domingo, 21 de novembro de 2010





























Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.
antónio maria lisboa




Vivo ilegalmente
na minha idade: falhei alguns aniversários.
Caminhei até onde o medo permitiu,
à beira das levadas de rega.
O meu primeiro amor foi um gafanhoto
verde, depois outros bichos pequenos.
Nunca me apaixonei no cinema
como as outras raparigas: apaixonei-me
pelo cinema.
teresa m.g. jardim








sei das amoras. sabes das amoras. nas silvas, no alto dos arbustos, atrás dos eucaliptos. as silvas no alto dos arbustos. comes as amoras. os lábios negros delas. eu sempre atenta. picam-te os braços nús, as silvas. as amoras são grandes, ficam-te presas entre os dentes. sorris.











sábado, 20 de novembro de 2010




































Não sou feliz, nem poderia sê-lo nunca.
A memória do mal acompanha-me como um cilício.
As minhas ilusões lembram-me os frutos
dos recantos sombrios:
não amadurecem.
miguel torga




Tu corres a meu lado
na direcção contrária.
Qual de nós irá chegar
primeiro à solidão
josé miguel silva






decerto nunca to disse. .e se to disse decerto já não me lembro. .a memória com o passar dos anos encolhe. .também tu. .e o coração. .e decerto todas as coisas que foram do mesmo tempo de onde tu eras. .agora sei. .decerto são tão curtos os dias. .tão longas e demoradas noites trago no peito. .que o coração é um pedaço negro de nuvem cheia. .chove. .não há palavras e se as houvesse não chegariam para todas as memórias que tenho. .tão poucas que ao recordar-me decerto só o teu nome chegaria. .nunca to disse. .nem tão pouco mo disseste. .talvez o amor só o seja no silêncio. .talvez falando o amor morresse. .por isso calamos. .todo este tempo em que foras ou não eras ou não estavas. .todo este tempo decerto nunca to disse. .que o coração é uma nuvem negra. .cheia.










quinta-feira, 18 de novembro de 2010








































embrasse  moi.































Quando caminhares na dor como um chão
estarás de pé na morte onde te vejo
na cal viva das paredes dos ossos
o teu abraço chegará a mim
como um rio acordado de frio.

pedro sena-lino


















There is wind where the rose was,
Cold rain where sweet grass was,
And clouds like sheep
Stream o'er the steep
Grey skies where the lark was.

Nought warm where your hand was,
Nought gold where your hair was,
But phantom, forlorn,
Beneath the thorn,
Your ghost where your face was.

Cold wind where your voice was,
Tears, tears where my heart was,
And ever with me,
Child, ever with me,
Silence where hope was.

walter de la mare

























terça-feira, 16 de novembro de 2010









































ninguém. .ocupa agora a casa. .e nem os olhos são. estão de passagem. .todos os nomes foram. fica só. .fico só.digo. .cansaço. é de manhã e as ruas vêm todas dar a esta. duas pedras e um lençol de água. .amo-te. .não ouves. porquê. .para quê. .onde. e tudo acaba onde a rua começa. nenhum nome igual ao teu me chama. nenhum olhar. nenhum céu fechado.nenhum pássaro fica em terra. digo. . não sei esquecer-te. nem lembrar-te menos. e só amar-te. .só assim. .não chega.











segunda-feira, 15 de novembro de 2010



























lembro-me do vestido. muito azul. com uma marca d'água no rebordo. quase transparente. quase, a olho nu não se via. e ela descia a rua. lembro-me de já te ter falado dela. e do vestido. e de te esperar um pouco abaixo do rebordo. de te dizer que não choro quando faz sol. que. talvez um dia te apercebas que ela e o vestido existiram apenas naquela rua, àquela hora. só nos meus olhos. que a amei como nunca tinha amado ninguém. e posso dizer-te que alça lhe caída do ombro, a seda fina, tão fina. a pele muito branca, de neve. branca. e os olhos de um negro tão negro, tão fundo. tão abertos. e lembro-me de correr rua acima até ela. ela que descia. eu que subia. e a rua não era a mesma. tínhamos nascido em ruas diferentes. eu sei, chorava.













































Fechado em mim mesmo,
sem portas de entrada ou saída.

O homem que evita a sua sombra
persegue um impossível.

E aquele que foge
dá menos importância ao que leva consigo
do que ao que deixa para trás.

Aceito-me como sou.

A escuridão fecha-se como um muro
e não há portas de entrada ou de saída.

Quem pensa em mim
agora?

josep m. rodriguez




É amargo o coração do poema.
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalhas, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta.
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.

herberto helder







provavelmente alegria. breve. alguém que assim se pareça. ou apareça. ou então a tristeza, em círculos. um incêndio entre os dedos das mãos. não sei que te dizer. era o mesmo que correr, era o mesmo que fugir. talvez desapareça. uma manhã destas. talvez. cuido de ti. cuido. não posso é esquecer. não partas nunca mais. o meu coração, é um cato. não partas nunca mais.









domingo, 14 de novembro de 2010



















































hard times for dreamers.






Só mais uma menina entre outras
E o quadro negro onde escrever o teu nome a giz
Como um erro ortográfico do coração.

Castigo.
Entre nós o alto muro do recreio
E a obrigação de permanecer só.

ana salomé











meio da tarde em campo de besteiros: água, pequena e fria,
caindo do granito; e na penumbra,
as flechas. penso: não poderei jamais
esquecer este sítio, este limite,
a serena harmonia de colinas e corpos.
mas tu escondes a boca com as mãos, e já a noite
anónima nos funde; a nuvem cobre campos desolados,
e a paciente traça rói o arco-íris.


vou ficando invisível, aos pedaços,
comendo laranjas no escuro.
o teu corpo é dos que nunca lêem livros,
sabem de estradas e de pássaros, pouco mais;
a tua morada tem no telhado as frinchas
da lei, onde se vê o céu; e eu,
absorto de silêncio e de chuvisco,
ó tosco cantador!,


dissolvo-me na sombra da paisagem,
separo-me de nós, de mim, serei só quase
a chama no carvão que fica ardendo
noite fora, noite fora.
acordaremos, já sei, transparentes e sábios,
do outro lado da criação do mundo;
uma mão presa à luz, outra nas trevas,
um só tronco de chamas, uma asa.

antónio franco alexandre








que lugar este. onde fico. quando o corpo morre. queria. dois braços por dentro da boca. tirem-me do silêncio onde me meti. se aqui me meti ou me meteram. e chove. por dentro do corpo ele ainda espera. se pudesse falar chorava muito. chorava. não podendo falar. não fico. nem a boca. nem o corpo. que lugar este.