terça-feira, 19 de abril de 2011


































Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

miguel torga








lembrei-me do teu porta-moedas. hoje. a meu lado sentou-se uma senhora. tinha mais ou menos a idade com que morreste. contava as moedas ao colo. um avental muito velho e roto. falava sozinha. alto. eu ouvi deus amor gato reforma céu. o cabelo comprido branco caído no assento. ninguém deu conta mas a certa altura chorou. gotas grossas de tempestade nos olhos. queria abraçá-la como te abraçava quando choravas. quando a solidão te era tanta que falavas alto - para os meus botões dizias - queria inventar outro mundo onde ainda existisses. falar contigo até adormeceres de cansaço ou de medo. levar-te ao colo em direcção às estrelas. - boa noite avó, até amanhã.









segunda-feira, 18 de abril de 2011



































A ti, a quem falo de poesia, a ti
que assistes ao desenrolar de qualquer coisa que não compreendes,
respondo-te que também eu não compreendo,
que não há que compreender,
porque nada nos condena à fala
antes que as palavras aconteçam.

luís quintais








com um sorriso nos lábios dizias - eu não quero morrer esta noite - não morres - tranco a porta. dou três voltas à cerca. olho as nuvens. penso nas américas. sento-me na soleira e conto até vinte e três. respiro fundo e conto outra vez. estás acordada. sinto-o. olhas as árvores lá fora. paisagens de árvores amenas. pensas um pouco em mim. dois olhos feitos de ruas vazias. a noite vai fria. lenta. espero. . o baloiço parado no jardim. as flores adormecem voltadas para ele. queria uma terra grande. como a das flores. uma terra grande onde construir uma casa grande onde ser feliz contigo. um amor grande. do tamanho do céu. quando está sem nuvens ou pelo menos quando tem poucas. um amor que contasse até vinte e três. respirasse fundo e contasse outra vez. pensasse nas américas. olhasse as nuvens. desse três voltas à cerca. abrisse portas. tocasse a pele.












domingo, 17 de abril de 2011





















No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

álvaro de campos









é água o que bate no lugar do coração e em vez do peito o mar. tu sabes da infância as cores. púrpura flor. azul rio. branco pele. verde. muito verde erva. castanho terra. quando nos sentávamos em nuvens a guardar as casas. animais tristes à sombra de árvores altas. choramos muito. os dias atrás de outros vieram cedo. o corpo cresceu. grandes pernas e braços agora presos a um pequeno tronco. a boca fechou-se. mordeu todos os nomes e histórias que ouvira. os rostos que amamos passam por nós como terra que o vento teima em levar. muitos morreram. se fomos felizes não sei. em algum momento nevou. subimos à serra. e o branco pele frio ficou. se fomos felizes não sei. sabe-o deus. se deus houver. pelo teu aniversário subias árvores. comias castanhas. choravas nuvens. e ninguém sabia.














sábado, 16 de abril de 2011








































Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

herberto helder






se fosse amor falavas. as noites são como encostas voltadas para o mar. um descampado. sem árvores. só gaivotas - escuta. quero ficar contigo. fazer-nos felizes. - não sei se existes ou se não. se fosse amor tu falavas. nem que fosse para dizer-me - não estou. sei que todos os lugares são teus. por onde passo é o teu rosto que me visita. mas tu não sabes. ou não queres. ou nem isto é. ou só eu o sinto - não te quero falar do coração. não - fecho os lábios para não deixar entrar ar. quero morder o teu nome. guardá-lo para sempre. dizê-lo dói no peito. amor.













quinta-feira, 14 de abril de 2011

















Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.

herberto helder








se o corpo então fugir foge com ele. qualquer lugar por dentro da pele chama o coração. nenhum tempo de fugir foi mais preciso. foge. não te perguntes se voltas. nenhum regresso pode pensar-se por agora. o que interessa é partir. para dentro de água. esperar uma maré cheia. lançar os ossos ao sal. morrer inteiro. quando amanhã a memória te trouxer devolve ao rosto a boca. e falarás silêncio. com o corpo muito quieto. suspenso. falarás silêncio. parte. metade do mundo espera. a outra metade corre.








segunda-feira, 11 de abril de 2011




























shutkina anya



















Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...

miguel torga







sobre magia falo-te amanhã. quando a noite partir e a luz voltar. tenho decorado os lugares para te contar. as ruas todas. todos os corpos atrás de todas as portas. fechadas ou abertas. olhares que te esperam. falei de ti às árvores e aos pássaros. estão de regresso ao céu como as flores à terra. sabemos das estações. sabemos. mais tarde conto-te uma história. um coração que deu a volta ao mundo. tão depressa. tão depressa que se perdeu. mas agora não. amanhã falo-te de magia.









domingo, 10 de abril de 2011


















Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.

eugénio de andrade






era como se o corpo abrisse. osso por osso. e ver desaparecer-lhe dentro o universo. estrela a estrela. passavam por mim vestidas de noite. as mulheres. com cestos à cabeça e aventais de bolsos grandes. onde dormiam gigantes. quero contar-te dos meus fantasmas. o meu quarto é o único da casa. pequena. voltada para as nuvens. o vento que passa. ligeiro de manhã mais forte à noite. não fala. desses ventos calados de norte. e é deserto. areia grossa. daquela que arranha os pés. sangro. que dores fundas estas que me deixas. se me levasses ao colo. podíamos ir de encontro ao sol. morrer de luz. fazer de nós boas memórias. felizes. memórias que não morram. como os rostos jovens em fotografias. memórias. para sempre. entre uma invenção de madeira clara. que o corpo adormecesse em paz. quieto entre um lençol e outro. como se dentro de água fosse descendo o rio. e à boca do mar atracasse num ramo e ali ficasse para sempre. ninguém saberia de mim. só mais tarde lembrariam o teu nome como um dos que eu amei. sossegado no meio da minha vida à espera que alguém nos invente uma história feliz. não quero morrer assim. longe de ti.