segunda-feira, 9 de abril de 2012
















annette pehrsson










Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio dos incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim
E bebe

daniel faria







no verão. deito-me nas heras. cara voltada para o sol. até me derreter o coração - quando não faz sol tenho frio e dói-me todo o corpo onde o sol não bate - a pele nos ombros é mais dura. é por onde caem as lágrimas - toda a minha vida encontrei o verão. as amoras. os dias longos e calmos onde me sorrias - toda a minha vida - um dia vão dizer que morri de sol. de luz. de paz. de dias. de água - de frutos.










sábado, 7 de abril de 2012










Wai Lin Tse








Ao nível do mar
como o nome da flor do vinho
murmurado entre relógios de carvão
escrito devagar na cal do silêncio
como o lençol de púrpura
no peito dos amantes
de costas para a morte
ao nível do mar
como um cardume de palavras cintilantes
no horizonte de cinza e de pavor
como um cavalo branco toda a noite
de estrela para estrela
ao nível do mar
como a flor que se abre na boca dos suicidas
um homem
ferido de morte
vai falar

antónio josé forte











nas noites da minha infância faço ninho. como os pássaros regresso com o tempo quente às planícies da ausência onde cresci - são verdes os campos e há um cheiro forte a terra na pele - naquele tempo acreditava nos sonhos. que os havia de realizar a todos. que os meus amigos haviam de me acompanhar pela vida fora. e como um bando de pássaros fugiram. os amigos e os sonhos. hoje nem sei se os tive - naquele tempo sabia de cor o nome dos meses. que em abril era a páscoa e que me davam amêndoas. hoje nem sei se as há - o futuro é esquecer o nome dos meses. da páscoa e das amêndoas. e fazer dias de nada como quem foge à saudade de sonhos que não teve.



















parker fitzgerald









O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios da vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida

ruy belo





é por ser de chuva que o coração chora. não por ser sábado e doer a pele. não por ser sábado e doer a pele. é por ser de chuva - o que esperava do mundo. ainda ontem o pensei. só um raio de sol onde enxugar o coração. uma queda de água onde lançar o corpo. um pedaço de céu onde deixar a cabeça. limpo e sem nuvens - a terra é este tempo de não ter sonhos. nem nada - e só uma esperança muito ténue me impede de ir - este país de cinza.







segunda-feira, 2 de abril de 2012










Wai Lin Tse

















Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.


herberto helder




meu bom amigo. por caminhos do sul te levam agora os passos que nem a água te conhece o corpo - é porque inventas flores que existes na primavera. ou a dor de r. não era. nem dor nem r. existira - só os sonhos e uma nesga te luz te esperava. era tarde na tarde e as letras haviam morrido - meu bom amigo. que palavras não existiram até provocarem o teu nome e o mundo era um pedaço de terra voltado para norte







quarta-feira, 28 de março de 2012















tina sosna










queria de ti um país de bondade e de bruma
queria de ti o mar de uma rosa de espuma

mário cesariny









perguntam-me porque tenho medo. do frio. da noite. do mundo. de mim - não lhes sei responder - acho que a resposta está nas pessoas que amei e que de certo modo me deixaram - ninguém pode dizer que foi inteiramente feliz mas foi feliz que chegue para continuar andando rumo ao futuro - o futuro. isso já é outra história. a ser falada depois. se não me morrer a boca - tinha o sonho de ser feliz. como toda a gente. mas dizem-me que a felicidade não mora no meu país - nem tem de morar. que a felicidade vive e morre por dentro. no corpo.














domingo, 25 de março de 2012








tatiana lëshkina







Um homem tem que viver.
e tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.

Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz - como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de miostérios e imprecisões.
Engolirá fogo.

Palavra,
um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.

fernando assis pacheco








a gente passa. o tempo. a vida. sem se dar conta - esses amores que a gente tem ninguém os sente. esses sonhos que a gente quer ninguém os sabe - a gente vive só. somos de nós. ninguém nunca soube onde nasce a felicidade - se deus tivesse inventado um céu mais perto. talvez na terra as pessoas se amassem. melhor. mais fácil - a gente passa. o tempo. a vida. a gente morre sem conhecer o caminho certo. depois é tarde demais. tarde de menos. e ninguém foge. não há para onde fugir quando o coração pára.





segunda-feira, 19 de março de 2012









lasar segall







O que eu queria dizer-te nesta tarde
Nada tem de comum com as gaivotas.



sophia de mello breyner andresen





dizem que é preciso uma vida para percebermos a serenidade do mundo - nem uma vida me há-de trazer a serenidade do mundo. e só quando conversamos tenho esperança no futuro. acredito no teu rosto quando a minha boca diz: está tudo bem - ainda há gaivotas no mar. ainda há mar. ainda há por onde fugir - um abraço josé. podias ser jorge ou antónio. como esses senhores que lês ao silêncio de bach. no teu escritório.