes também como tu andam tristes. eu fecho os olhos e choro para dentro, é assim que se faz no céu. muitas vezes lembro os rostos das pessoas que amei, da avó e do avô. muitas vezes também eu tenho saudades. mas são os pássaros, os que vêm em bandos, que me levam para as terras longe. conheço muitas árvores agora. um dia quando tiveres tempo e quiseres falo-te delas. são árvores bonitas, de tronco grosso e braços longos no ar. muitas vezes fico a vê-las anoitecer, principalmente nos dias pequenos. vejo os bichos recolherem aos troncos e a chuva a adormecer a madeira. lembrei-me agora dos bichos, talvez noutro dia te fale deles. se tiveres tempo e quiseres hei-de contar-te dos insectos ou das flores. há muitas flores a nascer à raiz das árvores, até no inverno. não fiques agora triste, amanhã falo-te destas coisas quando tivermos chorado um bocadinho. em dias de água o tempo não espera, nem perdoa. não esperes para te afogares. vai conhecer os pássaros, as árvores, os bichos e as nuvens. são futuros mortos como nós.
Este é o meu número:
telefonem-me.
Este é o sítio
onde passo as tardes:
encontrem-me.
Ou não me telefonem
nem me encontrem
mas pensem em mim
enquanto estiverem a viver.
pedro mexia
estremeço desde o princípio do meu rosto
desde o momento em que sorri e me sorriram
e é nesse lugar ínfimo que suspendo todas as palavras
que fecho os olhos e sinto a frescura de todas as águas
o oceano que cessa e atende o esvoaçar da primavera
é a primavera de todos os outonos
é aqui que em silêncio se bordam os calendários
dias entre dias e sobre dias e as memórias que escapam
e não mais se alcançam se não nos tornamos menores
- no futuro não há esquecimento nem segredos
cada coração guarda apenas o que for mais comum
vasco gato
Há coisas
sobre
as quais
me quero
calar
porque
preciosas
de mais
precisas
de mais
Outras
porque
cruas
de mais
como
aventais
adília lopes
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