quinta-feira, 14 de outubro de 2010

































"I used to talk to you all the time, even though I was alone. 
I walked around for months talking to you. 
I don't know what to say.
 It was easier when I just imagined you.
 I even imagined you talking back to me."
















paris, texas.






é preciso ter coração
para conseguir alcançar
as estrelas.












quarta-feira, 13 de outubro de 2010





















conta-me de amanhã. que futuro inventar com os braços abertos. que corpo deitar por terra. só por amanhã. como um bicho de conta numa história com final feliz. conta-me de amanhã. não faças de conta. quando o coração fechar e os olhos abrirem. só por amanhã. conta-me que o futuro é um bicho de conta. que não existe se fechares o coração.











ao meu bicho de conta.









terça-feira, 12 de outubro de 2010








































onde vais. em que peito bate o coração. que não estás. um lugar à tua espera é um corpo desamparado. tão perto estivemos das estrelas, por tão dentro da noite fomos à procura de luz. porque agora vais. por onde vais. para onde. inventamos a terra. dois lados do mesmo corpo, à espera. não sei porquê. talvez se mais longe fossemos. mais perto das estrelas. mais dentro da noite. se nos perdêssemos. e as mãos dadas fossem por onde vais.








care for you















sábado, 9 de outubro de 2010






































mãe
hoje atiraram o teu nome contra o meu peito

uma faísca na pele
do tamanho de uma estrela 

uma cicatriz rompeu na noite
fez-se luz. 
























já a terra deu a volta sobre si mesma e as árvores de pernas para o ar criam ninhos nas raízes. com o mundo ao contrário a mulher descansa os pés no ar, cabeça nas nuvens. há uma música ligeira que vem de longe, de quando nunca se estava só. trago atado ao peito um cordão de couro com as iniciais do nome póstumo - alice - chamar-me-ão assim quando morrer. lembro a poça atrás da casa, cheia de musgo ou de medo, e a nascente na gruta onde crescia a água, fria e funda com um beiral de pedra onde as velhas lavavam roupa. e o rosto da minha filha bóia com as folhas à tona d'água. queria não lembrá-lo. ao anoitecer meia dúzia de pintassilgos debruça-se na água, debicam as folhas miúdas. quase chove e eu sempre só. ao colo a memória do corpo pequeno e encharcado, os olhos escancarados, a boca roxa, muito roxa, pele azul, muito azul. alice. chamar-me-ão assim quando morrer.































pequeno espanador de tristezas [a derradeira confissão?]

há qualquer coisa de lágrima numa celebração minha.
se soubesse aceitar a beleza das lágrimas não tinha que [me] explicar a origem delas e podia sorrir com as bochechas molhadas mais vezes sem as rugas.
às vezes uma celebração minha é uma timidez – um dia tenho que conseguir abandonar isso e elevar-me a lesma, gambozino, helibélula. acreditar no fio que o grilo ata às estrelas lá longe no universo vincado de negrume; emprestar a minha pele numa jangada quase a afundar; afastar nuvens que dançam nas peles do mar; soprar uma madrugada pra ela voltar a mim [ainda gostava de ter uma crise de asma por excesso de nuvens nos pulmões respiratórios].
sem ser só nas palavras vividas em poesia, pra mim a morte devia ser um voo dançado por um papagaio-pipa – eu quero ser a aragem desse voar. se morrer um dia vou celebrar a palavra morte com incensos e música cantada por andorinhas – a morte anda por aí à solta e a vida afinal parece é uma máscara...
«a palavra vida é maior que a palavra morte», disse-me o meu sobrinho tchiene hoje que ainda faltam dezasseis dias pra ele nascer.
quando ele chegar ao mundo vou mostrar-lhe uma garça gaga que encontrei num poema e me passou a gaguez dela. eu passei a gaguez toda pra uma tarde e foi bonito ver a tarde esticar-se porque não sabia bem como pronunciar o definitivo pôr-do-sol. a noite ficou extenuada – à espera de chegar.
há qualquer coisa de adélia na palavra fé. talvez porque ela seja uma mulher de palavras pesadas com tanta leveza e saiba cavalgar medos selvagens. há na obra dela manchas leves de infância – essa varicela foi muito manuseada por luuandino [o que viajava com intimidade pelas ruas de antigamente, passando por tetembuatubia, kinaxixi, makulusu, olhos das crianças, pássaros e peixes]. certa noite, no lubango, vi o joão vêncio pendurado numa estrela; ao pé da casa onde sonhei nesse serão havia uma represa que era doadora de ruídos bons – apadrinhados por sapos gordos. espreitei pela janela fechada e quase cometi o erro de olhar um gambozino nos olhos. fechei os olhos e abri a janela, limitei-me a olhar assim as estrelas brilhantes numa ternura interna que eu lembro pouco de frequentar [no lubango a ternura brota em mim sem cerimónias].
às vezes uma chuva molhada é uma coisa boa para escorregar momentos em direcção a mim. quando uma chuva molhada cai sobre o mundo redondo, as coisas da vida e a vida das coisas encontram-se num quintal vasto. foi sob uma chuva molhada em canduras que encontrei as barbas do meu pai num poema e o sorriso da minha mãe noutro. foi nas entrelinhas dum poema ensopado que encontrei, várias vezes, a autorização interna pra falar a palavra amor [vou tentar não apagar isto: eu tenho certo receio da palavra amor, espero só que ela não me tenha receios também; seria triste].
foi com as mãos sujas de restos de amor que estiquei uma madrugada. quando digo a palavra madrugada também sinto um esticão no coração. se agora abuso muito das madrugadas é porque cada uma delas tem restos de amor que eu sempre vou perdendo. qualquer dia acumulo esses restos todos e faço uma construção de amor [talvez chame uma mulher pra se encostar ao outro lado dessa construção]. a palavra amor pode ser um labirinto com mais de catorze lados avessos. depois de esticar uma madrugada encosto a madrugada na minha pele e espero. a pele gosta de ser esculpida de novo muitas vezes na vida.
se puser um «v» na palavra esticar, poderei estivar uma madrugada. aí elevo-me a estivador de madrugadas e posso pensar num caixote com luar, um caixote com geada, caixotes pesados de estrelas, caixotes de nuvens carregadas de pingos, um caixote hermético com lágrimas, uma caixinha de costura com restos concretos de amor.
as palavras são muito bonitas também porque têm significados cicatrizados nelas – falo a palavra kwanza e sou invadido pelas belezas de um rio e o sol todo a bater-lhe nas peles da água escura que ele tem. o rio transporta o barro e os peixes e nunca ninguém se queixou de cócegas. há qualquer coisa de jangada na palavra rio. liberdade seria abraçar um jacaré sem lhe apetecer provar-me. eu queria fazer festinhas na carcaça antiga de um jacaré mas se ele me fizer festinhas magoa-me. vou olhar o jacaré de longe e o rio de perto – provar as minhas mãos nele. a pele do rio tem mais espelho que a minha e que a do jacaré. o céu e o sol gostam de verter reflexos nas peles paradas do rio kwanza e eu gosto de saber isso com os meus olhos atónitos de humidade. ali onde o mar beija o rio a espuma celebra o evento com pássaros que perseguem peixes. assim a poesia seja salobra ou salgada.
seria bonito ver os mangais depositarem raízes num poema meu – era a minha maior alegria fluvial.

há qualquer coisa de sapiência na palavra tristeza. e algumas tristezas não são de espanar – um dia posso descobrir que elas me fazem falta e ter que ir buscá-las na lixeira da catin ton.
vou encher-me de silêncios e imitar as pedras. adormecer entre as pedras pode ser que me contagie delas. depois de conseguir ser pedra vou exercitar o sorriso dessa pedra que eu for. com esse sorriso vou iniciar uma construção...

uma construção pode bem ser o lado avesso de uma certa tristezura.


ondjaki











































tantas vezes é a pele que me devolve 
a memória do teu corpo no meu
quando a chuva fria ocupa os braços
onde antes estiveram os teus.