segunda-feira, 25 de abril de 2011





















não escrevo a ninguém, deixei de dar notícias.
ninguém precisa de saber onde me encontro, 
se cheguei bem, se vou partir, se mudei de rosto ou de máscara.
um pássaro, dois homens puxando redes.
até quando poderei suportar a minha própria ausência?
e a vertigem?

al berto








- chama - o teu nome do meio esqueci-o - clara - chora. não sei por que tantos nomes te deram. nem voltas a ser clara. nem tarde é esta. nem outra vez o rosto te procura. que corpo é esse. clara. esse que trazes. que boca fina. que olhos saídos. tão pobre. tanto às vezes choras - clara - por me esquecer do nome. por me esquecer - e sempre clara de manhãs cinzentas. noites tranquilas. pedras cobrindo ervas cobrindo terras cobrindo - memória. que dói dos pés à cabeça. clara. dos pés à cabeça. sem esquecer o coração.































minha querida maria. não me perguntes outra vez pela minha avó. terei de mentir-te. direi que foi finalmente em viagem. direi perto do mar. outro lugar verde. talvez. verde vento. montes altos da europa. praias quentes do equador. antártida. minha avó saiu da ibéria. minha avó foi de balão. ou nas asas de um pássaro grande. sentada. e os seus cabelos bonitos brancos cresceram tanto que formaram nuvens no céu. na sua saia ficaram presas todas as flores. é agora o mais belo jardim do mundo. ou direi que está sentada como de costume à porta de casa. lenço na mão. olhos cansados. sorriso. não maria. minha avó morreu faz tempo. faz tempo em todos os dias dezoito. triste de quem inventou os dias dezoito. morreu de velhice. ou de amor. partiu numa manhã fria. sabes como era. corria-lhe geada nas veias. morreu alegre. ou triste. no hospital de fafe.










domingo, 24 de abril de 2011

































No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.

herberto helder







a senhora tinha a pele como a tua. muito fina. nas mãos, na cara. nos braços. muito fina. a pele. tão fina que os ossos se viam do outro lado. fracos. os ossos. a tentear o corpo. o vestido preto tapava-lhe os joelhos. tão magros. imóveis desde os quarenta. a senhora sentada na sala.sabia de cor o nome de todos os filhos mas a idade não. a memória não guarda números. faz anos em agosto. tu fazias este abril. mais anos. tantos que nem lembro. os anos por ti não passavam. ficavam. hoje era para estar contigo. um dia voltarei a ver-te. a tua blusa azul ao vento. não te esqueças de mim avó. - tens uma campa muito bonita. flores novas. o teu sorriso de mármore - fala comigo. a senhora. na parede: quem chega que deus o salve quem parte que vá com deus.












sábado, 23 de abril de 2011



































e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia


al berto






nestes dias. ando doente. coração à tona de água. vai com a calda das manhãs frágeis. de vidro. parto. como os pássaros vou sobrevoando as nuvens. falta-me o ar. multiplicadas são as incertezas. uma nesga de tempo parada nos olhos. suponho ser desse tempo de ser feliz e sorrir alto. há canções que precisam ser cantadas. na margem do corpo semeio agora os dias. lugares férteis onde adormecer em paz. os dias passam e o coração fica. engomar a pele enrugada de gestos. adeus que me vou embora ó quietas tardes de abril. quero outro mês onde não chova nem falte ar ao coração.











sexta-feira, 22 de abril de 2011





































Não sei, deixo rolar.
Vou olhar os caminhos, o que tiver mais coração, eu sigo.
caio fernando abreu








.conheço. "a cabra cega dos corações miseráveis" de ana c. sei que em algum lugar escondo essa tristeza. não é "uma tristeza difícil" é a "tristeza de saudade" que clarice escrevia. todos os lugares me doem por serem esses. queria eu que fossem outros. mais distantes. que em certos sonhos me visitam. posso dizer pagú que vou contigo. porque também “eu quero ir bem alto, bem alto... é que do outro lado do muro tem uma coisa que eu quero espiar”.quero encontrar outros lugares. estes não me servem. tão longos são os dias. tão curtas noites me dão. que desassossego. trago comigo a gritar no peito esta certeza. "falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão" não é clarice? sorris. também era teu. também. o desconforto de ter um coração tão grande e tão doente. mas "não meu bem, não adianta bancar o distante lá vem o amor nos dilacerar de novo".caio.




à minha amiga
patrícia lino
esse génio,

mar.




























Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.

ana c.






às vezes do silêncio saem rostos. da minha infância fogem como loucos. pequenos rostos de gente antiga. acobardados escondem-se entre árvores e riem muito alto noite inteira. difícil é esquecer o que regressa. o cheiro das camélias. o ruído doente dos sinos. quero outro coração que não se lembre. um coração de quem não teve infância. dois olhos que não reconheçam rostos pequenos. uma boca que saiba falar silêncio. se ainda assim voltarem eu direi que é o destino.











quinta-feira, 21 de abril de 2011





































"Não é raro, tropeço e caio.
Às vezes, tombo feio de ralar
o coração todinho.
Claro que dói, mas
tem uma coisa:
a minha fé continua em pé”

caio fernando abreu







justo me ergo. cabeça baixa ao colo. não faço fitas. dói-me o corpo todo. tenho uma árvore ao peito. passam-me os dias. altos como nuvens cheias. anunciam-se sem luz. eu estou decerto numa altura em que vida de bicho seria fácil. posso culpar o tempo. que a chuva não tem remédio e faz mal ao coração. posso culpar o outro. de quem escrevo em tardes calmas. a mim não me culpe o mundo que justo me ergo e vou pelo corpo como quem cala. este silêncio de coração mal-dito.