domingo, 14 de novembro de 2010



















































hard times for dreamers.






Só mais uma menina entre outras
E o quadro negro onde escrever o teu nome a giz
Como um erro ortográfico do coração.

Castigo.
Entre nós o alto muro do recreio
E a obrigação de permanecer só.

ana salomé











meio da tarde em campo de besteiros: água, pequena e fria,
caindo do granito; e na penumbra,
as flechas. penso: não poderei jamais
esquecer este sítio, este limite,
a serena harmonia de colinas e corpos.
mas tu escondes a boca com as mãos, e já a noite
anónima nos funde; a nuvem cobre campos desolados,
e a paciente traça rói o arco-íris.


vou ficando invisível, aos pedaços,
comendo laranjas no escuro.
o teu corpo é dos que nunca lêem livros,
sabem de estradas e de pássaros, pouco mais;
a tua morada tem no telhado as frinchas
da lei, onde se vê o céu; e eu,
absorto de silêncio e de chuvisco,
ó tosco cantador!,


dissolvo-me na sombra da paisagem,
separo-me de nós, de mim, serei só quase
a chama no carvão que fica ardendo
noite fora, noite fora.
acordaremos, já sei, transparentes e sábios,
do outro lado da criação do mundo;
uma mão presa à luz, outra nas trevas,
um só tronco de chamas, uma asa.

antónio franco alexandre








que lugar este. onde fico. quando o corpo morre. queria. dois braços por dentro da boca. tirem-me do silêncio onde me meti. se aqui me meti ou me meteram. e chove. por dentro do corpo ele ainda espera. se pudesse falar chorava muito. chorava. não podendo falar. não fico. nem a boca. nem o corpo. que lugar este.








































sábado, 13 de novembro de 2010

































em véspera de aniversário.






Eles querem
que eu faça o que faço

Eles querem
que eu diga o que digo

Eles querem
que eu seja o que sou

Eu não quero
fazer o que faço

Eu não quero
dizer o que digo

Eu não quero
ser o que sou

Hoje estou
amanhã sou

E depois
que levem o melhor
que para mim
tanto me faz.

henrique risques pereira







Tristeza para fazê-la humana. E
esperança suficiente para fazê-la feliz.
clarice lispector










por que. se a chuva. se ela viesse ocupar os espaços vazios do corpo. por que. se era tudo pequenino. e as mãos viam o sol por entre os dedos. era tudo pequenino e chovia. por que. se a avó acordasse tarde estava doente. lembro. estava doente. e era tudo pequenino. não sabia da porta de casa. quando chove. como chove. onde. por que. se a chuva parasse a avó morria. era na memória. tudo. não há como lembrar. nem como não. lembrar. por que. se a chuva. se ela viesse não estava triste. estava sozinha.









terça-feira, 9 de novembro de 2010









































Haverá noite para este dia digam-me, uma altura em que deixo de distinguir o salgueiro e depois do salgueiro a janela, os móveis desaparecem porque não acendemos a luz, ficam as pegas de metal a brilhar um momento, um frémito nas portas que ninguém gira, os meus irmãos procurando-se e eu em busca da saída dado que principiaram as dores e não acho o caminho da rua, apercebo-me do alpendre onde a lanterna baloiça na corrente, ao regressar ao baldio via-a na esquina e acalmava, estou a chegar, estou em casa, não me fazem mal já, o quintal fechava-se- -me sobre o corpo e escondia-me, nenhuma cólica, nenhum suor, a paz e com a paz a indecisão da madrugada no peitoril
- Nasço não nasço?

antónio lobo antunes











Este inevitável vazio
das coisas, a sua falta
de relação com as nossas expectativas
e a esperança com que as
definimos, não é um vazio
passivo; sussura, reclama que
a pedra continue a ser pedra,
que o vertical, o instantâneo,
continue a incidir sem violência
sobre o horizontal. O permanente,
então, resistirá com a paciência
própria do alheio, do que já
não importa, explicando-nos de novo
as primeiras ligações para que não
mais esqueçamos que a água
é a pedra mais dura.

mariano peyrou











Penso às vezes que chegou a hora de estar calado.
Pôr de lado as palavras,
as pobres palavras usadas
até ao fio,
vexadas uma e outra vez
até perderem
o mais leve sinal da sua intenção primitiva
de nomear as coisas, os seres,
as paisagens, os rios
e as efémeras paixões dos homens
montados em seus corcéis
que a vaidade aparelhou
antes de receber a curta,
a irrebatível lição da tumba.

Sempre os mesmos,
gastando as palavras
até não poder, sequer, orar com elas,
nem exibir os desejos
na parca extensão dos sonhos,
seus mendicantes sonhos,
mais propícios à piedade e ao olvido
que ao vão estertor da memória.

As palavras, enfim, caindo
ao poço sem fundo
onde vão buscá-las
os enfatuados tribunos
ávidos de um poder
feito de sombra e desventura.

Imerso no silêncio,
mergulhado em suas águas tranquilas
de levada que detém o seu curso
e se entrega ao imóvel
sossego das lianas,
ao imperceptível palpitar das raízes;
no silêncio, como disse Rimbaud,
há-de morar o poema,
o único possível já,
lavrado nos abismos
onde tudo o que é nomeado
perdeu há muito tempo
a menor ocasião de subsistir,
de instaurar sua estéril mentira
tecida na trama rala das palavras
que giram sem descanso no vazio
onde se perdem
as néscias tarefas dos homens.
Penso às vezes que chegou a hora de estar calado,
mas o silêncio seria então
um prémio desmedido,
uma graça inefável
que eu não creio ter ainda alcançado.


álvaro mutis













quinta-feira, 4 de novembro de 2010


























já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma

paulo leminski









dou por mim. às vezes penso em ti. já nem a cara vejo, nem o coração. só uma sombra muito turva. só. e nem os olhos sei se olham os meus, nem a boca aberta, ou fechada, ou. nem eu. e dou comigo. e sei de mim. sou eu. que fazer quando o corpo te regressa. que não fazer se não te visse, ainda que sombra. ainda que turva. ainda que tu. eu. e dou por mim e dou comigo e sei que vens. que me procuras quando o coração já foi. e eu choro. corro e sei. eu morro. agora que já aqui estás.










































onde estiveram eles
por que caminham como se de tão longe
que nenhum passo pesado que baste
como se um em frente para outro inverso
como se andar sequer fosse indiferente
que nenhuma palavra suficientemente dorida
que só o silêncio e que nem ele
que nada porventura ou só a vida
bénédicte houart











não posso, não, não chorar. deixar então o corpo correr, se ao menos o corpo corresse em direcção ao sol e se espetasse na luz para sempre. assim morrer. com a cegueira na pele e a boca aberta. para sempre. a boca. e não posso, não, não ter no rosto duas lágrimas pequenas. e esta certeza de que o mundo foge com o corpo às costas. talvez mais tarde. quando dezembro vier e se dezembro vier. nunca se sabe. se o mundo partir leva dezembro com ele. nunca se sabe. assim morrer.










quarta-feira, 3 de novembro de 2010





























às vezes
perigosamente
as veias coagulam
não percebem:
viver é uma hemorragia calculada
ana hatherly






















nunca acreditei na felicidade. essa coisa de sorrir nunca me disse respeito. acreditava quando os via sorrir, aos outros, tudo parecia tão fácil quando arregalavam os olhos e a boca. tudo faria de qualquer forma sentido, e o sentido que assim fazia corria com a minha vida, em ponto morto. às vezes sentava-me só a observar os outros, tantos corpos quebradiços. frágeis como as nuvens de água repentina. nunca lhes falava, falar para quê, se os via assim cobertos de lágrimas, mas só nos meus olhos elas existiam. nunca acreditei que não chorar fosse o constante movimento de um corpo que anda. e aprender a andar é complicado, o corpo é pesado, o coração tomba. é preciso ser delicado para perceber a rotação do espaço vago à nossa volta e equilibrar o corpo. aprendi a andar há pouco tempo, antes apenas cambaleava. talvez os dias mais curtos tendam para a chuva. talvez para o sol. ou talvez a chuva ou o sol tendam para os dias mais curtos. hoje é um dia curto e dói-me o coração, quase tomba. gostava de perceber o movimento das estações, se é como o do corpo, se também se trata de um equilíbrio. um dia, talvez encontre quem mo ensine, acredito. por agora pouco mais posso fazer. sentar-me-ei como de costume a ver passar os outros.


















terça-feira, 2 de novembro de 2010





























Necessito de algo que me sacuda por dentro
e que se me agarre com força,
para que eu entenda
que ali há qualquer coisa para contar.
josé saramago











































Não é verdade que o céu seja indiferente às nossas preocupações e anseios. 
O céu está constantemente a enviar-nos sinais, avisos, 
e se não dizemos bons conselhos é porque a experiência 
de um lado e do outro, isto é, a dele ou a nossa, 
já demonstrou que não vale a pena esforçar a memória, 
que todos a temos mais ou menos fraca.
josé saramago