sexta-feira, 19 de agosto de 2011





























Esta rua é alegre. Não é alegre uma rua anónima
mas a rua de são bento em vila do conde
vista por mim certa manhã após a chuva
e o nevoeiro a dissipar-se já junto de santa clara
E no entanto não é a rua de são bento que é alegre
Alegre sou eu. E nem mesmo é que eu seja alegre
Acontece simplesmente que me sirvo destas palavras
numa manhã de chuva para falar falar por falar
e não falar de mim ou de uma certa rua
Não costumo por norma dizer o que sinto
mas aproveitar o que sinto para dizer alguma coisa
Isto, porém, são coisas que há já algum tempo se sabem
e talvez venham aqui para salvar este momento
para salvar romanticamente este momento
ou então para ilustrar um pouco desta vida que se perde
e não só ao viver-se mas ao pensar-se sobre ela
ao atraiçoá-la tantas vezes como condição indispensável do poema
Mas que dizia eu? Dizia apenas "esta rua é alegre"
O mais é só comigo e com a subjectiva forma como passo a minha vida

ruy belo




de todas as estações. em todos os anos. este é o verão. de todas as vidas. por todo o tempo. este é o verão. de ver passar o tempo. de alegrar as ruas. de aquecer as pernas. longas pernas. curtas só em viagens. longas viagens. por ser verão na pele e fazer sol no cabelo. por saber de mim- não querer fugir.não chorar tanto. ou estar menos triste. é tempo de sermos alegres ruas.











domingo, 7 de agosto de 2011




















Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que não quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado.



sophia de mello breyner andresen







as aves vão. de passagem. talvez me recordem com alguma saudade. lá desses lugares por onde passam ou para onde migram quando o frio chega - tenho medo de morrer de frio. também eu deveria migrar - adeus. vou de viagem. mais tarde os meus ombros nus procurarão os teus. em tempos mais quentes. com lareiras acesas e o vento de leste zumbindo à janela.












terça-feira, 2 de agosto de 2011



































agora estou na beira do penhasco e não vou voar
como o sublime bicho estratosférico brilhante
de plumas esmeraldas tentativos braços
apenas eu baço de nenhuma asa debruçado
sobre o vidro de água e em baixo
os corredores, dispostos à partida
em músculos compactos, e deles o mais jovem (vestido

de improváveis azagaias) exclama: é esta
a fonte do trovão!, e aponta
um buraco azul mudo nas paredes da pedra. por fora
de mim regresso ao som silencioso da cidade
onde todos os rostos são o papel com linhas de inventário
e as patas dos homens pousam na larga secretária
e ficam, em relevo, caminhando no sangue. e eu queria
para ti, uma cidade sem mistério,

o gelo transparente onde mergulha a imagem
dos corredores, lançados no velocíssimo sossego sem repouso
das palavras trocadas, das bocas e dos braços misturados
pela luz, que é uma areia movediça,
este saber de nós sem ócio e sem negócio, iguais
às portas do trovão, onde o mais sábio
se lança nu compacto deus do fogo e ri


antónio franco alexandre








os precipícios esperam-me - com a idade cheia os dias tristes vão-me parecer tão poucos que nem chorarei. por agora são dias inteiros. imensos. quantificáveis como os oceanos - pensarei: ao tempo que não choro - e as alegrias vão-me parecer tamanhas que o mundo ganhará significado nos meus braços - nenhum afluente procurará os rios. à minha boca vão desaguar peixes e nos meus olhos deixarão a água. doce como a memória - direi: não há regressos.










































Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão desvia os passos do medo. Dorme, meu amor — a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste e pode levantar-se como um pássaro assim que adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas da casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme, meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui, de guarda aos pesadelos — a noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

maria do rosário pedreira










tantas vezes imaginei: um elefante de asas ou uma carcaça de abutre entre dentes. lugares a que recorro com frequência quando à cabeça falta o juízo - pois é josé - tinhas razão. por não haver paraíso foram-se as nuvens do céu - pois é josé - sobre amor escrevi pouco.conhecer o coração é como tirar sangue de uma veia cava. funda. como os precipícios. às vezes inquieto-me. é quando fecho os olhos e o céu é uma nesga de luz. muito branca. que parece dizer: o mundo é um lugar pequeno. o mundo é um lugar pequeno - pois é josé - faltou-me uma asa. se a tivesse roubado ao elefante. talvez o elefante caísses. eu voasse. e as nuvens voltassem ligeiras ao céu.





















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certamente nada me fará mais feliz. por agora - recorro sete vezes à paisagem mais linda do mundo. por dia sete para não esquecê-la. mais de sete não para não sofrer - o teu rosto. quieto entre a folhagem - imagino uma árvore surda. uma árvore-silêncio. verde. muito verde. o tronco - quero mostrar-te que linda paisagem é o teu rosto quieto. sobrevoando o medo - dir-te-ei de dias felizes enquanto o coração bater.










segunda-feira, 25 de julho de 2011



































Le soleil, sur le sable, ô lutteuse endormie,
En l'or de tes cheveux chauffe un bain langoureux
Et, consumant l'encens sur ta joue ennemie,
Il mêle avec les pleurs un breuvage amoureux.

De ce blanc Flamboiement l'immuable accalmie
T'a fait dire, attristée, ô mes baisers peureux,
« Nous ne serons jamais une seule momie
Sous l'antique désert et les palmiers heureux! »

Mais ta chevelure est une rivière tiède,
Où noyer sans frissons l'âme qui nous obsède
Et trouver ce Néant que tu ne connais pas.

Je goûterai le fard pleuré par tes paupières,
Pour voir s'il sait donner au coeur que tu frappas
L'insensibilité de l'azur et des pierres.


tristesse d'été de mallarmé









tinha para dizer-te outro verão. mais quente. menos só. mais quieto. menos vento - um onde coubessem os nossos braços. que de quatro se fizeram dois. tão sós. tanto - tinha para dizer-te lugares mais felizes. árvores com troncos altos. ramos soltos. folhas verdes. cheiro a terra. verde-mar. sem algas. sem sal - lugares de histórias. amores imensos. sorrisos ternos. sossego - nenhum verão assim te darei. por não serem minhas as estações mansas - desculpa.

















quarta-feira, 20 de julho de 2011



























jakob landvik







E tantas tantas tantas ilhas
no mar que não nos limitasse
Como deixar-vos se na linha
deste horizonte aquela praia
tão de repente se aproxima
tão de repente se me escapa
Jorram vulcânicas as crinas
de récuas de éguas subaquáticas
Jorram do fundo. E à superfície
crescem as ilhas assombradas
Eis que de longe lembras liras
mas entre as ondas só navalhas

david mourão ferreira






dos dias serem fundos na garganta quando seca - por falta de água o corpo morre de luz ou calor. a pele envelhece o músculo até ao osso. estou só - talvez mais tarde me lembre da cor dos teus olhos enganando o vento e a precipitação - as planícies são no fundo uma garganta sem fim aparente e quando a boca fecha não há ar que as salve. queria salvar os teus braços como quando num abraço me disseste que a vida nunca acaba. queria enganar a saudade. mudar de posição o corpo. voltá-lo para a sombra - já tarde vai o coração quando adormeço e ninguém está. não há regresso.











sábado, 16 de julho de 2011






































margaret durow





O teu corpo é um território sim
deixa-me pensar que é assim e
assim o percorro em círculos
não o percorro sim apenas nele
sinto texturas cores cheiros ecos
mas penso em obstáculos não
não digas não é um território é
digo eu e digo e com fronteiras
por isso a progressão deve ousar
também não se pode parar não
há tempo o que falta não é tempo
não existe fim para esta expedição.


carlos alberto machado






ao teu corpo escrevi odes - eu sei. a pele treme. é de facto a hora de partir. já de facto não nos resta tempo. estivemos tão perto um do outro e tão pouco dissemos - palavras são tão importantes como água. e tu sabes como gosto de água - mais tarde que me lembres em dias felizes. sempre estarei contigo. até ao amanhecer o tempo é todo nosso. embora saiba que mundo é este onde todo o corpo dói - o que quis dizer-te foi como dói. em que dias de tão forte a dor o encolhe. em que dias minga e fica tão pequeno tão pequeno - o corpo é pequeno e o coração tão grande.