quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

























rui cardoso








... sonho com uma velhice silenciosa e melancólica, a mão esquecida sobre a cabeça de um cão. o olhar preso ao cíclico fascínio das águas e dos jardins. sonho com uma velhice onde a solidão não doa. solidão superpovoada de amigos, de silhuetas andróginas para o amor, de rostos belos como sensações de sorrisos, de mãos que aprenderam a falar.

al berto





costumávamos falar noite dentro. nunca te disse que o coração me doía. como dizer-te se te doía o corpo todo. tinhas sempre uma palavra pronta. na ponta da língua à espera. ou então era o silêncio que vinha de visita. punhas as mãos à volta do meu pescoço e sorrias com o nariz encostado ao meu. pedi-te tanto para não morreres. nestas noites últimas tenho pensado tanto em ti. pensado tanto. que o teu rosto me está preso nas retinas. vejo-te em todo o lado. o dia todo falo contigo. coisas vulgares como o tempo ou as estações. e é quase primavera. plantávamos mimosas na jarra da sala. amarelas. sorrias tão alto. não havia humidade nas paredes. e as flores do tojo recostadas na varanda. sinto a tua falta.







terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

e
























estava tão tarde no rosto. mais tarde no pescoço a mão. o braço que antecede o tronco. o tempo é encostar a cabeça. lançar o corpo ao vento. tenho saudades da mão. talvez um dia quando os lugares não forem deste tamanho. de olhos fechados. o amor.











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o teu nome é um pedaço de terra.









segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011











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tínhamos um sonho. do outro lado da janela o sargaço. depois da fala o silêncio. já noite escura o mar e os olhos abertos na água. vivíamos o absurdo de ter uma casa sem nome. um não lugar onde abraçar um corpo. nada. nada. nada. quanto mais fundo mais quieto. mais tranquilo. mais sossegado.e eu acordava e abraçava-te muito. a tua voz por cima dos meus ombros. davas voltas ao corpo e desaparecias. tudo é um sonho quando abrimos o mundo.
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margaret durow



















domingo, 6 de fevereiro de 2011






























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Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás as mãos de quem te espera.
eugénio de andrade



Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
Duma manhã futura.
sophia de mello breyner










que faremos com as palavras não ditas. o não dizer às manhãs o dia. se for noite. que dizer da noite se for dia. não dizer. que faremos com as palavras não ditas como coração ou amor. que dizer.





















terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

















todos os dias são, de serem tantos, dias de ser. todos os dias são à mesma porta. o teu sorriso. as tuas mãos de lona. a tua saia torta. avó. todos os dias àquela porta. todos os dias são teus, por serem tão pouco meus. avó. àquela porta todos os dias vão bater.

















domingo, 30 de janeiro de 2011





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Limito tudo ao incerto. Os ruídos
do coração ou da alma ou o que
isso seja de concreto, ou abstracto.
Escolho ao acaso um livro, calço
estes ou outros sapatos, saio
de jeans ou de saias ou de fato,
escolho perfumes raros,
uma gravata, à refeição
um bom vinho
e tudo isto não ser de mim,
de ninguém,
qualquer retrato.



helga moreira





















não. não há nada aqui. se olhares de lado. de frente só o coração traz o teu rosto. de lado a história muda de figura. e o perfil é de abandono. não há nada aqui. só um cansado gesto. fugindo. e no gerúndio o resto é um coração vazio.