domingo, 7 de agosto de 2011
Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.
Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.
Há muitas coisas que não quero ver.
Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado.
sophia de mello breyner andresen
as aves vão. de passagem. talvez me recordem com alguma saudade. lá desses lugares por onde passam ou para onde migram quando o frio chega - tenho medo de morrer de frio. também eu deveria migrar - adeus. vou de viagem. mais tarde os meus ombros nus procurarão os teus. em tempos mais quentes. com lareiras acesas e o vento de leste zumbindo à janela.
Etiquetas:
#letras,
#melodias,
#notas autobiográficas,
#palavras
terça-feira, 2 de agosto de 2011
agora estou na beira do penhasco e não vou voar
como o sublime bicho estratosférico brilhante
de plumas esmeraldas tentativos braços
apenas eu baço de nenhuma asa debruçado
sobre o vidro de água e em baixo
os corredores, dispostos à partida
em músculos compactos, e deles o mais jovem (vestido
de improváveis azagaias) exclama: é esta
a fonte do trovão!, e aponta
um buraco azul mudo nas paredes da pedra. por fora
de mim regresso ao som silencioso da cidade
onde todos os rostos são o papel com linhas de inventário
e as patas dos homens pousam na larga secretária
e ficam, em relevo, caminhando no sangue. e eu queria
para ti, uma cidade sem mistério,
o gelo transparente onde mergulha a imagem
dos corredores, lançados no velocíssimo sossego sem repouso
das palavras trocadas, das bocas e dos braços misturados
pela luz, que é uma areia movediça,
este saber de nós sem ócio e sem negócio, iguais
às portas do trovão, onde o mais sábio
se lança nu compacto deus do fogo e ri
antónio franco alexandre
os precipícios esperam-me - com a idade cheia os dias tristes vão-me parecer tão poucos que nem chorarei. por agora são dias inteiros. imensos. quantificáveis como os oceanos - pensarei: ao tempo que não choro - e as alegrias vão-me parecer tamanhas que o mundo ganhará significado nos meus braços - nenhum afluente procurará os rios. à minha boca vão desaguar peixes e nos meus olhos deixarão a água. doce como a memória - direi: não há regressos.
Etiquetas:
#letras,
#lugares comuns,
#notas autobiográficas,
#palavras
Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão desvia os passos do medo. Dorme, meu amor — a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste e pode levantar-se como um pássaro assim que adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas da casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme, meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui, de guarda aos pesadelos — a noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.
tantas vezes imaginei: um elefante de asas ou uma carcaça de abutre entre dentes. lugares a que recorro com frequência quando à cabeça falta o juízo - pois é josé - tinhas razão. por não haver paraíso foram-se as nuvens do céu - pois é josé - sobre amor escrevi pouco.conhecer o coração é como tirar sangue de uma veia cava. funda. como os precipícios. às vezes inquieto-me. é quando fecho os olhos e o céu é uma nesga de luz. muito branca. que parece dizer: o mundo é um lugar pequeno. o mundo é um lugar pequeno - pois é josé - faltou-me uma asa. se a tivesse roubado ao elefante. talvez o elefante caísses. eu voasse. e as nuvens voltassem ligeiras ao céu.
.
certamente nada me fará mais feliz. por agora - recorro sete vezes à paisagem mais linda do mundo. por dia sete para não esquecê-la. mais de sete não para não sofrer - o teu rosto. quieto entre a folhagem - imagino uma árvore surda. uma árvore-silêncio. verde. muito verde. o tronco - quero mostrar-te que linda paisagem é o teu rosto quieto. sobrevoando o medo - dir-te-ei de dias felizes enquanto o coração bater.
Etiquetas:
#lugares comuns,
#notas autobiográficas,
#palavras
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Le soleil, sur le sable, ô lutteuse endormie,
En l'or de tes cheveux chauffe un bain langoureux
Et, consumant l'encens sur ta joue ennemie,
Il mêle avec les pleurs un breuvage amoureux.
De ce blanc Flamboiement l'immuable accalmie
T'a fait dire, attristée, ô mes baisers peureux,
« Nous ne serons jamais une seule momie
Sous l'antique désert et les palmiers heureux! »
Mais ta chevelure est une rivière tiède,
Où noyer sans frissons l'âme qui nous obsède
Et trouver ce Néant que tu ne connais pas.
Je goûterai le fard pleuré par tes paupières,
Pour voir s'il sait donner au coeur que tu frappas
L'insensibilité de l'azur et des pierres.
tristesse d'été de mallarmé
tinha para dizer-te outro verão. mais quente. menos só. mais quieto. menos vento - um onde coubessem os nossos braços. que de quatro se fizeram dois. tão sós. tanto - tinha para dizer-te lugares mais felizes. árvores com troncos altos. ramos soltos. folhas verdes. cheiro a terra. verde-mar. sem algas. sem sal - lugares de histórias. amores imensos. sorrisos ternos. sossego - nenhum verão assim te darei. por não serem minhas as estações mansas - desculpa.
Etiquetas:
#letras,
#lugares comuns,
#notas autobiográficas,
#palavras
quarta-feira, 20 de julho de 2011
jakob landvik
E tantas tantas tantas ilhas
no mar que não nos limitasse
Como deixar-vos se na linha
deste horizonte aquela praia
tão de repente se aproxima
tão de repente se me escapa
Jorram vulcânicas as crinas
de récuas de éguas subaquáticas
Jorram do fundo. E à superfície
crescem as ilhas assombradas
Eis que de longe lembras liras
mas entre as ondas só navalhas
david mourão ferreira
dos dias serem fundos na garganta quando seca - por falta de água o corpo morre de luz ou calor. a pele envelhece o músculo até ao osso. estou só - talvez mais tarde me lembre da cor dos teus olhos enganando o vento e a precipitação - as planícies são no fundo uma garganta sem fim aparente e quando a boca fecha não há ar que as salve. queria salvar os teus braços como quando num abraço me disseste que a vida nunca acaba. queria enganar a saudade. mudar de posição o corpo. voltá-lo para a sombra - já tarde vai o coração quando adormeço e ninguém está. não há regresso.
sábado, 16 de julho de 2011
margaret durow
O teu corpo é um território sim
deixa-me pensar que é assim e
assim o percorro em círculos
não o percorro sim apenas nele
sinto texturas cores cheiros ecos
mas penso em obstáculos não
não digas não é um território é
digo eu e digo e com fronteiras
por isso a progressão deve ousar
também não se pode parar não
há tempo o que falta não é tempo
não existe fim para esta expedição.
carlos alberto machado
ao teu corpo escrevi odes - eu sei. a pele treme. é de facto a hora de partir. já de facto não nos resta tempo. estivemos tão perto um do outro e tão pouco dissemos - palavras são tão importantes como água. e tu sabes como gosto de água - mais tarde que me lembres em dias felizes. sempre estarei contigo. até ao amanhecer o tempo é todo nosso. embora saiba que mundo é este onde todo o corpo dói - o que quis dizer-te foi como dói. em que dias de tão forte a dor o encolhe. em que dias minga e fica tão pequeno tão pequeno - o corpo é pequeno e o coração tão grande.
Etiquetas:
#letras,
#lugares comuns,
#notas autobiográficas,
#palavras
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo com ironia e doçura no fundo
de um alto segredo que os restitui à lama.
De doces mãos irreprimíveis.
- Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.
herberto helder
é tempo. as águas estão perdidas. os rios já partiram. os mares serão para sempre teus - que deus é este que deixa assim acontecer as coisas. morrer os pássaros. mingar as árvores. florir o corpo. cair o coração. que deus é este - é tempo agora de entender o teu nome. vestido de todas as ruas. nome de pedra.pedaço de chão onde deitar o corpo. todo - silêncio. ainda te espero - que deus é este que me devolve à vida. sem ti. por que raio de sol caminho ainda. por quem. para onde. que nenhum mundo fará agora sentido. que rumo dar às lágrimas - por dentro de água vou. ando. estou ferida.
Etiquetas:
#letras,
#lugares comuns,
#notas autobiográficas,
#palavras
Subscrever:
Mensagens (Atom)





