sexta-feira, 18 de março de 2011



























de luís belo








ficávamos até tarde. falavas-me de amor. depois ias recostar-te ao travesseiro. camisa de dormir amarrotada nas costas. sorrias - o amor é esperar e tu não sabes esperar - não esperava que terminasses as frases. interrompia para te dizer que sei esperar. tinha a certeza. hoje não tenho. digo-te que não sei que fazer das ruas onde o amor não chega. quero sentar-me à tua espera. outras vezes era o teu sorriso que me visitava durante a noite. por frio calor ou dor. de olhos muito abertos à madrugada. as tuas histórias eram verdade. com rostos que existiram para mo mostrar. pessoas que regressam dos mortos num barco de papel para me dizerem que eras a melhor contadora de histórias que a terra conheceu. - um dia o zé fernando caiu junto ao alpendre. uma largata mordeu-lhe um dedo. se o quisesses ver a correr tapada fora. nem viu. caiu na poça. andou para morrer afogado - não sabias nadar. não. nunca to ensinei. meter-te na água era como tirar peixes dela. quero mostrar-te os oceanos. todos os peixes. de todas as cores e feitios. dizer-te que o amor me espera num tempo onde te abraçava.ainda. dizer-te que o zé fernando vive sozinho numa casa pequena voltada para o monte. que nenhuma largata o voltou a encontrar.
















quinta-feira, 17 de março de 2011

























Havia uma cidade em espanto linear a cavalo noutra cidade em geometria ambígua, um jardim era metade do outro, em que as pétalas andavam para trás e para diante, com o perfume trocado e o silêncio das cores tremendo no seu erro cheio de alvoroço florido, os arquitectos disseram: é preciso um novo espaço para estas duas pessoas que estão a pensar tanto com o corpo – e numa casa abria-se a porta que vigiava os corredores onde o pólen se acendia e dançava, e de repente a porta descerrava o espectáculo antigo do nascimento da lua num quarto escuro, via-se o que a lua sempre fez para trepar do soalho para o tecto pelas paredes docemente retardadas, era o tempo da seda entre os nossos vinte dedos embrulhados, e alguém escrevia à máquina num dos planos de intersecção urbana, e a frase escrita aparecia com o seu rumor externo noutro sítio, mas agora via-se no meio de uma clareira de silêncio vivo, e ia-se apreendendo a nossa mútua nudez colocada no sentido da frase, nós éramos essa cidade tremendamente posta em uso, em toda a parte estavam mãos em vez de garfos e lâmpadas, e a frase era assim: o amor, as mãos ininterruptas.

herberto helder











todos os dias percorro a cidade à procura do teu corpo. todos os dias na cidade. todos os lugares onde estivemos. onde fomos porventura felizes. tu com o teu sorriso sereno e eu com as minhas mãos nos bolsos. todos os dias. sempre um atrás do outro. no cimo da rua estreita. no largo do paço. nunca pensei que sentiria falta dos teus passos. longos. passos em volta. era como se me procurasses nos lugares errados. e eu atrás de ti a ver-te de olhar suspenso. caminhar. todas as árvores te eram como filhas. se lhes acudia a luz paravas. e o teu rosto assim quieto. sereno. no meu se vinha encontrar para um sorriso. não posso dizer que não te sinto a falta. sobretudo dos olhos. esses olhos grandes. negros. essa pele calma. essa pele. que em redor dos lábios era mais fina. tão fina que quando sorrias parecia rasgar-se nos cantos. espero-te. como de costume. à porta da casa onde nos sentávamos quando por falta de andar o peito se estreitava. abraçava-te quando a luz fugia. era o meu corpo o teu por um momento. enquanto a luz tardava o teu pescoço pousado no meu ombro. a cabeça a cair-te pelas minhas costas e esse jeito indiferente de olhares a rua de lado.





































zeynep kayan




Quando aonde foi em que país?
Que vento faz quebrar nas costas destes dias
as ondas de uma antiga música que ouvida
obriga a recuar a noite prometida
em círculos quebrados para além das dunas
fazendo regressar rebanhos de alegrias
abrindo em plena tarde um espaço ao amor?
Que morte vem matar a lábil curva da dor?
Que dor me faz doer de não ter mais que morrer?



ruy belo










quando for o tempo certo. a gente fecha os olhos. a gente abre a boca. a gente gesticula a língua. a gente espera um pouco. fica só. não fala. desenha um intervalo de silêncio. levamos as mãos à cara. inconsequente. só mais tarde percebemos que queríamos dizer. como dar o peito à bala. abrir os olhos. respirar fundo. a morte chega com os pássaros. é quase primavera nos beirais de todas as casas. voltadas para a sombra. as casas. de janelas recostadas umas às outras . as paredes de todas as casas voltadas umas às outras. quase noite e o corpo tão quieto. quando o tempo assim fica a gente já não sabe. a gente espera um pouco. a gente dá duas voltas à chave. ninguém nunca há-de saber desta gente. esta gente que volta com a noite. não grita. a gente não grita. encostamos o cabelo a um pedaço de terra. não ferimos ninguém. quase mortos. quase. falta-nos a fala. a gente já não anda. fica.









terça-feira, 15 de março de 2011

















Meu avô, aquele que construía casas, era de Castelo Branco. Fez habitações para toda a gente menos para ele. Não sei se alguma vez lhe passou pela cabeça que viria a ter um neto também construtor, construtor de coisas pequenas, frágeis, leves. Ele usava o granito como material, as suas casas estão ainda de pé; o neto trabalha com poeira, sem nenhuma pretensão de desafiar o tempo.
eugénio de andrade









meu corpo não descansa sem o teu. talvez o coração não saiba como bater. sem o teu. nem o teu bata já sem o meu. fraco. muito fraco. silêncio. nenhuma palavra atravessa agora o céu. penso em ti tantas vezes quando chove. e mesmo quando não chove e as nuvens ocupam o lugar azul. o teu rosto desapareceu. e todos os lugares onde te tive estão agora subitamente vazios. os sorrisos que me deste não têm boca. nenhum grito é teu. nada que não tivesse morrido. talvez o teu corpo ao meu regresse num dia claro.outro. quando a primavera trouxer as flores e as giestas cobrirem as paisagens. não queria que chorasses. que a solidão não te tivesse trazido dias longos. ter-te dito que todos os lugares onde estiveste são para mim os melhores lugares do mundo. que a tua voz ainda me fala dos sonhos. tinhas tantos sonhos. às vezes penduravas-te no meu pescoço para me dizeres ao ouvido que é triste envelhecer. se eu soubesse não te tinha largado. nunca. dava um nó aos braços. para sempre. todas as memórias me trazem as tuas mãos. em rugas. tenho pensado tanto em ti. do mundo conhecias pouco. fomos à galiza. vou-te contar um segredo avó: não há mais mundo para lá da ibéria. não posso chamar mundo ao que não te conheceu. longos eram os silêncios. voltavam com a queda das folhas. estive tantas vezes longe. nunca te disse a falta que me fizeste. quando as lágrimas me comiam os olhos é por ti que chamava. valentina. e o teu nome era um pássaro. um pássaro de voos altos. desses que migram. migram mas sempre regressam. gostava de te ver agora entrar por aquela porta. mesmo que não dissesses nada. que na boca te crescessem as eras. estás aqui na minha frente e sei do sol.







domingo, 13 de março de 2011














Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
essa perna é tua?, esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente á tua boca,
abre-se a alma à lingua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi facil, nunca,
também a terra morre.
eugénio de andrade

















Essa vontade de um ser o outro para uma unificação
inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
clarice lispector
























certo dia chegou-se a mim e gritou-me a primavera, corri à janela mas não reconheci na paisagem nenhuma semelhança à primavera, um manto branco-neve cobria a terra, da linha do horizonte ao meu olhar. aconcheguei-lhe o tronco nú com um abraço e fui deitar-me com ela junto à lareira. gostava de a ter amado mais nos dias frios, de a ter deitado mais vezes no meu colo, de lhe ter dito, como agora me apetece dizer, que não me importam as estações, o tempo, que tudo é quando queremos que seja e que sim, que ela tinha razão, naquele dia era primavera e eu sou triste por não me dar conta. falava muitas vezes sozinha, principalmente já noite alta, quando me sentia adormecido ou quando no gelo dos pés sentia morrer-lhe a pouco e pouco o coração. nunca soube de que falava, ouvia-a apenas em palavras rápidas e baixas, a sussurrar sobre o escuro das paredes, rente ao chão. dormia sempre sobre o lado esquerdo, quando lhe perguntei porquê respondeu-me que assim lhe pesava menos o coração; apeteceu-me chorar mas apenas me virei de costas, engoli em seco e fui sentar-me, como de costume, à janela, a ver passar a rua ou as pessoas na rua, daquelas pessoas que levam a rua consigo, porque sei da rua inteira de manhã e de apenas um pouco dela à meia-noite.
muitas vezes me apeteceu perguntar-lhe se me amava, se também por mim chorava quando chovia, se eram os meus gestos que lhe aqueciam as entranhas. e muitas vezes estive certo que sim, à maneira dela, de um modo que eu, confesso, nunca me acostumaria. certo é que quando me falava de amor era a sua pele que tremia, inteira, desde os ossos à superfície do corpo. nunca foi expressiva o suficiente para que me permitisse amá-la do mesmo jeito que ela me amava, nunca mo soube ensinar. muitas vezes me falava de outras coisas quando lhe apetecia falar de amor, falava do azul do céu quando não há nuvens, da suave brisa que atirava contra o chão as ervas daninhas nos campos, nos canteiros, junto à raiz das árvores ou do coração. todas as noites se sentava a embalar a solidão, cabeça tombada sobre o colo, pernas cruzadas no chão da sala, as mãos, como poderei eu falar das mãos, sempre geladas, pendiam-lhe dos braços como mortas. não sabia o que fazer enquanto tudo à minha volta se transformava, amargas eram as horas e o tempo que as comia nos relógios, nas paredes, no chão, nos móveis, nos espelhos, no telhado, daquela casa abandonada a desencontros de duas pessoas que se amam tanto. não sabia o que fazer. dizia-lhe de como me doíam as palavras quando as não dizia, dizia-lhe do espaço entre os nossos braços, de como me atrapalhava o não jeito para grandes conversas, como me magoavam os silêncios, as faltas, as constantes mudanças. dizia-lhe tudo quando a noite vinha porque era à noite que tudo me doía mais. a ela só lhe ficava um adeus entre os lábios, preso no caco da boca, à espera de ser pronunciado antes do corpo abrir a porta e escapar. escapar do mundo, eu sei, que a matava, escapar de mim e do amor que não soube dar-lhe. voltava de madrugada, corpo gelado, deitava-se de costas para mim e ficava de olhos escancarados a ver amanhecer na fronha do lençol. costumava ouvir-lhe algumas lágrimas mas calava-as nas minhas.
ela era o grande amor da minha vida, sabia-o bem, mas o amor, só, não chega para fazer duas pessoas felizes. costumava amar-me em espaços e tempos diferentes. amava-me à superfície e eu nunca a soube amar senão na profundidade. era eu que fugia, sempre, por uns dias, alongava-me na estrada para lhe dar espaço, para me dar espaço, para compreender como mudam as pessoas, como se alteram os afectos, para, no segredo da minha própria solidão, encontrar em mim o som dos seus passos, tão violentamente atados aos meus pés, que poucos dias depois estava de volta, e todos os regressos eram como mortes de árvores que se cortam ao meio. como seria possível o amor doer. era na humidade do rosto que se criavam larvas, bichos acostumados à lama dos sentimentos, alimentavam-se das lágrimas e ali iam ficando, junto aos olhos, a criar apatia. em mim crescia uma tristeza passiva, dessas que se encostam a nós como doenças e ficam, a aumentar-nos o negrume nas entranhas. a mim tudo me doía de uma forma lenta, tão lenta que eu próprio não me dava conta de como morria, pouco a pouco, em mim, de amor, ou de outra coisa qualquer a ele tão semelhante que dificíl seria não lhe chamar, amor.
soube das pessoas através dela, antes disso desconhecia o mundo que existe para lá da minha janela, onde era fácil à noite ver, como por magia, do negrume se fazia o universo, pintado de estrelas e outras coisas maiores como a lua, ou os seus gestos. cedo aprendi que entre nós cresciam ervas daninhas, cedo as tentei cortar mas em vão, cedo reparei que nos seus olhos nascia noite sem estrelas nem lua, sem universo, tudo era baço. tentei inumeras vezes aconchegar-lhe o corpo, ou a dor, sentava-me com ela à lareira, a ver ranger a madeira seca, a ver formarem-se as chamas, a ver crescer a cinza, a ver morrer o fogo. sem uma única palavra, sem um único mover de corpo. estáticos até ao limite superficial da pele, onde tantas vezes saboreei a vida. antes dela era o tempo de ver morrer o mundo. nos primeiros dias não me deixava dormir a seu lado, ficava do lado de fora da porta do quarto, aninhado na madeira húmida do chão, enrolado num cobertor, à espera que a manhã a descibrisse desperta. tinha medo que morresse sem mim, sem ninguém.
vinha às vezes falar-me devagar, principalmente aos domingos, já tarde alta, chegava-se a mim por trás e enumerava os pequenos objectos da sala, um a um, até se lhe esgotar a voz na chávena presa aos dedos da minha mão, depois abraçava-me rápido, antecipando a fuga subsequente. escondia-se de mim durante dias, fechada no quarto brincava com as paredes, com as moscas mortas contra as paredes, com a madeira suja do tecto, com a roupa, com o cabelo que sempre cortava rente, com o dia, com a noite, com os móveis, e deixava que tudo aquilo se suicidasse lentamente nos seus olhos, até lhe subir uma certa loucura à cabeça. deambulava depois pela casa, descalça, à procura de calor. sempre soube dar-lhe espaço, até ela se afogar no espaço que eu lhe dava, como uma pequena lágrima quando cai à chuva.
nunca a chamei pelo nome, duvido que tenha nome próprio, se o tiver deve ser um desses substantivos monossilábicos, qualquer coisa simples como o mar. nunca gostei de dar nome às coisas ou às pessoas. sabia-a perto porque me cheirava a primavera, mais perto ainda quando me sabia a sal. ela nomeava todas as coisas como se os nomes que lhes dava fossem morrer com elas a seguir, quando num ápice de loucura ou terror, move-se o corpo. julgava que era nela que crescia a morte, qual flor silvestre a nascer num muro, quando nem sequer é tempo de flores, nem de muros. eu sabia que nela nascia o nome de todas as coisas que eu nunca soube existir.
quando me ponho agora a observar o mundo, que é esta pequena casa, escondida ao fundo de uma não menos pequena rua, sei de todas as pessoas, todos os rostos que aqui estiveram a julgá-la, a apontar-lhe o dedo, a ameaçar-lhe os silêncios. quis um dia expulsá-las todas daqui mas não me deixou. acredito que pertenciam já às raízes da sua, mais lúcida, memória; acredito que todos os dias tentava recordá-los menos vezes. mas eram esses rostos que a impediam de sair deste espaço invernal, amarravam-lhe os pés ao soalho, as mãos ao tecto e ficava crucificada à censura de meia dúzia de vozes que se querem longe. ainda os ouço falarem de morte, todos acanhados, como se a morte fosse um bicho caprichoso e pudesse derepente aparecer-lhes. ela calada, como sempre, à espera que a morte não fosse tão óbvia, tão sem sal, perderia toda a graça.eu quando falo de morte é do lado de fora que a vejo, por dentro é só carne e órgãos e sangue e outras coisas, que andam por ali a boiar, restos de afectos, creio, sentimentos, julgo. a morte a ela dava-lhe tesão.
um dia partiu na calmaria de um beijo, foi, primeiro pela luz fosca da manhã depois pelo sol, nunca mais a voltei a ver. às vezes procuro-a fora de mim, na imobilidade dos objectos, no caudal estático das lágrimas, já sem rosto, ou corpo que a recorde. mas é por dentro da pele que a encontro, a sua solidão a abrir-se em ferida no meu peito, o seu não jeito para o amor, como se amar-me fosse o que de mais precioso lhe entregara a vida. custa-me recordar-lhe as feições, às vezes prefiro chorá-la, só assim, chorá-la inesgotavelmente, até me afogar dela e morrer para sempre. estar só é ver crescer a humanidade nos objectos e ver morrer-nos a humanidade no corpo, ser humano é transitório. a mim custa-me sentir tudo isto, sem paz, sem nada. sinto-me sem casa, sem vida que me habite, sem um diabo que me carregue ao colo, me leve de encontro à luz solar que a levou.
acordou-me. estava vestida de neve, descalça, gelada. era inverno, talvez novembro, não consigo precisar o dia. em cuecas desci a correr as escadas, assim saí à rua e dançamos de madrugada, flocos de vida ainda, a desfazerem-se em água. foi o madrugar mais bonito da minha vida, ainda hoje lhe sinto o gelo a queimar-me a pele do peito, a incendiar-me o coração. não me deixou abraçá-la, raramente me deixava abraçá-la, encolhiasse depois no chão, em forma de caracol, joelhos contra a boca. nunca lhe soube dizer que a amava ali assim, sozinha, enrolada em si mesma, a tentar ouvir bater o seu próprio coração.









parabéns, b.















sexta-feira, 11 de março de 2011




















teresa queirós






O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

eugénio de andrade




vou com os pássaros. no topo das árvores. no mundo. o mundo todo tão pequeno. e vou com os pássaros. se volto não sei. se o vento for forte. se as asas forem pequenas. se o coração não pesar. se as manhãs forem todas claras. na pele os dias caem como penas e o sol não parte. nem o coração. nem a cabeça. se fico só o sabe o tempo e os lugares onde nunca estive. com os teus braços em volta dos meus. a tua boca ri como as flores bravas nos muros. nas tuas mãos todos os leitos correm. e nenhum rio nunca será teu. os pássaros não morrem.






















uma ternura, só, das tuas
não palavras, as dóceis, as
migrantes, as sem

nome sequer, ninguém, algum
calor dos dedos quando, em torno,
o surdo som se alheia

um rio, um riso, uma memória
do lado escuro
das mãos, grato

te escondo, esqueço, na
estéril noite agriceleste,
em neve, em chama, em terra

amordaçado,
em laço, em água, em chão
de chuva destrançado,

meu puro amor de noitarder, de som
bra pequena em muramor, murmúrio,
meu morto corpo nu, meu cegamante.

antónio franco alexandre





porém dizer-te que os pés são dois hortos enormes. o corpo descansa quando os olhos se fecham. que dizer dos dias que passam com o vento. lá à frente, sempre mais à frente, vai-me o coração. fora falar-te do tempo que o rosto passa entre as mãos. ou o espaço entre os dois braços. onde estás. todas as frases são pequenas quando te olho de frente.