quarta-feira, 14 de setembro de 2011
















martina falchetti


















Eu,
um de nós, talvez a geométrica flor, tenho experimentado
a sensação - que até agora desconhecia -, que estar
vivo e estar só é um sinal de alegria,
semelhante ao tombar da neve.

maria gabriela llansol








podemos ficar sozinhos. o tempo de não haver espaço entre a vontade de dizer-te que não estou e a certeza de não estar - às vezes ouço o corpo todo gemer e penso: estou viva - mas uma voz muito grossa diz-me: estás morta - penso que é por não saber dar sentido às coisas nem dizer todos os nomes - muitas vezes quero dizer cadeira e digo banco. quero dizer mundo e digo terra -









sexta-feira, 9 de setembro de 2011


























jakob landvik









não some, que eu lhe procuro, e lhe boto
faca à garganta, ou lhe boto
na cabeleira tanta tanto fogo que você vira incêndio
em que se não tem mão, puta,
eu sei mas não me importa, quero é te apanhar
em uma braçada como de espuma,
mas se some eu lhe dano, essa sim, a puta de sua vida,
alta criatura chegada na terra muda,
em todo lado,
o dia todo,
a noite toda,
como se vê que uma árvore tem tanta folha luzindo
em toda parte dela e do vento e do tempo
e de minha ideia,
não some não, que eu desmundo
cada sítio do mundo onde
você estava ou está ou há-de estar, e comunico só do toque

herberto helder









tristeza não tem nome nem recreio. às vezes desaparece e como os frutos perde a estação. tristeza tem um preço alto - já fui um bicho da conta. outras vezes larva. agora não sei se me entendo. que bicho sou. que patas tenho. quem no meu dorso dorme sossegado. se alguém com corpo. se alguém sem cara - sou só triste pela manhã. pela tarde. por um novo dia. até recomeçar o futuro e o presente for apenas uma pequena lembrança que tenderei a esquecer. ou uma amarga memória que teimarei em lembrar.











quinta-feira, 8 de setembro de 2011
































leonhard kätzel















quero dizer-te: não morras.
Nem me digas quem és, quem foste, como sabes
a língua que se fala sobre a terra.
Ao lume lanço
toda a vontade de viver, ser vivo,
a cautela do ar, ardendo em torno.
Passarei, terás passado em mim, só quero
dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.

antónio franco alexandre














pergunto-me: se morresse continuarias a escrever-me poemas - eu sei. nomes próprios não sobrevivem na tua boca. então dá-me nome de mar. ou sol. ou céu. ou árvore. qualquer coisa pequena. fácil de chamar - quando os dias ficarem curtos o meu nome será como água quente na pele. irei com os pássaros dar de comer às nuvens altas - não há regressos quando se vai para o céu













quarta-feira, 7 de setembro de 2011

































andreea preda










há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo

hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora
enquanto pensava no homem que vi matar
e de quem não soube nunca nada
nem o nome

josé tolentino mendonça










aprendemos cedo a matar. por nos doer o coração ou ser tão crua a carne no peito - não sei se há um tempo certo para as histórias felizes. nem sei se há tempo. se é certo - guardo-te em sorrisos. ainda que. ainda assim - faltou-nos o pânico das flores. a apatia das nuvens. o sossego das árvores. a volúpia dos pássaros. para sermos uma história de amor.










sábado, 3 de setembro de 2011















































Vamos fazer limpeza, mas geral
e vamos deitar fora as coisas todas
que não nos servem para nada, essas
coisas que não usamos já e essas
que nada fazem mais que apanhar pó,
as que evitamos encontrar porquanto
nos trazem as lembranças mais amargas,
as que nos fazem mal, enchem espaço
ou não quisemos nunca ter por perto.
vamos fazer limpeza, mas geral,
talvez melhor ainda uma mudança
que nos permita abandonar as coisas
sem sequer lhes tocar, sem nos sujarmos,
que fiquem onde sempre têm estado;
vamos embora só nós, vida minha,
para voltar a acumular de novo.
Ou vamos deitar fogo ao que nos cerca
e ficarmos em paz com essa imagem
do braseiro do mundo face aos olhos
e com o coração desabitado.


amalia bautista









sempre esperas por mim à porta de casa. estás sentada. o vestido longo, comprido, muito branco, pelo chão. quando me vês, corres. estás descalça, uma lasca de madeira entra-te na pele, não páras. nem quando me alcanças, não páras, corres desesperada. ninguém te vê, só eu. ninguém te vê. nem a imperfeição do movimento dos braços, não coordenado. um à frente e outro atrás, é assim que os levas. o olhar repetido. finalmente desapareces. adeus.











sexta-feira, 2 de setembro de 2011






















Rifa-se um coração
Que insiste em cometer
Sempre os mesmos erros.
Esse coração
Que erra, que briga, se expõe
Perde o juízo por completo
Em nome de causas e paixões. Sai do sério e, às vezes,
Revê suas posições
Arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido
Tantas vezes provocado
Tantas vezes impulsivo
Um coração para ser alugado
Ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes. Um coração abastado
Indicado apenas para quem quer viver intensamente.
E, contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida
Defendendo-se das emoções.

Rifa-se um coração
Tão inocente
Que se mostra
Sem armaduras
E deixa louco
O seu usuário.
Um coração que, quando parar de bater, ouvirá seu usuário dizer:
“O senhor pode conferir, eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento,
Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança,
Que insiste em não endurecer se recusa a envelhecer.”

clarice lispector












quanto te conheci tive a sensação que o futuro, em algum lugar, ainda que longe, faria sentido. sentisse eu a luta assim tamanha e tinha dito logo ali ao mundo, que era por ti. que era por ti que acreditava. porque eram pássaros nos teus olhos. e assim seriam para sempre: os pássaros, pê. os pássaros, corriam. no teu sorriso a verdade cresce. e cresce. e o mundo sempre tão pequeno para ela.quis outra cidade, nossa. com ruas com ouvidos com pessoas. perdoa-me não a ter encontrado. talvez essa cidade só exista nos meus sonhos. talvez nem exista. por ti dancei o samba, cantei com chico, vi clarice, me apaixonei. um dia, pê, levo os pássaros ao brasil.















quinta-feira, 1 de setembro de 2011










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laura taylor






Nós somos
sempre dois, um respira
no silêncio e o outro
beija o sol.
A mão que toca o ombro (no sítio do nervo
irritável) ou o piano,
a chuva fria,
é sempre o apelo: choro
da criança e desvio da língua,
metade.
Na surpresa também a folha que vai caindo
de janela em janela esquece o exílio, cala,
e passa o destino breve
e os pequenos rios secam
e a neve das montanhas derrete-se
e apodrece a raiz do arbusto.
Nós somos sempre dois , aquele que
não suspeita a corrupção
e o outro governa sozinho em nome das massas.
O fogo e a neve ou uma maneira, estilo,
e vai para o infinito a emoção, esse ser
gota de água unida e pesada, esse ser de empréstimo.

joão camilo







a menina loura da minha infância morta de água ou de sal. não há nenhuma expressão de rosto, nenhuma. estava calada, a boca. mais à frente, só, o coração. uma terra baldia onde subitamente plantaram sargaço. seca, a terra, onde subitamente plantaram sargaço e algas. a menina loura da minha infância morta. e pela imagem triste corre o homem, com os olhos abertos, muito abertos, com as mãos à cabeça. os pés pesados do corpo, a planta enterrada na areia. corre. corre desatento. corre. não se ouve uma voz, um só sopro do vento.