terça-feira, 5 de julho de 2011

















e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

al berto



- teu nome de ave dá pena ao meu. não ter-te perto dói. porquê. porquê morrer - que grandes voos te reservam as asas. que noite é esta onde te espero ainda. por que céu andas tu. se andas. se há céu - teu nome era grande. meu corpo todo cabia nele. esticado. estendido. como roupa que seca molhada na corda - e dizer-te outras palavras mais sábias e inteiras. que se dizem quando a vida já não faz sentido e é um absurdo esperar dias felizes. por se ser triste - eu sou triste -










sexta-feira, 1 de julho de 2011







































deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.


al berto














o que sinto. às vezes é como se os braços caíssem e doessem tanto no chão que fosse impossível estar quieta. e o corpo anda às voltas. às voltas. e o tempo não passa. e dói por dentro. ter o mundo às voltas e a cabeça tonta e o corpo quase morto. às vezes tenho a sensação de que um bando de pássaros me ocupou o coração e as crias o comem. todos os dias. não sei se perco o pouco coração que tenho. agora pouco interessa. quero dizer: não me deixes nunca mais - e já não voltas. e é tarde nos beirais das janelas de todas as casas voltadas para o mar. faz deserto na praia - eu estou sem graça.

















quarta-feira, 29 de junho de 2011

























patricija stepanovic







Sobre os cotovelos a água olha o dia sobre

os cotovelos. batem folhas da luz
um pouco abaixo do silêncio. Quero saber
o nome de quem morre: o vestido de ar
ardendo, os pés e movimento no meio
do meu coração. O nome: madeira que arqueja, seca desde o fundo
do seu tempo vegetal coarctado.
E, ao abrir-se a toalha viva, o
nome: a beleza a voltar-se para trás, com seus
pulmões de algodão queimando.
Uma serpente de ouro abraça os quadris
negros e molhados. E a água que se debruça

olha a loucura com seu nome: indecifrável cego

herberto helder




quero para nós o silêncio dos dias imensos. que carregam nuvens - um céu com queda para anjos. estrada sem saída. cume. ravina. tecido fosco. boca sem fôlego - quero para nós o silêncio dos dias vivos. sangue que corre nas veias. eras cobrindo paredes. silvas crescendo nos muros - afinal nas pedras ainda há vida - respira - o mundo está deserto neste corpo. nem uma nesga de luz acode à pele - quero para ti um barco. jardim. arvoredo. pássaros grandes. muito grandes. tão grandes como os anos que passei sem ti.





































Eu não sou muito grande nasci numa aldeia
mas o país que tinha já de si pequeno
fizeram-no pequeno para mim
os donos das pessoas e das terras
os vendilhões das almas no templo do mundo
Sou donde estou e só sou português
por ter em portugal olhado a luz pela primeira vez


ruy belo








pela manhã é o teu rosto que me visita. pânico ou lucidez - estavas tão quieta. pequena. branca. teu corpo frio de neve. queria contar-te uma história de uma senhora que assim quieta plantou o coração em terra baldia. queria contar-te uma história - foges pela casa. o teu corpo pequeno atira-se às sombras. nunca foste a lugar nenhum sei-o hoje - todos os dias a memória do teu rosto pequeno branco. a pele tão murcha. os dias eram tão grandes que te caíam do corpo - havemos de ir à europa.









domingo, 26 de junho de 2011































Que importa sermos de uma só manhã e não haver
em volta
árvore mais açoitada pelos diversos ventos?
Que importa partirmos num desmoronar de poentes?
Mais triste mesmo a vida onde outros passarão
multiplicando-lhe a ausência que importa
se onde pomos os pés é primavera?


ruy belo







escrevo para ti. porque são teus os dias. e todas as árvores se perdem por ti. como se perde o tempo a cada dia. escrevo para ti que sabes que as sombras são escassas e a pele à noite desaparece. com a idade sei das memórias imensas onde não fui feliz. sou novamente a criança que cresce com os pés enterrados no mato e os olhos de um silvado bravo - por vezes soube da felicidade. um manto de neve branca na pele pálida de fome ou remorso. por vezes soube de ti. acreditei que em algum lugar me esperavas com outra infância ao colo. mais feliz. mais nossa. sem o cinzento dos dias tristes ou a geada das manhãs frias. onde não estavas. nem sabias. nem esperavas - às vezes sonhava. prados verdes. mantos de água. tão limpo o céu que nem uma nuvem se via. nem ninguém. só eu corria livre como o vento corre - quero sonhar.contigo.









sábado, 25 de junho de 2011








































Eu sei que às vezes encontro sem saber porquê
Um simples não quê em estátuas retratos antigos
de límpidas mulheres desconhecidas
eu que de súbito à primeira vista me apaixono adolescentemente
por essas mulheres mortas mas contemporâneas
de um pobre poeta português do século vinte
levadas até ele talvez por um discreto gesto
às formas e às cores impresso por um homem
que na arte encontrava a única razão de vida
abro a pasta e deparo com o teu retrato
um retrato de passe anos atrás tirado
no sítio suburbano onde primeiro vivemos
e juntos suportámos com surpresa a solidão
de sermos dois e ela só vergar os ombros onde os dias nos poisavam


ruy belo




nascer de novo para um grande amor. onde também estivesses de braços abertos voltado para o mar - quero dizer-te que todas as manhãs te esperei como se esperam os anos. que de rosto em rosto andei. à procura de uma boca onde pousar o coração - aos campos da minha infância regresso. quero a felicidade dos dias mansos. memórias: da pele estar fria com o vento na tapada. do rosto caído. o umbigo deserto de fome e medo. - aprendi que voltado para norte o corpo adormece mais depressa - abraça-me muito que amanhã é domingo e fazes anos. e não sei nascer de novo. nem sei como te trazer a felicidade dos dias mansos que não tive. um vento fresco de amor no rosto. na tua boca deixo o meu coração para que te invente estrelas. queria dizer-te dos futuros dias calmos. amor. abraça-me muito.










sexta-feira, 24 de junho de 2011












Escuta, escuta:
tenho ainda uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei,
não vai salvar o mundo,
não mudará a vida de ninguém
- mas quem é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco mais.
Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

eugénio de andrade






um mundo de água onde o meu coração coubesse inteiro. e em todas as florestas um sorriso que dentro levasse o teu rosto. o teu rosto para o sol voltado. à espera das folhas. quando caem as folhas. quando se erguem as árvores. quando chegas. quando partes. já não importa. se o mundo fosse assim grande. onde o teu coração no meu batesse. onde o teu corpo com o meu fosse. não importa para onde. que lugares há muitos. tantos.