domingo, 31 de outubro de 2010



































Nos dias nevoentos fecho as janelas, acendo a luz forte e deito-me no tapete. Leio ou penso. Ou então fumo, enquanto as camadas de silêncio se sobrepõem, e as mais pesadas descem e as mais leves se tornam pesadas, até ser impossível destruir o silêncio.

herberto helder








onde estiveram eles
por que caminham como se de tão longe
que nenhum passo pesado que baste
como se um em frente para outro inverso
como se andar sequer fosse indiferente
que nenhuma palavra suficientemente dorida
que só o silêncio e que nem ele
que nada porventura ou só a vida

bénédicte houart





é este o sofrimento do Outono
o primeiro frio e a flor adiada
para um tempo que já não há-de
ser meu

rosa alice branco










































quarta-feira, 27 de outubro de 2010











Quantas vezes ainda verei eu cair
as pálidas leves folhas do outono?
- Não pode um homem vê-las
cair e conseguir viver
(e cá estou também eu
cá estou eu incorrigivelmente a cantar
as gastas folhas do outono
as mesmas das minhas mais antigas leituras
as primeiras e as últimas que tenho visto cair
Haverá outra poesia que não
a que cai nas tristes
folhas do outono?)
- Não pode o homem ver
cair as folhas e viver


ruy belo
















































há um país soberbo, um país de Cocanha, dizem, que eu sonho visitar em companhia de uma velha amiga. País singular, mergulhado nas brumas do nosso Norte, e a que poderíamos chamar o Oriente do Ocidente, a China da Europa, de tal maneira nele se espraiou a ardente e caprichosa fantasia, de tal maneira ela o ilustrou, paciente e obstinada, com suas sábias e delicadas vegetações.
Verdadeiro país de Cocanha, onde tudo é belo, rico, tranquilo, harmonioso; onde o luxo se compraz em mirar-se na ordem; onde a vida é fácil e doce de respirar; onde não se conhece a desordem, a turbulência e o imprevisto; onde a felicidade se casa ao silêncio; onde até a cozinha é poética, farta e excitante ao mesmo tempo; onde tudo se parece contigo, meu querido anjo.
Conheces essa doença febril que se apodera de nós nas frias misérias, essa nostalgia do país desconhecido, essa angústia da curiosidade? Há uma região que se parece contigo, onde tudo é belo, rico, tranquilo e harmonioso, onde a fantasia construiu e decorou uma China ocidental, onde a vida é doce de respirar, onde a felicidade se casa ao silêncio. É lá que se deve ir viver, é lá que se deve ir morrer!
Sim, lá é que se deve ir respirar, sonhar e prolongar as horas pelo infinito das sensações. Um músico escreveu o Convite à Valsa; onde aquele que há de compor o Convite à Viagem, que se possa oferecer à mulher amada, à irmã eleita?
Sim, nessa atmosfera é que seria bom viver - além, onde as horas, mais vagorosas, contêm mais pensamentos, onde os relógios fazem soar a ventura com mais funda e mais significativa solenidade.
Em luzentes painéis, ou em couros dourados e de uma riqueza sombria, vivem discretamente pinturas beatas, calmas e profundas, como a alma dos artistas que a idearam. Os poentes, que tão ricamente colerem a sala de jantar ou a de visitas, são coados por belos estofos, ou por essas altas janelas trabalhadas que o chumbo divide em numerosos compartimentos. Os móveis são vastos, curiosos, estranhos, armados de fechaduras e segredos como almas requintadas. Os espelhos, os metais, os estofos, os ouros e as faianças executam para os olhos uma sinfonia muda e misteriosa; e de todas as coisas, de todos os recantos, das frestas das gavetas e das pregas dos estofos, exala-se um perfume singular, uma santidade de Sumatra, que é como que a alma do apartamento.
Verdadeiro país de Cocanha, digo-te eu, onde tudo é rico, asseado e rebrilhante, como uma bela consciência, uma suntuosa bateria de cozinha, uma ouriverasia esplêndida, uma joalheria multicor! Para ele afluem os tesouros do mundo, como para a casa de um homem laborioso e que fez juz à gratidão do mundo inteiro. País singular, superior aos outros, como a Arte à Natureza, onde esta é reformada pelo sonho, retocada, embelezada, refundida.
Procurem, tornem à procurar, dilatem continuamente os limites de sua felicidade, esses alquimistas da horticultura! Ofereçam prêmios de sessenta e cem mil florins a quem lhes resolver os ambiciosos problemas! Por mim, encontrei a minha tulipa negra e a minha dália azul!
Incomparável flor, tulipa revelada, dália alegórica, não é lá, nessa bela região tão serena e pensativa, que seria bom ir viver e florir! Não ficarias, lá, emoldurada em tua analogia, e não poderias espelhar-te, para falar a linguagem dos místicos, em tua própria correspondência?
Sonhos! sempre sonhos! e quanto mais ambiciosa e fina é alma, tanto mais os sonhos a afastam do possível. Cada homem traz em si sua dose de ópio natural, constantemente segregada e renovada; e, do nascimento à morte, quantas horas podemos contar preenchidas pelo verdadeiro prazer, pela ação feliz e resoluta? Viveremos jamais, conheceremos algum dia esse quadro que o meu espírito pintou, esse quadro que se parece contigo?
Esses tesouros, esses móveis, esse luxo, essa ordem. esses perfumes, essas flores miraculosas, tudo isso és tu. És tu, ainda, aqueles grandes rios e aqueles canais sossegados. Os enormes navios que eles carregam, atulhados de riquezas, e donde sobem os monótonos cantos da manobra, são os meus pensamentos que dormem rolam sobre o teu seio. Docemente os conduzes para o mar que é o Infinito, a refletir as profundezas do céu na limpidez de tua bela alma; e quando, fatigados do marulhar das ondas e repletos dos produtos do Oriente, eles reentram no porto natal, são ainda os meus pensamentos enriquecidos que do Infinito volvem para ti.


charles baudelaire









segunda-feira, 25 de outubro de 2010
















Lo que me gusta de tu cuerpo es el sexo.
Lo que me gusta de tu sexo es la boca.
Lo que me gusta de tu boca es la lengua.
Lo que me gusta de tu lengua es la palabra.
julio cortázar








































esta noite dormi vestida e tive frio, um frio
feito de tudo com que atulhámos a distância.
rosa alice branco








Nada se modera nem se suaviza na memória, que imagina e adorna cada momento. Nada se despoja, salvo a indiferença. Antes dizia: não me esqueças; agora: esquece-me por favor. No esquecimento está a minha esperança, na recordação a minha tortura; mas o mais terrível de tudo é que prefiro a recordação ao esquecimento, e a tortura à esperança.
silvina ocampo









penso:
que tempo faz entre o que te digo e o que choro.
que há entre a pele e o toque.
o que fica para sempre.
que às voltas eu perco o coração.
às vezes era só ficar calada
para sempre.
fechar os lábios e não respirar.
para sempre.









domingo, 24 de outubro de 2010












não posso, sei-o, esquecer-te. esquecer a noite azul em que partiste com as estrelas azuis ao colo. que manto cobrirá agora as noites. se ao menos as tivesses levado todas. se ao menos me tivesses levado como a uma estrela. podia agora chorar no teu colo, deixar-me cegar por uma nesga do teu cabelo. não posso não lembrar-te, sei-o. todas as palavras depois de ditas desaparecem, vão para as noites que levaste, decerto. não posso não lembrar as noites no teu rosto, sempre azuis. e as estrelas amarradas à pele da tua barriga, tão de força. tinha inventado para nós um lugar onde não houvessem dias. que a escuridão vivesse para sempre nos teus olhos. talvez aí entendesses quando eu te dizia que é difícil encontrar estrelas. talvez então percebesses que as estrelas vivem por dentro da película transparente que segura os olhos. não posso. nunca mais. não voltes. não saberia como abraçar-te agora que já sei da falta que me fazes. e se partisses de novo, quem me promete que não levarias todas as estrelas azuis de novo. porquê. sei-o. todas as noites são tuas, mesmo depois de partires, ainda cá vivem para te esperar. se tu soubesses do que conto às noites, que a escuridão é leve afinal e breve é o choro. que já não sei chorar sem as tuas mãos na minha cara. que já não sei cair sem o teu corpo. desculpa não ter chamado pelo teu nome todos os dias. não sei como dizer silêncio.





















Vimos da escuridão e somos luz
ou nascemos da luz e somos sombra?
teresa balté






Já escondi um AMOR com medo de perdê-lo, já perdi um AMOR por escondê-lo.
Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
Já expulsei pessoas que amava de minha vida, já me arrependi por isso.
Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.
Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.
Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.
Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir.
Já menti e me arrependi depois, já falei a verdade e também me arrependi.
Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde chorar quieta em meu canto.
Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
Já tive crises de riso quando não podia.
Já quebrei pratos, copos e vasos, de raiva.
Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.
Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, outras vezes falei o que não pensava para magoar outros.
Já fingi ser o que não sou para agradar uns, já fingi ser o que não sou para desagradar outros.
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz.
Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava.
Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade... Já tive medo do escuro, hoje no escuro "me acho, me agacho, fico ali".
Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.
Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava.
Já chamei pela mamãe no meio da noite fugindo de um pesadelo. Mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda.
Já chamei pessoas próximas de "amigo" e descobri que não eram... Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim.
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra SEMPRE!
Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco q eu vou dizer:
- E daí? Eu adoro voar.

clarice lispector













quanto ao amor. deixarei de lado esta estranheza: de ter o coração quase na boca e nem saber como respiro ainda. o resto, tudo o que não disse, por um acaso típico da morte, escrevo depois, quando o coração souber onde está. e se fugíssemos, eu e o coração, contigo, se por um acaso igual, típico da morte, nos levasses. só para um lugar de onde não saíssemos.