terça-feira, 8 de março de 2011











Como posso eu amar-te, se nem sei
como à porta te chamam os vizinhos,
nem visitei a rua onde nasceste,
nem a tua memória confessei.
Que vaga rima me permite agora
desenhar-te de rosto e corpo inteiro
se só na tua pele é verdadeiro
o lume que na língua se demora...
Não deixes que te enganem os recados
na infernal gazeta publicados
que te dão já por escultura minha;
nocturno frankenstein, em vão soprei
trombas de criação, e foste tu
quem me criou a mim quando quiseste

antónio franco alexandre






não partas nunca mais. os dias passam. amanhã é tarde. quando acordares já cá não estás. deixa a pele na pele ficar. deita os olhos. ao coração deixa um pedaço de terra onde fazer morada. não regresses. não te lembres. esquece. o mundo é um lugar longe. demasiado longe. esquece. amanhã é tarde. não leves o meu nome. não. nem os pássaros migrados de amor. não os leves. nem ao rosto. quanto mais o corpo. faz de conta que os dias foram todos teus. deixa o tempo. deixa o rio e as memórias onde fomos felizes.


em paz.














segunda-feira, 7 de março de 2011










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venho dormir junto de ti
e o meu corpo é uma coisa diferente
do que se vê ou toca ou sente;
é, fora de mim, essa coluna de ar onde respiro,
olhos que beijam o teu corpo exacto,
as muitas mãos que dobram o teu rosto.
Um deus que dorme, um deus que dança, e mais
que um mero deus, o breve amor do tempo.
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antónio franco alexandre



se a rua ficasse a meio e o coração se desse como a uma erva o vento. se a erva então crescesse muito. a pele nas raízes e nos dedos um pedaço de terra onde semear amor. o tempo existe para ser nosso. todas as ervas dizem desta história. só os teus olhos são o pequeno verde de manhãs claras. quando acordares ainda a rua está a meio. ainda o coração é teu e o mundo todo com ele. ainda as ervas se fazem na pele quando te abraço.









domingo, 6 de março de 2011

























Escrevo-te de perto, como se a mão
te fosse objecto breve aflorado,
como se da rua te chegasse
a certeza pequena para a compra
dos minutos seguintes. De perto
como o sol, como a cigarra.
Como um silêncio cheio
que te viesse aos olhos de manhã
e amar-te fosse a roupa
escolhida ao começar o dia.

pedro tamen

No fim de contas são poucas as palavras
que nos doem de verdade, e muito poucas
as que conseguem alegrar a alma.
E são também muito poucas as pessoas
que nos fazem bater o coração, e menos
ainda com o correr do tempo.
No fim de contas, são pouquíssimas as coisas
que na verdade importam nesta vida:
poder amar alguém e ser amado,
não morrer depois dos nossos filhos.

amalia bautista






todos os nomes te procuram onde as ruas começam ou acabam. uma brincadeira, um simples encolher de ombros, e o meu corpo abraça o teu. só mais à frente nos damos conta dos braços, são quatro, muito dados uns aos outros. dois corpos sós com o mundo, no príncipio ou no fim das ruas, todos os nomes.










sábado, 5 de março de 2011










É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
ruy belo



duas flores de giesta à entrada da porta. um vaso quebrado. ninguém sabe da mãe. quando as luzes se apagam é já tarde na casa. quase morta de espanto. um latido agudo vindo de norte interrompe o silêncio. nenhum cão sobe a rua. não há sequer rua. ninguém regressa. houvesse só o vento. uma chuva miúda. um bocado de nuvem acode à paisagem. ninguém.

- olá avó. voltaste.

[ ]















sexta-feira, 4 de março de 2011















A incerteza cai com a tarde
no limite da praia. Um pássaro
apanhou-a, como se fosse
um peixe, e sobrevoa as dunas
levando-a no bico. O
seu desenho é nítido, sem
as sombras da dúvida ou
as manchas indecisas da
angústia. Termina com a
interrogação, os traços do fim,
o recorte branco de ondas
na maré baixa. Subo a estrofe
até apanhar esse pássaro
com o verso, prendo-o à frase,
para que as suas asas deixem
de bater e o bico se abra. Então,
a incerteza cai-me na página, e
arrasta-se pelo poema, até
me escorrer pelos dedos para
dentro da própria alma.
nuno júdice







as flores nascem. nos muros. no coração. no teu rosto as flores adormecem o frio. tenho saudades tuas. de me dizeres que o tempo é feito de estações. de me esquecer dos meses. é março. sei-o tão bem. há três meses que partiste. ainda perto os sinos dobram. tenho saudades dos teus olhos. tristes. olhos. dois pequenos e vivos olhos. os teus. a última vez que te vi tinham-se fechado. chegou a altura dos pássaros. vêm com o vento. cheios de penas. ainda não vi andorinhas mas devem estar para chegar. talvez aquela volte a fazer ninho no telhado da casa. talvez não volte. talvez seja só o meu coração a doer. as memórias doem. gostava de te ter fotografado mais.de pé à porta de casa ajeitavas o avental. o cabelo curto branco para trás. sorrias. gostava de te ver sorrir mais.








quinta-feira, 3 de março de 2011












tua presença só é visível nas fotografias dos barcos
as quilhas são a tua memória longínqua das Índias
vai
com os pássaros de bicos exuberantes e sonha
e estende o corpo cansado nos intervalos da erva fresca
onde alguém costurou pedras brancas na orla das grandes rotas
a cidade espera-te com o cais de madeira
junto ao rio abre as mãos toca nos corpos com os lábios
agarra-os dentro de ti
até que da terra lodosa brotem especiarias
porque só longe daqui acharás o que falta da tua identidade
só longe daqui conhecerás o sangue e talvez a felicidade
inundando um breve instante a noite de nossos desastres
só longe daqui

al berto





não muito longe. porque o tempo passa. não muito longe o rosto da boca. que a manhã aperta o corpo. nesse silêncio absurdo onde me meto. não muito longe a casa deserta. não muito longe ia o nome. o coração corria. não havia barcos no mar. o céu era um nada coberto de estrelas. e o teu nome sempre de passagem. um dia. não muito longe. talvez te lembres de como voa um coração-pássaro.






quarta-feira, 2 de março de 2011











"conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo"
al berto




no baldio os braços. erguidos. só depois o corpo fundo na erva. nenhuma palavra é este lugar onde as memórias crescem. com o tempo desapareces. como quando fugias com as árvores. em nenhuma casa ficaste. mesmo quando adormecias. a tua pele subitamente fria. mesmo quando corrias ou chamavas o meu nome. nenhum outro nome decoraras. qualquer silaba na tua boca era silêncio. todas as memórias te procuram para um adeus. eu fecho os olhos. a pele fria. o corpo segue com o vento sul.