terça-feira, 16 de novembro de 2010
ninguém. .ocupa agora a casa. .e nem os olhos são. estão de passagem. .todos os nomes foram. fica só. .fico só.digo. .cansaço. é de manhã e as ruas vêm todas dar a esta. duas pedras e um lençol de água. .amo-te. .não ouves. porquê. .para quê. .onde. e tudo acaba onde a rua começa. nenhum nome igual ao teu me chama. nenhum olhar. nenhum céu fechado.nenhum pássaro fica em terra. digo. . não sei esquecer-te. nem lembrar-te menos. e só amar-te. .só assim. .não chega.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
lembro-me do vestido. muito azul. com uma marca d'água no rebordo. quase transparente. quase, a olho nu não se via. e ela descia a rua. lembro-me de já te ter falado dela. e do vestido. e de te esperar um pouco abaixo do rebordo. de te dizer que não choro quando faz sol. que. talvez um dia te apercebas que ela e o vestido existiram apenas naquela rua, àquela hora. só nos meus olhos. que a amei como nunca tinha amado ninguém. e posso dizer-te que alça lhe caída do ombro, a seda fina, tão fina. a pele muito branca, de neve. branca. e os olhos de um negro tão negro, tão fundo. tão abertos. e lembro-me de correr rua acima até ela. ela que descia. eu que subia. e a rua não era a mesma. tínhamos nascido em ruas diferentes. eu sei, chorava.
Fechado em mim mesmo,
sem portas de entrada ou saída.
O homem que evita a sua sombra
persegue um impossível.
E aquele que foge
dá menos importância ao que leva consigo
do que ao que deixa para trás.
Aceito-me como sou.
A escuridão fecha-se como um muro
e não há portas de entrada ou de saída.
Quem pensa em mim
agora?
josep m. rodriguez
É amargo o coração do poema.
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalhas, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta.
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.
herberto helder
provavelmente alegria. breve. alguém que assim se pareça. ou apareça. ou então a tristeza, em círculos. um incêndio entre os dedos das mãos. não sei que te dizer. era o mesmo que correr, era o mesmo que fugir. talvez desapareça. uma manhã destas. talvez. cuido de ti. cuido. não posso é esquecer. não partas nunca mais. o meu coração, é um cato. não partas nunca mais.
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domingo, 14 de novembro de 2010
hard times for dreamers.
Só mais uma menina entre outras
E o quadro negro onde escrever o teu nome a giz
Como um erro ortográfico do coração.
Castigo.
Entre nós o alto muro do recreio
E a obrigação de permanecer só.
ana salomé
meio da tarde em campo de besteiros: água, pequena e fria,
caindo do granito; e na penumbra,
as flechas. penso: não poderei jamais
esquecer este sítio, este limite,
a serena harmonia de colinas e corpos.
mas tu escondes a boca com as mãos, e já a noite
anónima nos funde; a nuvem cobre campos desolados,
e a paciente traça rói o arco-íris.
vou ficando invisível, aos pedaços,
comendo laranjas no escuro.
o teu corpo é dos que nunca lêem livros,
sabem de estradas e de pássaros, pouco mais;
a tua morada tem no telhado as frinchas
da lei, onde se vê o céu; e eu,
absorto de silêncio e de chuvisco,
ó tosco cantador!,
dissolvo-me na sombra da paisagem,
separo-me de nós, de mim, serei só quase
a chama no carvão que fica ardendo
noite fora, noite fora.
acordaremos, já sei, transparentes e sábios,
do outro lado da criação do mundo;
uma mão presa à luz, outra nas trevas,
um só tronco de chamas, uma asa.
antónio franco alexandre
que lugar este. onde fico. quando o corpo morre. queria. dois braços por dentro da boca. tirem-me do silêncio onde me meti. se aqui me meti ou me meteram. e chove. por dentro do corpo ele ainda espera. se pudesse falar chorava muito. chorava. não podendo falar. não fico. nem a boca. nem o corpo. que lugar este.
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sábado, 13 de novembro de 2010
em véspera de aniversário.
Eles querem
que eu faça o que faço
Eles querem
que eu diga o que digo
Eles querem
que eu seja o que sou
Eu não quero
fazer o que faço
Eu não quero
dizer o que digo
Eu não quero
ser o que sou
Hoje estou
amanhã sou
E depois
que levem o melhor
que para mim
tanto me faz.
henrique risques pereira
Tristeza para fazê-la humana. E
esperança suficiente para fazê-la feliz.
clarice lispector
por que. se a chuva. se ela viesse ocupar os espaços vazios do corpo. por que. se era tudo pequenino. e as mãos viam o sol por entre os dedos. era tudo pequenino e chovia. por que. se a avó acordasse tarde estava doente. lembro. estava doente. e era tudo pequenino. não sabia da porta de casa. quando chove. como chove. onde. por que. se a chuva parasse a avó morria. era na memória. tudo. não há como lembrar. nem como não. lembrar. por que. se a chuva. se ela viesse não estava triste. estava sozinha.
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terça-feira, 9 de novembro de 2010
Haverá noite para este dia digam-me, uma altura em que deixo de distinguir o salgueiro e depois do salgueiro a janela, os móveis desaparecem porque não acendemos a luz, ficam as pegas de metal a brilhar um momento, um frémito nas portas que ninguém gira, os meus irmãos procurando-se e eu em busca da saída dado que principiaram as dores e não acho o caminho da rua, apercebo-me do alpendre onde a lanterna baloiça na corrente, ao regressar ao baldio via-a na esquina e acalmava, estou a chegar, estou em casa, não me fazem mal já, o quintal fechava-se- -me sobre o corpo e escondia-me, nenhuma cólica, nenhum suor, a paz e com a paz a indecisão da madrugada no peitoril
- Nasço não nasço?
antónio lobo antunes
Este inevitável vazio
das coisas, a sua falta
de relação com as nossas expectativas
e a esperança com que as
definimos, não é um vazio
passivo; sussura, reclama que
a pedra continue a ser pedra,
que o vertical, o instantâneo,
continue a incidir sem violência
sobre o horizontal. O permanente,
então, resistirá com a paciência
própria do alheio, do que já
não importa, explicando-nos de novo
as primeiras ligações para que não
mais esqueçamos que a água
é a pedra mais dura.
mariano peyrou
Penso às vezes que chegou a hora de estar calado.
Pôr de lado as palavras,
as pobres palavras usadas
até ao fio,
vexadas uma e outra vez
até perderem
o mais leve sinal da sua intenção primitiva
de nomear as coisas, os seres,
as paisagens, os rios
e as efémeras paixões dos homens
montados em seus corcéis
que a vaidade aparelhou
antes de receber a curta,
a irrebatível lição da tumba.
Sempre os mesmos,
gastando as palavras
até não poder, sequer, orar com elas,
nem exibir os desejos
na parca extensão dos sonhos,
seus mendicantes sonhos,
mais propícios à piedade e ao olvido
que ao vão estertor da memória.
As palavras, enfim, caindo
ao poço sem fundo
onde vão buscá-las
os enfatuados tribunos
ávidos de um poder
feito de sombra e desventura.
Imerso no silêncio,
mergulhado em suas águas tranquilas
de levada que detém o seu curso
e se entrega ao imóvel
sossego das lianas,
ao imperceptível palpitar das raízes;
no silêncio, como disse Rimbaud,
há-de morar o poema,
o único possível já,
lavrado nos abismos
onde tudo o que é nomeado
perdeu há muito tempo
a menor ocasião de subsistir,
de instaurar sua estéril mentira
tecida na trama rala das palavras
que giram sem descanso no vazio
onde se perdem
as néscias tarefas dos homens.
Penso às vezes que chegou a hora de estar calado,
mas o silêncio seria então
um prémio desmedido,
uma graça inefável
que eu não creio ter ainda alcançado.
álvaro mutis
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quinta-feira, 4 de novembro de 2010
já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo
morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma
morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma
paulo leminski
dou por mim. às vezes penso em ti. já nem a cara vejo, nem o coração. só uma sombra muito turva. só. e nem os olhos sei se olham os meus, nem a boca aberta, ou fechada, ou. nem eu. e dou comigo. e sei de mim. sou eu. que fazer quando o corpo te regressa. que não fazer se não te visse, ainda que sombra. ainda que turva. ainda que tu. eu. e dou por mim e dou comigo e sei que vens. que me procuras quando o coração já foi. e eu choro. corro e sei. eu morro. agora que já aqui estás.
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