terça-feira, 21 de fevereiro de 2012











miranda lehman






Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

manuel antónio pina










deste modo vou. entro pela vida com a mesma pressa de um pássaro que aprende o voo - um dia talvez os dias custem menos a passar. e as horas não interrompam a tristeza como eu sou - para esperar são precisos dois corpos. o que corre e o que senta. talvez a minha pele se acostume ao frio e a noite se encha de precipícios - ou talvez não - o que sei: nascemos e morremos nús. e não voltamos -


de algum modo alguém me espera.







domingo, 19 de fevereiro de 2012










natalie kucken





— Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende?… a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?

herberto helder










de manga curta de encontro ao vidro. assim te lembro - cabelo escuro. olhos rasos de água e um jeito para dizer adeus que não vi em mais nenhuma mulher - podias ter sido a mãe dos meus filhos - dava esta vida por outra onde tu ainda estivesses - assim calma. só. a passear pelo corredor noite fora. até te cansarem os pés. ou te doerem as pernas - via um futuro inteiro nos teus olhos. até partires. era teu o meu futuro. ser doutor. ter uma casa voltada para o mar. com piscina. um baloiço e uma sebe de silvestres - iria chamar-se amália. chama-se maria e tem os olhos da mãe. melhor tivesse os teus. castanho denso. melhor - quiseste cedo a morte. já sabia. noites longas. dias curtos. essa tristeza funda de quem quer o mundo - e dentro doíam-te todas as coisas que amavas. por não serem como querias -







quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012


















Acende o cigarro, rapariga. E olha para a
rua onde passam transeuntes desconhecidos.
A tarde vai avançando e nós morrendo nela
ou morrendo nela as nossas esperanças,
a ilusão de eternidade. A beleza o que é?
Braços nus, o ventre liso nu, os cabelos caídos
nos ombros. A desconhecida concentra em si
a atenção do homem desocupado. Para
distrair-se, ele olha para ela e recorda-se
da história antiga do amor, reconstrói
ficções que sabe serem apenas ficções. Assim
passa o tempo, depois irá para casa. Quem
sabe o segredo mais secreto da existência
de cada um? Todos nós temos uma
história. Uns calam-na, outros murmuram
entre dentes os episódios essenciais, outros
encontram palavras com que construir o
poema hermético. Que diferença é que faz?
De tudo se constrói a existência, se alimenta
o sentido. Camisa branca à flor da pele, a
rapariga levantou-se e foi lá dentro do café
comprar qualquer coisa. Palavras, deixai-me
celebrar o vão movimento dos ponteiros do
relógio, os episódios vãos, a nossa morte.

joão camilo






por tudo o que te disse perdoa. talvez um dia quando as nuvens forem nossas descubras que tudo fiz para que sorrisses - talvez se o fogo não queimasse o corpo - se o dedo arder. sopra. vento brando norte. como palavras que se segredam pequenas como o silêncio. dessas que não nasceram para serem ditas em voz alta - que me dói assim esquecer o que tarde aprendi. amor - nasci para ser pássaro. perdoa.








segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012











marie zucker









Engoli
água. Profundamente: a água estancada no ar.
Uma estrela materna.
E estou aqui devorado pelo meu soluço,
leve da minha cara.
O copo feito de estrela. A água com tanta força
no copo. Tenho as unhas negras.
Agarro nesse copo, bebo por essa estrela.
Sou inocente, vago, fremente, potente,
tumefacto.
A iluminação que a água parada faz em mim
das mãos à boca.
Entro nos sítios amplos.
— O poder de reluzir em mim um alimento
ignoto; a cara
se a roça a mão sombria, acima
da camisa inchada pelo sangue,
abaixo do cabelo enxuto à lua. Engoli
água. A mãe e a criança demoníaca
estavam sentadas na pedra vermelha.
Engoli
água profunda.

herberto helder









quase sempre só. nem limites o corpo encontra para a solidão - e o tempo que passa livre com os pássaros faz cobrir de neve as serras - tenho histórias para contar. coisas que ninguém ouviu. de corpos. de rostos. de bocas que me falam. só a pele viu - em algum lugar. sei. alguém me escuta - e é como se dissesse: água e um mar me entrasse nos orifícios do corpo - no futuro morrerei de água. ou fogo. ou terra. ou ar - talvez um quinto elemento me espere noutra vida com um final feliz.








*
à sandra
por me ler
sem que saiba










domingo, 22 de janeiro de 2012








katarina Šoškić










E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisa sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o pode duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

ruy belo









por dias inteiros guio o corpo contra abismos. dias inteiros. cheios. tão só por dentro. tanto corpo preso. e os olhos escuros castigam a luz - eu quero gritar que os dias imensos são para ter fim. que a primavera chegue tão depressa que nem te dês conta. nem te lembres. ou recordes. e te importes - por mim passam os anos e a terra é a mesma. vinte mais quatro. ao tempo não restam dúvidas e em mim só incertezas - eu sei que existe outro lugar. mais calmo. onde a noite não chega. e a luz clara atinge tão forte os olhos. que cega. e cegos vão os rostos pelo mundo. sem medo dos outros. sem medo de mim - o que esperar da vida. memórias dos dias felizes que inventei.












terça-feira, 10 de janeiro de 2012



















Repito:

Entre a beleza funérea
E a pouca areia e água em que vejo afundar-se
A minha vida
Corre a extinta luz dum mundo
Já sem mundos.

E nessa cinza, como um desafio,
Consigo decifrar as pegadas de Antero
A caminho do supremo
Nada.


armando da silva carvalho








nós pensamos que em algum lugar estarão dois braços. dispostos em forma de casa. para receber o corpo quando cai. desnorteado. noite dentro - juro que sonhei que havia um corpo com dois braços capazes de segurar firmemente o caminho. ainda espero que a curva não se intensifique e que os dias. atrás de outros. voltem e sejam capazes de existir fora dos calendários. das datas de aniversários de alguns nomes próprios de que me esqueço quando o ano começa - tenho pouca esperança. confesso. de que serve a luta. um ou outro cabelo mais violento. um ou outro peito mais capaz. por agora o coração segue como morto. sem ouvidos que batam ou vozes que partam. só - atravessa o deserto acreditando que ainda existem oásis. desgovernado segue pelos sonhos com a alegria vaga de quem pouco alcança - espero um dia puder dizer aos meus netos: por este mundo eu lutei e nunca desisti.












terça-feira, 3 de janeiro de 2012











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adriano sodré





Espantado meu olhar com teus cabelos
Espantado meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos
Em vão busquei eterna luz precisa

sophia de mello breyner andresen









penso sempre que em algum lugar estarás à minha espera. tão longe vai o tempo. tão longas são as horas. que anos atrás de anos passam com os dias onde sei que me esperas - na pele crescem as noites. eu sempre acreditei . madrugada fora e ainda há tantas histórias pela casa. do corpo onde habitaste. dos cabelos que te viram partir - que amanhã nenhum verbo me devolva o teu rosto. ou me incomode o teu nome numa carta sem remetente. escrita na pressa de quem sabe que irá morrer - talvez um dia. quando as noites forem tão demoradas que fechar e abrir os olhos dure anos. que anos sejam tão longos que a vida custe muito. custe tanto que a morte seja o único alívio para todas as dores que o corpo conhece.