segunda-feira, 21 de novembro de 2011












elena kholkina


















Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento


herberto helder










a beleza das coisas foi de férias para macau. dizem que lá os pássaros não adormecem. há manhãs claras e flores de cores que não sabemos que existem - a certeza de querer outro planeta. mais outono. uma cesta de fruta fresca na mesa. cevada quente. doce de abóbora e a ternura dos dias. para sempre - já ontem me custou a adormecer. a bell song chamava as noites e dentro da boca cresciam lágrimas










domingo, 20 de novembro de 2011













julie lansom






Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer


ruy belo







- um dia percorria as nuvens quando encontrei um gigante. cabelos soltos pelas costas. olhar azul. muito azul céu quando está bom tempo. perguntei-lhe quem era. respondeu-me que não se dão nomes às estrelas - ainda acredito nas nuvens. nos gigantes que vivem nelas. das estrelas sem nome - como se fosse de noite. me doessem os olhos à luz e fechar as pálpebras fosse mais simples que o mar.


tudo o que queria era adormecer no mar alto. com sargaço colado à pele e a tristeza húmida de águas brandas





























brittany markert






Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze taxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover.

antónio lobo antunes









a tristeza dos dias pequenos instala-se na casa - tem os dias contados e conhece de trás para a frente todas as datas importantes. quando é natal ou quando morreu avó. ou quando o tio desapareceu no mato. quando a porta me caiu em cima do pé. quando não soube e corri de encontro ao intelecto - hoje queria um coração maior. onde escrever a maior árvore do mundo. com ninhos de pássaros de todas as espécies e feitios - mas nenhum coração a mim regressa. nem nos dias quietos onde invento o futuro - talvez por ser domingo me doam assim os ossos. talvez tenha a crescer no tórax mais uma esperança vã - eu adormeço e acordo e os dias ainda lá estão para que não me esqueça de ti.










quarta-feira, 2 de novembro de 2011












katya e anya










Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.



carlos drummond de andrade












no mundo não há humanos e se os houvesse como dizer-lhes que tão pequeno é o lugar que ocupam na terra - um dia talvez nasçam outros humanos. verdadeiros humanos. com a cabeça cheia de ideias. que governem estes. ainda que não-humanos vivem como se o fossem - um dia talvez haja mais estações onde entregar não-humanos à felicidade. hoje não dá. não-humanos doem. e até ao coração escrevi partidas por bater pouco e doer tanto.






















sexta-feira, 28 de outubro de 2011












dusdin condren











A pele era uma chave, outras o mundo
decerto encontraria, mas agora
das portas que, depois
de arrancadas às casas e atiradas
ao mar, foram fechadas para sempre



luís quintais









lembro-me da raiz húmida das árvores onde nasciam cogumelos. e os bichos escondidos na terra. e o tio zé silva com o ouvido quase entupido de cera. ou de silêncio. sorria - na minha vida não conheci tempos mais frios. a chuva grossa caía toda a noite e o telhado vergava pela força do vento bravo - a avó corria. da sala para o quarto. do quarto para sala. com baldes e bacias e alguidares. queria apanhar a maior quantidade de água possível. para não apodrecer o soalho ou os móveis - eu à lareira. muito sentada. sossegada. à espera que alguém me chamasse para correr o mundo - sempre gostei de correr.









terça-feira, 25 de outubro de 2011



































É simples a separação.
Adeus.
Desenlaçado o último abraço, uma pressa de dar contas um ao outro.
Já não há gestos. O derradeiro (impossível) seria não desfazer o abraço.
Pressa de cada um retomar o outro na teia lenta da remembrança.
Não desfazer o abraço. Ficar face encostada ao niagara dos cabelos.
Sobram fotografias, voz no gravador, um bilhete na caixa do correio. Sobra o telefone.
Tensão - telefone. Experimentada. Sofrida.
Tensão - telefone. Possibilidade de voz não póstuma.
No gravador, voz de ontem, de anteontem. De há anos.
Sobra o telefone. Mudo.
Retininte?
Sobrarão as cartas. Sobra a espera.
Na teia lenta da remembrança, retomo-te em memória recente: na praia de ternura onde nos enrolámos e desenrolámos desesperados de separação.
Sobra a separação.

alexandre o'Neill












a avó tinha essa ternura tão sincera e pura no rosto. como não sei se haverá em outro qualquer rosto. ainda que tão bonito como o seu . a avó chama-se valentina e ri e salta e chora e espera à porta por dois braços tão grandes como os meus - desapareceu faz tempo. faz dezembro. faz dezoito desse mês onde é natal. e onde não deveria desaparecer ninguém - estou triste por isso e por outras coisas mais. que não vale a pena nomear - tenho tanto direito à tristeza como ao voo - a avó tinha esse jeito maroto de me pegar ao colo e me lançar ao ar e me deixar cair tanta vez na cama - a avó não está. a avó fica.




















lukasz wierzbowski








No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

josé saramago










o futuro. curioso. somos nós - que nunca respiramos o ar certo. que nem sabemos se existe ar. se é certo respirá-lo - somos nós por ser nosso o tempo todo. de ser feliz. de levar terra à boca. criar no coração - sei que nos esperam outras árvores noutras bandas. músicas alegres. pássaros mais livres - um dia. a eternidade será nossa pela intimidade que construímos e não vale não acreditar. não vale. rio -