sexta-feira, 17 de agosto de 2012




rebecca rijsdijk








 queria de ti um país de bondade e de bruma
 queria de ti o mar de uma rosa de espuma
 mário cesariny 








 - a nossa última viagem foi em silêncio. talvez porque o meu coração ainda não aprendera a falar a tua língua - sempre quis para ti mais do que tudo o que possas imaginar. melhor. um novo país. outra terra. um sol diferente. uma água mais clara. um mar mais quente. uma luz que acalmasse - lá longe. no infinito. acredito que seja possível alguém gostar assim de mim. dessa forma tão clara que incendeia a pele - não te digo que não me queimassem os ossos mas era uma dor boa - nunca pensei. nem penso. que possa ser possível alguém gostar assim de mim. tanto que me conheça. melhor até que eu própria. que me impulsione a crescer - quero dizer-te hoje que o meu coração aprendeu todas as línguas do universo.





sexta-feira, 10 de agosto de 2012




lea mandana








 Cresceram-me entre os ossos já as primeiras ervas.
Talvez dos descampados que me vêm
 o espírito acabar à boca dos sentidos por fim surjam aqueles que quando escavam
o fazem como se avançassem
assim para uma vida mais autêntica. Terão o tempo nas mãos como uma enxada.
Brilhar-lhes-ão nas pás
pedaços do meu corpo que respiram.


 luís miguel nava






costumavas dizer-me frases tão reais que tiravam sentido à vida - a vida faz-se caminhando - todos estes anos caminhei como se não houvesse amanhã - hoje questiono o caminho. se será este. se estarás por aqui. se terá um fim. julgo que não e tenho pena - no fundo só queria encontrar-te para uma conversa. queria que me falasses de mim. que futuro o meu - o mundo mudou. antigamente a figueira tinha mais figos. o céu estava mais limpo. o verão era mais quente. o caminho não tinha silvas - mas sem silvas não há amoras



terça-feira, 7 de agosto de 2012





ezgi polat











 O meu país sabe a amoras bravas
no verão. Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.


eugénio de andrade




às vezes inventamos no silêncio um lugar onde sermos felizes. em segredo. e acreditamos que o somos ainda que à nossa volta o mundo nos saiba tristes - no verão a tristeza é outra. por não saber das amoras. nem de ti. e nenhum caminho nos levar a roma - queria para ti outro país. com estações mais quentes e a certeza de dias e dias de verão - nem parece agosto - decididamente os meses não são o que eram. quando corrias calçada abaixo em direção ao rio. olhos postos nas pedras com medo que escorregassem os pés. e a água fresca na pele. se quieta os peixes mordiam-te os pés enquanto escutavas o voo certeiro das libelinhas - decididamente os meses não são o que eram 





domingo, 5 de agosto de 2012















marija kovac










 O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
 O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.


 clarice lispector




 não parece agosto e agora que penso nenhum mês parece o mesmo desde que morreste. às tantas pela tua ausência mudaram os meses - tenho mais anos do que todos os anos que tiveste para me conhecer. porque todos os anos não chegam - quando gostamos de alguém os anos passam e nem nos damos conta. agora que partiste trocava os anos por dias - e de certo agosto seria o agosto que sempre conheci. com o sol cheio e os dias tão quentes a incendiar florestas. e o pai no quintal a regar as plantas com medo que se queimem. e a mãe a inventar tempo -




quinta-feira, 2 de agosto de 2012









rebecca rijsdijk







 A Vitória de Samotrácia
é mais ou menos a minha história sentimental: tinham todas um corpo
e asas até
mas pouca cabeça.

  daniel jonas





 quando não sei o que fazer do futuro costumo olhar para ti - como noé construíste uma arca onde guardas memórias de todas as espécies. por isso tenho contemplado os teus dias. é sempre noite quando no céu não há estrelas - talvez mais tarde repares que os meus dias se fazem dos teus - o dilúvio é um encontro entre o que queremos e o que podemos - não há como regressar de uma morte lenta mas talvez seja esse o futuro.










quinta-feira, 26 de julho de 2012




























nina sawinska








O mal vem aos rostos e mata o coração.
Tivemos de aprender a dor civicamente:
o olhar ferido por inexpressões
o assobio das faces carcereiras
essa armação da voz, as predações
 – e sempre tudo dentro
de espelhos verdadeiros, salões de festas, lustres…
  carlos poças falcão










é julho. de tempestade. lá fora o vento e a chuva e os dias quentes. não há onde guardar o coração - lembro-me de ti por ser verão. eram nossas as estações mais quentes - e tenho saudades tuas - tu corrias. o sol a estalar a pele. doce de marmelo. limonada. água fria.cevada com bolachas maria. dor nas pernas. escondidas. um baloiço - verde. muito verde - do que mais sinto falta é do teu sorriso. as gargalhadas e os vestidos curtos a bater na anca - dizias: na próxima vida quero ser um pássaro - e és. o mais livre pássaro que o mundo conhece. com o mais livre voo.




segunda-feira, 23 de julho de 2012









 Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
 Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa

 sophia de mello breyner andresen





 quando acordei o mundo como o conhecia tinha acabado - para além dos olhos uma linha de fogo e o desejo de que do fumo se fizessem nuvens - tenho acordado assim. não sei do mundo. do que ele era quando nos conhecemos ou quando sobre nós caiu a certeza de um final feliz - parto hoje para outro mundo. um mais pequeno mas com mais pessoas dentro. minha vontade é encostar o peito às árvores e dormir segura - quanto ao futuro nem sei. talvez não exista