terça-feira, 19 de junho de 2012










já disse tantas vezes adeus que perdi a vontade de abraçar os homens. por dentro da noite sei que algum adeus me espera - e tenho pena - não preciso regressar ao lugar onde mais me doem os ossos. tenho pena de ficar no lugar onde nem sinto a alma - tenho pena de sofrer por quem por mim não sofre. por quem nem vê que há noite são negras as lágrimas e não há estrelas - nunca acreditei que existissem lugares para sermos unicamente felizes e a felicidade é uma rasteira que o destino nos prega quando andamos distraídos com o amor - que o coração não me doa e durma. depressa. que o mundo dói mais quando acordado o corpo vela a ausência.









terça-feira, 5 de junho de 2012




Masha Demianova 






 Vou falhando as pequenas coisas que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitados pelo pensamento.

 luís quintais






 eu sei que a vida é triste - nunca seremos tão felizes. nunca teremos a vida que sonhamos - o país esqueceu-se de nós. andamos com sorrisos falsos no rosto inventando outras formas de ser jovem e cometer loucuras - ninguém merecia - o país esqueceu-se de nós - tento esquecer-me do país mas não consigo. as pessoas estão sós. perdidas. não acreditam na vida. tendem à morte - queria dar ao mundo uma razão para inventar a felicidade mas já não tenho coragem - gastei as minhas forças a lutar contra o destino.



quinta-feira, 31 de maio de 2012





Photobucket nina sawinska





 "Havia um muro alto entre nossas casas. Difícil mandar recado para ela. Não havia e-mail. O pai era uma onça. A gente amarrava o bilhete numa pedra presa por um cordão E pinchava a pedra no quintal da casa dela. Se a namorada respondesse pela mesma pedra Era uma glória! Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira E então era agonia. No tempo da onça era assim."

  manoel de barros






ando doente. talvez o mundo seja esse lugar pequeno onde o rosto não cabe - penso que se me faltassem as mãos não poderia construir lugares maiores - não tenho onde pousar o corpo e os ossos que doem e o corpo que não parte e o que eu gostaria que partisse não vai. nem volta - por dentro o mundo adquire outros significados que podem ser do tamanho que eu quero. porque são meus. por fora pouco depende de mim e o país morre - quero fechar os olhos e acordar amanhã - que o futuro seja este sonho que tenho -




quarta-feira, 23 de maio de 2012









rebecca rijsdijk 






Que nos adiantam os pianos?
E os clarins marchando na manhã?
Espero o fogo, o fogo sobre nós.
Quem troca seu corpo por um pão?
Pedimos água e nos dão veneno.
  murilo mendes








 nascemos dos pássaros que as árvores abandonaram e ainda assim somos felizes - ontem lembrava-me dos tempos idos da infância e do tio zé descalço a mondar. mondar é um verbo perdido de significado. as minhas crianças não sabem dele - é preciso dizer ao mundo o que o tempo foi. a cara da gente dura de terra - é preciso dizer essas palavras que o tio zé já não diz por ter morrido - perdemos o infinitivo [o que vem do infinito] - sei hoje que pouco há de belo no mundo e que o mundo passa porque o tempo o leva. da vida nunca saberei nada - quando reparei já as árvores tinham partido e os pássaros corriam como loucos à procura de casa.




terça-feira, 1 de maio de 2012






Michael G Magin 







A cidade é a mesma e no entanto
há portas que não posso atravessar
sítios que me seria doloroso outra vez visitar
onde mais viva que antes tenho medo de encontrar-te
Morreste mais que todos os meus mortos
pois esses arrumei-os festejei-os
enquanto a ti preciso de matar-te
dentro do coração continuamente
pois prossegues de pé sobre este solo
onde um por um perigo os meus fantasmas
e tu és o maior de todos eles
não suporto que nada haja mudado
que nem sequer o mais elementar dos rituais
pelo menos marcasse em tua vida o antes e o depois
forma rudimentar de morte e afinal morte
que por não teres morrido muito mais tenhas morrido

ruy belo







 tenho pensado muito em ti laura. que os dias mais compridos te cheguem calmos. que serena vás pela vida - às vezes procuro nas árvores o conforto da tua companhia é quando ouço os pássaros - tenho saudade de quando me falavas sobre a morte e o mundo não te ouvia - só ruy belo entendia que em legítima defesa nenhum corpo pode permitir que decidam a sua própria morte - tu sabes - quis falar-te de nietzsche. de flaubert. de camus. de chopin. e de outras coisas mais banais como chá de ervas doces e mel - tenho pensado muito em ti laura - tu sabes - poucas vezes a vida me permitiu a esperança - eu estou bem. ando quieta. é o melhor a fazer. por fora o mundo cai. o país morre. por dentro o sonho cresce - continuo a ler. isto e aquilo. sempre muito - encontrei outro mito de sísifo. apesar de tudo prefiro o teu - nunca te disse mas foste tu que me mostraste o homem absurdo - seja como for. tenho pensado muito em ti laura.





segunda-feira, 16 de abril de 2012









annette pehrsson











As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

ruy belo





a poucas horas do teu aniversário. leio. foi o que a vida quis das minhas noites - às vezes. tu não sabes. voo. livres asas ao vento. rumo ao futuro - quero que sejas feliz. que continues a existir para lá das histórias - era uma vez um menino homem que queria ser pássaro ... - tu sabes o que penso a poucas horas do teu aniversário - e se quiseres amanhã será um dia como os outros. com vinte e quatro horas e mais companhia para o jantar - gostava de dizer-te outras coisas bonita mas tu já conheces os pássaros do ruy e a beleza do herberto - amanhã encontramo-nos na margem da alegria











domingo, 15 de abril de 2012
















laura makabresku







Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
e em parte resume o que penso da vida
passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
e delas vem a música precisa
para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
antigamente quando os deuses eram grandes
eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas


ruy belo




não acredito no futuro. há muito que deixei de lutar por ele. luto pelo presente. porque os dias mais belos são esses onde construímos casa e existimos para sempre - o presente é nosso. o futuro não acontece. existe para termos esperança. e a esperança é o consolo dos frágeis - sou frágil. por dentro da pele nenhum presente se vive porque o coração não renuncia à esperança - gostava de inventar dias mais felizes - às vezes. fico neste estado amorfo. e a vida passa por mim e eu sem gesto. nem palavra. nem silêncio - às vezes não existo. estou sem esperança. vou para longe -