Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.
Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...
miguel torga
sobre magia falo-te amanhã. quando a noite partir e a luz voltar. tenho decorado os lugares para te contar. as ruas todas. todos os corpos atrás de todas as portas. fechadas ou abertas. olhares que te esperam. falei de ti às árvores e aos pássaros. estão de regresso ao céu como as flores à terra. sabemos das estações. sabemos. mais tarde conto-te uma história. um coração que deu a volta ao mundo. tão depressa. tão depressa que se perdeu. mas agora não. amanhã falo-te de magia.
domingo, 10 de abril de 2011
Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.
eugénio de andrade
era como se o corpo abrisse. osso por osso. e ver desaparecer-lhe dentro o universo. estrela a estrela. passavam por mim vestidas de noite. as mulheres. com cestos à cabeça e aventais de bolsos grandes. onde dormiam gigantes. quero contar-te dos meus fantasmas. o meu quarto é o único da casa. pequena. voltada para as nuvens. o vento que passa. ligeiro de manhã mais forte à noite. não fala. desses ventos calados de norte. e é deserto. areia grossa. daquela que arranha os pés. sangro. que dores fundas estas que me deixas. se me levasses ao colo. podíamos ir de encontro ao sol. morrer de luz. fazer de nós boas memórias. felizes. memórias que não morram. como os rostos jovens em fotografias. memórias. para sempre. entre uma invenção de madeira clara. que o corpo adormecesse em paz. quieto entre um lençol e outro. como se dentro de água fosse descendo o rio. e à boca do mar atracasse num ramo e ali ficasse para sempre. ninguém saberia de mim. só mais tarde lembrariam o teu nome como um dos que eu amei. sossegado no meio da minha vida à espera que alguém nos invente uma história feliz. não quero morrer assim. longe de ti.
marlon rabenreither
Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe.
O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.
Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel.
miguel torga
este sonho que tive.
era tarde nas ruas. dentro do coração. não se ouvia nada. o vazio da pele. tão só. tu chegaste depressa. uma imagem de luz. muito brilhante. à espera. demos as mãos. foste outono. de setembro a agosto. todos os meses. todos os anos. não houve tempo. não. desculpa. por não te ter ouvido gritar. que os meus olhos foram dois pequenos buracos onde semearam heras. desculpa-me por não ter voltado enquanto esperaste. é já tarde. a vida passa. este sonho que tive. como flores nos olhos. sorriso. queria ter assim a tua boca. perto do meu ouvido. falar contigo do tempo. ver murchar-te a pele. sei. é já abril. as ruas passam.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração
ruy belo
estávamos na queda dos ossos. como folhas. dos corpos. ou era o coração que não sendo osso doía. e comprimido batia. devagar.devagar. que tempo incerto é este de doer no peito. tanto. com a cabeça voltada para o norte. ao colo uma sexta de flores. sorri. não passa nada aqui. quando tento lembrar-me das flores tenho dores maiores. há uma luz branca nos olhos. cega. não me recordo de ti. bem queria. para te dizer que a pele fugiu para terras amenas. de estações calmas e canais. muitos canais de água limpa. com pedras no fundo onde peixes se escondem da luz. essa luz branca que cega. nesses canais em terras amenas. em estações calmas. onde fui feliz.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Alguém parte uma laranja em silêncio, à entrada
de noites fabulosas.
Mergulha os polegares até onde a laranja
pensa velozmente, e se desenvolve, e aniquila, e depois
renasce. Alguém descasca uma pêra, come
um bago de uva, devota-se
aos frutos. E eu faço uma canção arguta
para entender.
Inclino-me para as mãos ocupadas, as bocas,
as línguas que devoram pela atenção dentro.
herberto helder
nas noites penduramos as memórias longas. - lembras-te daquela vez - os espaços curtos de tempo. em que nos encontrávamos para uma gargalhada. o teu sorriso lilás. penduravas as estrelas nos postes mais altos. eu pegava-te ao colo. levava-te para dentro da noite. tão dentro que ninguém te visse. ninguém. era quando gritavas e o escuro te entrava pela boca. no silêncio ninguém te ouve. mas eu sei que estás. quando por mim passam ruas iluminadas. não sei se regressas porque sabes que estou só ou porque não sabes de ninguém. nem te lembras das ruas. nem de mim. nem nos postes mais altos penduras agora estrelas. procuro-te porque talvez estejas longe. tão longe que não saibas por onde voltar. talvez a memória te abandone. às vezes acontece. não regresses à noite. procura uma manhã clara. com ruas iluminadas. largos raios de sol. hei-de esperar por ti como quem espera o dia. amanhecer.
domingo, 3 de abril de 2011
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.
pablo neruda
abril. esperava-me com a mão em aceno. à entrada da casa. porta sempre aberta. e o coração era-lhe um pequeno floco de neve que o inverno esquecera.nunca lhe disse nada. qualquer coisa seria pouco. às vezes abraçava-a como se abraçam os corpos que queremos que fiquem para sempre. - adeus. até depois. são tantas as primaveras - fugia. nenhum pedaço de terra lhe servia. nenhuma vida. o seu nome é levado pela brisa quente. quando fecho os olhos é fácil lembrar o seu rosto. quieto à entrada da casa. a pele tão branca. os lábios flores de silêncio.queria dizer-lhe - não partas nunca mais.- mas nunca mais é pouco. e volto o corpo para a noite onde me espera o fosco brilho das paisagens. - não regresses aqui.
sábado, 2 de abril de 2011
Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?
Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono
Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha
qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha
ruy belo
há palavras que não dizemos. porque as noites frias voltaram. que o sono chegou e trouxe o mau tempo. chuva. vento forte. é quase domingo. somos quase jovens. a memória ainda não mente. lembro-me de tudo. tão bem. todas as coisas que passaram por mim. os tantos rostos. histórias que não quero esquecer. um dia escrevo-te todos os nomes. todas as pessoas que amei. as que partiram porque o vento quis ou a terra mandou. poucos corpos ficam. no final da história. olhamos a paisagem de olhos fechados e tentamos não esquecer nada. queria dizer-te mas há palavras que não dizemos. porque nos fazem mal. sei que não lembrarei certas coisas para não estragar outras. das pessoas guardo só o melhor. das viagens guardo só as mais belas fotografias. só para dizer-te que há palavras que não dizemos. só porque magoam. dessas palavras como homens estranhos a falar do sol. homens que nunca viram a luz. eu sei que me entendes. tens dentro de ti. a bater-te no peito. um coração tão grande e doente como o meu. um dia. qualquer dia. de olhos fechados às paisagens. encontraremos finalmente o silêncio.