domingo, 25 de março de 2012
tatiana lëshkina
Um homem tem que viver.
e tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.
Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.
Cheio de luz - como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de miostérios e imprecisões.
Engolirá fogo.
Palavra,
um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.
fernando assis pacheco
a gente passa. o tempo. a vida. sem se dar conta - esses amores que a gente tem ninguém os sente. esses sonhos que a gente quer ninguém os sabe - a gente vive só. somos de nós. ninguém nunca soube onde nasce a felicidade - se deus tivesse inventado um céu mais perto. talvez na terra as pessoas se amassem. melhor. mais fácil - a gente passa. o tempo. a vida. a gente morre sem conhecer o caminho certo. depois é tarde demais. tarde de menos. e ninguém foge. não há para onde fugir quando o coração pára.
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segunda-feira, 19 de março de 2012
lasar segall
O que eu queria dizer-te nesta tarde
Nada tem de comum com as gaivotas.
sophia de mello breyner andresen
dizem que é preciso uma vida para percebermos a serenidade do mundo - nem uma vida me há-de trazer a serenidade do mundo. e só quando conversamos tenho esperança no futuro. acredito no teu rosto quando a minha boca diz: está tudo bem - ainda há gaivotas no mar. ainda há mar. ainda há por onde fugir - um abraço josé. podias ser jorge ou antónio. como esses senhores que lês ao silêncio de bach. no teu escritório.
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domingo, 11 de março de 2012
laura makabresku
e pergunto porque estou vivo:
por amor de vinte e três palavras mais ou menos loucas,
glória às uniões inalcançáveis,
eu fodo, se me dão licença,
numa língua que vem com a fúria combustível
dos fundos da
língua portuguesa, só fodo nela,
por paixão,
matricialidade,
monogamia,
por conhecer linha a linha o corpo que se move,
a luz que levanta,
o ar que consome,
o que faz às pessoas quando dele se aproximam,
só isso me interessa naqueles com quem fodo,
ígneo donaire,
dom,
alerta,
décimo sexto sentido,
poucos poderes de salvação e obra mas
estrela muitíssima, tremenda, às labaredas,
a dança dionisíaca já dentro do abismo,
que se foda em alta língua,
é um mistério,
venha ser inadmissível, luminoso, fêmea, empolgante, grego,
quero eu dizer:
fodam comigo no mistério das línguas,
obrigado
herberto helder
tinha sido uma bonita criança. corpo pequeno, braços estreitos, cabelos muito loiros longos, presos ao caco da cabeça por uma laço de cetim mal dado. as pernas muito tortas quase tapadas por um vestido velho e branco. de dia sonhava, assobios vários na boca, falava com os pássaros, passeava o interior do corpo, onde a pele não chega. assim fora durante anos até se tornar uma mulher deserta. costumava sentar-se em árvores de ramos baixos, a quem contava longas histórias, inventadas na hora pela aflição de ter o que dizer, não suportava o silêncio. um dia encontraram o seu corpo à tona de água, como morto. pés descalços e sujos, pele muito roxa, nas mãos um ramo de malmequeres. gritaram. a menina sobreviveu, tinha ido dar de comer aos peixes dissera: os peixes comem flores, não sabias?
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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
brittany nicol fabry
e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia
al berto
talvez esta fome de afecto tenha vindo com os pássaros - outra primavera nos conheceu. vento quente ao fim da tarde - estarão de regresso as andorinhas? - nenhum regresso as conhece. as árvores esquecem os seus nomes. as casas já não lhes pertencem - com o tempo aprendo a difícil arte da melancolia. nenhuma esperança aquece a pele. não há futuro - ao acordar ainda não é primavera
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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
stefany alves
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
Elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas
ruy belo
gosto de lembrar-te as tranças pretas. duas. as mechas de cabelo assim alinhada - como nunca vi em outro cabelo. nem outra cabeça segura agora tão perfeitas tranças - às vezes de noite ainda te procuro. mal fecho os olhos são os teus que vejo. e que tamanha tristeza me envolve que já nem sei a cor dos teus olhos. perdi as formas do teu rosto - procurei-te nas estações frias mas disseram-me que tinhas partido para as quentes. talvez agora te encontre. quando março chegar e o calor segurar a casa -
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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
miranda lehman
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
manuel antónio pina
deste modo vou. entro pela vida com a mesma pressa de um pássaro que aprende o voo - um dia talvez os dias custem menos a passar. e as horas não interrompam a tristeza como eu sou - para esperar são precisos dois corpos. o que corre e o que senta. talvez a minha pele se acostume ao frio e a noite se encha de precipícios - ou talvez não - o que sei: nascemos e morremos nús. e não voltamos -
de algum modo alguém me espera.
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domingo, 19 de fevereiro de 2012
natalie kucken
— Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende?… a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?
herberto helder
de manga curta de encontro ao vidro. assim te lembro - cabelo escuro. olhos rasos de água e um jeito para dizer adeus que não vi em mais nenhuma mulher - podias ter sido a mãe dos meus filhos - dava esta vida por outra onde tu ainda estivesses - assim calma. só. a passear pelo corredor noite fora. até te cansarem os pés. ou te doerem as pernas - via um futuro inteiro nos teus olhos. até partires. era teu o meu futuro. ser doutor. ter uma casa voltada para o mar. com piscina. um baloiço e uma sebe de silvestres - iria chamar-se amália. chama-se maria e tem os olhos da mãe. melhor tivesse os teus. castanho denso. melhor - quiseste cedo a morte. já sabia. noites longas. dias curtos. essa tristeza funda de quem quer o mundo - e dentro doíam-te todas as coisas que amavas. por não serem como querias -
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