quinta-feira, 4 de novembro de 2010














onde estiveram eles
por que caminham como se de tão longe
que nenhum passo pesado que baste
como se um em frente para outro inverso
como se andar sequer fosse indiferente
que nenhuma palavra suficientemente dorida
que só o silêncio e que nem ele
que nada porventura ou só a vida
bénédicte houart











não posso, não, não chorar. deixar então o corpo correr, se ao menos o corpo corresse em direcção ao sol e se espetasse na luz para sempre. assim morrer. com a cegueira na pele e a boca aberta. para sempre. a boca. e não posso, não, não ter no rosto duas lágrimas pequenas. e esta certeza de que o mundo foge com o corpo às costas. talvez mais tarde. quando dezembro vier e se dezembro vier. nunca se sabe. se o mundo partir leva dezembro com ele. nunca se sabe. assim morrer.










quarta-feira, 3 de novembro de 2010





























às vezes
perigosamente
as veias coagulam
não percebem:
viver é uma hemorragia calculada
ana hatherly






















nunca acreditei na felicidade. essa coisa de sorrir nunca me disse respeito. acreditava quando os via sorrir, aos outros, tudo parecia tão fácil quando arregalavam os olhos e a boca. tudo faria de qualquer forma sentido, e o sentido que assim fazia corria com a minha vida, em ponto morto. às vezes sentava-me só a observar os outros, tantos corpos quebradiços. frágeis como as nuvens de água repentina. nunca lhes falava, falar para quê, se os via assim cobertos de lágrimas, mas só nos meus olhos elas existiam. nunca acreditei que não chorar fosse o constante movimento de um corpo que anda. e aprender a andar é complicado, o corpo é pesado, o coração tomba. é preciso ser delicado para perceber a rotação do espaço vago à nossa volta e equilibrar o corpo. aprendi a andar há pouco tempo, antes apenas cambaleava. talvez os dias mais curtos tendam para a chuva. talvez para o sol. ou talvez a chuva ou o sol tendam para os dias mais curtos. hoje é um dia curto e dói-me o coração, quase tomba. gostava de perceber o movimento das estações, se é como o do corpo, se também se trata de um equilíbrio. um dia, talvez encontre quem mo ensine, acredito. por agora pouco mais posso fazer. sentar-me-ei como de costume a ver passar os outros.


















terça-feira, 2 de novembro de 2010





























Necessito de algo que me sacuda por dentro
e que se me agarre com força,
para que eu entenda
que ali há qualquer coisa para contar.
josé saramago











































Não é verdade que o céu seja indiferente às nossas preocupações e anseios. 
O céu está constantemente a enviar-nos sinais, avisos, 
e se não dizemos bons conselhos é porque a experiência 
de um lado e do outro, isto é, a dele ou a nossa, 
já demonstrou que não vale a pena esforçar a memória, 
que todos a temos mais ou menos fraca.
josé saramago














domingo, 31 de outubro de 2010



































Nos dias nevoentos fecho as janelas, acendo a luz forte e deito-me no tapete. Leio ou penso. Ou então fumo, enquanto as camadas de silêncio se sobrepõem, e as mais pesadas descem e as mais leves se tornam pesadas, até ser impossível destruir o silêncio.

herberto helder








onde estiveram eles
por que caminham como se de tão longe
que nenhum passo pesado que baste
como se um em frente para outro inverso
como se andar sequer fosse indiferente
que nenhuma palavra suficientemente dorida
que só o silêncio e que nem ele
que nada porventura ou só a vida

bénédicte houart





é este o sofrimento do Outono
o primeiro frio e a flor adiada
para um tempo que já não há-de
ser meu

rosa alice branco










































quarta-feira, 27 de outubro de 2010











Quantas vezes ainda verei eu cair
as pálidas leves folhas do outono?
- Não pode um homem vê-las
cair e conseguir viver
(e cá estou também eu
cá estou eu incorrigivelmente a cantar
as gastas folhas do outono
as mesmas das minhas mais antigas leituras
as primeiras e as últimas que tenho visto cair
Haverá outra poesia que não
a que cai nas tristes
folhas do outono?)
- Não pode o homem ver
cair as folhas e viver


ruy belo
















































há um país soberbo, um país de Cocanha, dizem, que eu sonho visitar em companhia de uma velha amiga. País singular, mergulhado nas brumas do nosso Norte, e a que poderíamos chamar o Oriente do Ocidente, a China da Europa, de tal maneira nele se espraiou a ardente e caprichosa fantasia, de tal maneira ela o ilustrou, paciente e obstinada, com suas sábias e delicadas vegetações.
Verdadeiro país de Cocanha, onde tudo é belo, rico, tranquilo, harmonioso; onde o luxo se compraz em mirar-se na ordem; onde a vida é fácil e doce de respirar; onde não se conhece a desordem, a turbulência e o imprevisto; onde a felicidade se casa ao silêncio; onde até a cozinha é poética, farta e excitante ao mesmo tempo; onde tudo se parece contigo, meu querido anjo.
Conheces essa doença febril que se apodera de nós nas frias misérias, essa nostalgia do país desconhecido, essa angústia da curiosidade? Há uma região que se parece contigo, onde tudo é belo, rico, tranquilo e harmonioso, onde a fantasia construiu e decorou uma China ocidental, onde a vida é doce de respirar, onde a felicidade se casa ao silêncio. É lá que se deve ir viver, é lá que se deve ir morrer!
Sim, lá é que se deve ir respirar, sonhar e prolongar as horas pelo infinito das sensações. Um músico escreveu o Convite à Valsa; onde aquele que há de compor o Convite à Viagem, que se possa oferecer à mulher amada, à irmã eleita?
Sim, nessa atmosfera é que seria bom viver - além, onde as horas, mais vagorosas, contêm mais pensamentos, onde os relógios fazem soar a ventura com mais funda e mais significativa solenidade.
Em luzentes painéis, ou em couros dourados e de uma riqueza sombria, vivem discretamente pinturas beatas, calmas e profundas, como a alma dos artistas que a idearam. Os poentes, que tão ricamente colerem a sala de jantar ou a de visitas, são coados por belos estofos, ou por essas altas janelas trabalhadas que o chumbo divide em numerosos compartimentos. Os móveis são vastos, curiosos, estranhos, armados de fechaduras e segredos como almas requintadas. Os espelhos, os metais, os estofos, os ouros e as faianças executam para os olhos uma sinfonia muda e misteriosa; e de todas as coisas, de todos os recantos, das frestas das gavetas e das pregas dos estofos, exala-se um perfume singular, uma santidade de Sumatra, que é como que a alma do apartamento.
Verdadeiro país de Cocanha, digo-te eu, onde tudo é rico, asseado e rebrilhante, como uma bela consciência, uma suntuosa bateria de cozinha, uma ouriverasia esplêndida, uma joalheria multicor! Para ele afluem os tesouros do mundo, como para a casa de um homem laborioso e que fez juz à gratidão do mundo inteiro. País singular, superior aos outros, como a Arte à Natureza, onde esta é reformada pelo sonho, retocada, embelezada, refundida.
Procurem, tornem à procurar, dilatem continuamente os limites de sua felicidade, esses alquimistas da horticultura! Ofereçam prêmios de sessenta e cem mil florins a quem lhes resolver os ambiciosos problemas! Por mim, encontrei a minha tulipa negra e a minha dália azul!
Incomparável flor, tulipa revelada, dália alegórica, não é lá, nessa bela região tão serena e pensativa, que seria bom ir viver e florir! Não ficarias, lá, emoldurada em tua analogia, e não poderias espelhar-te, para falar a linguagem dos místicos, em tua própria correspondência?
Sonhos! sempre sonhos! e quanto mais ambiciosa e fina é alma, tanto mais os sonhos a afastam do possível. Cada homem traz em si sua dose de ópio natural, constantemente segregada e renovada; e, do nascimento à morte, quantas horas podemos contar preenchidas pelo verdadeiro prazer, pela ação feliz e resoluta? Viveremos jamais, conheceremos algum dia esse quadro que o meu espírito pintou, esse quadro que se parece contigo?
Esses tesouros, esses móveis, esse luxo, essa ordem. esses perfumes, essas flores miraculosas, tudo isso és tu. És tu, ainda, aqueles grandes rios e aqueles canais sossegados. Os enormes navios que eles carregam, atulhados de riquezas, e donde sobem os monótonos cantos da manobra, são os meus pensamentos que dormem rolam sobre o teu seio. Docemente os conduzes para o mar que é o Infinito, a refletir as profundezas do céu na limpidez de tua bela alma; e quando, fatigados do marulhar das ondas e repletos dos produtos do Oriente, eles reentram no porto natal, são ainda os meus pensamentos enriquecidos que do Infinito volvem para ti.


charles baudelaire









segunda-feira, 25 de outubro de 2010
















Lo que me gusta de tu cuerpo es el sexo.
Lo que me gusta de tu sexo es la boca.
Lo que me gusta de tu boca es la lengua.
Lo que me gusta de tu lengua es la palabra.
julio cortázar