sexta-feira, 25 de março de 2011















Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

mário cesariny




são assim as ruas. duas lâminas. dois pedaços de vidro. três caminhos cruzados. ninguém me espera. em nenhum lugar. ninguém à espera. nenhum rosto familiar. nenhum sorriso. uma nesga de sonho voltado para sul. com o sol da manhã a doer-me nos olhos. amanhã. não hoje que o amor é cedo. amanhã desenho um corpo de encontro ao meu. um abraço. sob o olhar atento das silvas. onde mais tarde crescerão amoras. amanhã o silêncio. hoje não. que trago o coração tão pequeno no peito. e não posso chorar. não.









quarta-feira, 23 de março de 2011











Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, minha boca nos teus olhos
carregada de flor e dos teus dedos;

como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve - e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.

Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
Digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.

Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.

eugénio de andrade







não podes morrer avó. que é primavera e as estrelas crescem. não podes morrer agora. de novo.como aquela senhora. de cabelos brancos e olhos voltados para o mar. era dezembro. lembraste avó. era dezembro e o corpo foi-me trazido num caixão. e não podes morrer agora que o tempo vai quente. e quentes estão as pedras. e ergueremos o muro. e desceremos até ao rio. mostrar-te-ei como cresceram as árvores que plantamos. não podes morrer agora que é quase abril.e de branco caiaremos as paredes da casa. e a casa abrirá então as portas todas ao sol. quero sentar-me de novo à tua beira. encher de lenha o forno. esperar a cevada ferver. nunca to disse mas fazes a melhor aletria do mundo. e digo mundo porque sei que o teu mundo vai até frança. o teu mundo. não o meu. que sempre foi a ibéria como o daquela senhora que me morreu em dezembro. e era minha avó como tu. e como tu esteve sempre tão perto e quase a partir. nunca falamos de flores. e eu sei como preferes chocolates a flores. como dizes tão mal das luas. tão cedo deitas o corpo à luz. não podes morrer agora que eu não sei se aguento.





































zeynep kayan





"Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada
sobre escada."

herberto helder







há pessoas que não sei se existem. pessoas que trazem à cabeça folhas de tamanho de corações. pessoas que de longe me parecem árvores. grandes árvores verdes. outras grandes árvores semi mortas. não sei falar-te dessas pessoas que por mim passam em dias como hoje. dias grandes. dias atrás de outros dias semelhantes. deixei o corpo ontem. fazia frio. deixei o. hoje faz falta tê-lo. como adormecer vento na pele. não dá. nem faz sentido. nem sinto nada. nem amanhã. porque não existirão mais dias. outros dias onde deixar o corpo. tudo foi ontem. tudo já cá não está. e eu queria ter o corpo agora. para ir com o vento à procura de água.











terça-feira, 22 de março de 2011















ver-te é como ter á minha frente todo o tempo
é tudo serem para mim estradas largas
estradas onde passa o sol poente

é o tempo parar e eu próprio duvidar mas sem pensar
se o tempo existe se existiu alguma vez
e nem mesmo meço a devastação do meu passado.

ruy belo





parece ás vezes que as sílabas ditas ao contrário fazem mais sentido. é quando o corpo se coloca perto do sol. quando a luz bate nos olhos. o teu corpo mente ao meu. não é inverno. já não. nenhuma árvore seca à borda da pele. só na tua boca se demoram as sílabas. presas à língua. tinha para os teus lábios preparado uma cantiga. com palavras fáceis de dizer baixinho ao ouvido. teria de ter pelo menos o mar o sol o calor o mistério dos dias calmos. parece às vezes que os dias calmos chegam quando não esperamos. quando o peito se fecha. e uma nesga de luz irrompe. quero acreditar em ti. às cegas. percorrer as palavras com os dedos todos. nenhum lugar soube tão bem de nós. espero. talvez mais tarde me digas com que sílabas se diz mundo. ou amor. ou nada.











segunda-feira, 21 de março de 2011

































cecil beaton




Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quem a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e ao abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse à governanta não me acorde amanhã
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decida dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou
quis ser atá ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou.


ruy belo







tenho estado bem. nenhum pedaço de terra cobre agora o corpo. só o cheiro a acácias. o vento. suave. a tua mão segura o meu pescoço. não saberia morrer. não. sem te conhecer. assim. nenhum nome sobe agora a rua. deserta. a pele estranha não ter medo. nenhum. a rua passa devagar por nós. vamos tão sós. à frente vai o coração de olhos vendados. cheira a vento e a chuva miúda trazida dos sonhos. o teu corpo desaparece com o vapor de água. nenhum barco é do rio. só o silêncio. breve. de encontro ao peito. o tempo passa e a noite nunca termina. sempre o mesmo dia. aquela hora. aquela infância.

























domingo, 20 de março de 2011
























zeynep kayan








direi alto ou baixo conforme puder
com a boca toda ou já a custar-me a engolir
as palavras mar ou mulher
com certo vagar e cada vez mais devagar
mulher mar
depois quase já só a pensar
o mar a mulher
Não sei mas será
talvez mais que outra coisa qualquer
uma forma de me despedir

ruy belo








se algum dia voltasses com a boca cheia de árvores e ao peito um tronco-coração. se por mim chamasses como às flores março. e o meu nome fosse no vento o ondular das paisagens. montanhas altas a perder de vista. um sorriso de águas paradas. que os lugares te conheciam pelo andar como as minhas mãos a tua pele. que o tempo encontrava sempre no teu corpo o lugar perfeito para atracar. e nenhum barco estaria seguro entre os teus braços enquanto nos olhos te nascesse a terra. fomos uma dessas memórias que o corpo não esquece. uma palavra repetida. uma boca que não fala. silêncio. se algum dia voltasses e fim de março não fosse.

























Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si. Para voltar de ‘dois e dois são quatro’ é preciso voltar, fingir saudade, encontrar o espírito entregue aos amigos, e dizer: como você engordou! Satisfeita até o gargalo pelos seres que mais amo. Estou morrendo meu espírito, sinto isso, sinto...


clarice lispector









nestes dias não falamos muito. encostamos a cabeça a um braço ou a uma perna. pele. e fazemos de conta que o silêncio existe noutro lugar. noutro corpo. tão longe como o mar. tão nosso como a água. ou o sal. na cabeça memórias reencontram rostos. abrir as mãos e deixar crescer-lhes raízes. fundas. raízes de árvores grandes. onde pássaros farão ninho nesta primavera. como corações. os pássaros chegam esta noite com o vento quieto nos olhos. também tu. pela manhã esquecer que dia é este. que tempo faz no peito. que coração me bate. esquecer.