sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011


































Eu tenho raiva à ternura. Eu tenho raiva de ter raiva à ternura. Eu tenho a doença da ternura por ter raiva. Eu tenho tudo excepto a ternura. Eu não tenho ternura e sofro de inveja de quem tem ternura. Eu já só tenho raiva.

(…)


manuel cintra




e do céu pássaros chovia. trazidos pelo vento norte. bicos sedentos de afecto. asas em risco de amor. esperava que me contassem uma história mais feliz. um coração não doído. um corpo apertado noutro. um silêncio de penas enluta as pestanas. não há margens. nem rios. nem azul. um bando de pássaros chove. ainda. nenhum corpo pára. nenhum vento o deixa. só o ruído breve de quem sabe que amor-pássaro acaba.

























com ervas nos braços partes à conquista dos mares altos. os baixos não te servem. ficam-te presos às pernas. cais. és como um pássaro sem ninho. voas por cima d'água com os braços quietos ao vento. queria dizer-te dessas palavras que prendem os movimentos. de como o coração é um barco. mas no teu rosto nenhuma palavra pára. só silêncio. nenhuma floresta habita os teus cabelos. lobos selvagens. ninhos de serpentes. uma coruja pendente. rio. um dia os sonhos vão rasgar céu. sentas-te numa nuvem cheia. voltas a cabeça. já não te vejo a cara. o desassossego tem o teu nome dentro.








quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
















- amas-me?
- amo-te.
ama-se sempre quando alguém nos pergunta.

rui nunes





outro verão queria. sou feliz ontem ou amanhã. nunca hoje. outra tarde. farta de cabelo. ombros nús. pele calma. outra saudade. um relógio onde se não descubram as horas. umas horas onde se não tapem caras. como a tua. triste. pela manhã. com os pássaros foges. os braços desfazem nuvens. não chove. jamais. quietos vão os olhos dados às mãos. tão longe vais. para sempre. tão longos são os dias todos.









terça-feira, 15 de fevereiro de 2011


























Não posso dar-te mais do que te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente
Bons dias maria teresa até depois
preciso de tomar o meu pequeno almoço
a cerveja era boa mas é bom comer
como come qualquer homem normal
e me poupa ao perigo de até pela idade
me converter subitamente num sentimental

ruy belo




tenho pensado muito nos teus olhos. cor de avelã. folhas de outono. perdi-os nas estações.os teus lábios, como as cerejas pedem dias quentes. e a minha boca serão todos os teus dias. e a tua face todas as minhas noites. tenho pensado muito nesse tempo em que corrias. os braços ficavam-te curtos. ao nível da cintura. enrugados pela chuva. pegar-te-ei ao colo noutro inverno. levo-te às neves altas. subterfúgios. nunca soubeste dos bosques. como sebes são os teus cabelos. tenho saudades do teu corpo. pássaro ferido. as tuas lágrimas um caudal de rio. ao entardecer. e as tuas mãos. sempre as tuas mãos. tinham cidades adormecidas. pequenos ouvidos para contar grandes segredos. fomos morrendo. não há tempo, nenhum lugar é nosso. a foz nas tuas pernas. viradas para o mar. os pés como janelas entreabertas. nenhum peixe no umbigo. no teu peito nem um barco atraca. o sal nas dobras. só. sal e sargaço. e a morte sempre ali ao pé.








sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

















Soledad
Antes que o sol se vá
como um passaro perdido
também te direi adeus,
Soledad, Soledad
Também te direi adeus....

Terra
Terra morrendo de fome
Pedras secas, folhas bravas
Ai quem te pôs esse nome
Soledad, Soledad
Sabia o que são palavras…
Antes que o sol se vá
Como um gesto de agonia
Cairás dos olhos meus
Soledad


Indiazinha
Indiazinha tão sentada
Na cinza do chão deserta
Que pensas, não pensas nada
Soledad, Soledad
Que a vida é toda secreta...

Como estrela, como estrela
Nestas cinzas
Antes que o sol se vá
Nem depois não virá Deus
Soledad, soledad,
Nem depois não virá Deus
Pois só ele explicaria
A quem teu destino serve
Sem mágoa nem alegria
um coração tão breve
Também te direi adeus
Soledad, soledad

cecília meireles













fica.









quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

























rui cardoso








... sonho com uma velhice silenciosa e melancólica, a mão esquecida sobre a cabeça de um cão. o olhar preso ao cíclico fascínio das águas e dos jardins. sonho com uma velhice onde a solidão não doa. solidão superpovoada de amigos, de silhuetas andróginas para o amor, de rostos belos como sensações de sorrisos, de mãos que aprenderam a falar.

al berto





costumávamos falar noite dentro. nunca te disse que o coração me doía. como dizer-te se te doía o corpo todo. tinhas sempre uma palavra pronta. na ponta da língua à espera. ou então era o silêncio que vinha de visita. punhas as mãos à volta do meu pescoço e sorrias com o nariz encostado ao meu. pedi-te tanto para não morreres. nestas noites últimas tenho pensado tanto em ti. pensado tanto. que o teu rosto me está preso nas retinas. vejo-te em todo o lado. o dia todo falo contigo. coisas vulgares como o tempo ou as estações. e é quase primavera. plantávamos mimosas na jarra da sala. amarelas. sorrias tão alto. não havia humidade nas paredes. e as flores do tojo recostadas na varanda. sinto a tua falta.







terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

e
























estava tão tarde no rosto. mais tarde no pescoço a mão. o braço que antecede o tronco. o tempo é encostar a cabeça. lançar o corpo ao vento. tenho saudades da mão. talvez um dia quando os lugares não forem deste tamanho. de olhos fechados. o amor.











*

o teu nome é um pedaço de terra.