domingo, 14 de outubro de 2012





laura makabresku








nem sequer telefonaste
tentava caminhar e tudo o que conseguia era bater
com a cabeça no lavatório tentava lembrar-me do meu nome
e só um rápido movimento de barbatanas sujas me aflorou a boca
esperei que viesses ao entardecer
abrisses os braços para mim
esperava que surgisses como um osso de luz reconhecível
mesmo durante a noite esperei
que me prendesses de novo para que não se enchesse o quarto
de peixes de enxofre devoradores de paredes
e tu nunca vieste
mais nada me poderia acontecer
teu rosto chegava-me à memória como mancha de fumo
longínqua nódoa de água e sangue
nos pulsos
uma mancha e tu não chegaste

desculpa
o que te queria dizer talvez não fosse isto
a solidão turva-se-me de lágrimas
e nas pálpebras tremem visões do meu delírio
olho as fotografias de antigos desertos
corpos coerentes que fomos
bocas de papel amarelecido
onde a sede nunca encontrou a sua água
e às vezes ainda tenho sede de ti

al berto









como dormir de braços esticados - noite fora imagino o teu rosto submerso. os teus olhos fundos na pele. lábios desenhados pela força do silêncio. esse teu jeito trágico de ajeitar as sobrancelhas sempre que me vias - na pressa de te encontrar invento duas ou três palavras fáceis: olá amor. até depois - o teu corpo rodeado de neve. como vai frio o tempo em que não te tenho - quero morrer de pé como as árvores. que as raízes velhas me não deixem cair. que as mãos dos que amo me não deitem ao chão.



segunda-feira, 17 de setembro de 2012





laura makabresku









É mais fácil de longe imaginar
o que seria ter-te aqui presente
do que seria ter-te e não saber
com que forma de corpo receber-te.
Talvez um amplo véu oriental
ou o brilho mental de uma armadura
me deixassem arder sem ser molesto
no lume horizontal de uma figura.
Se te vejo, já está o meu desejo,
enquanto estavas longe, satisfeito;
no teu olhar encontro tudo quanto
à altura de amor é mais perfeito.
E no entanto, perto, fico incerto
se não é melhor bem o que imagino.
antónio franco alexandre





que amor esse que o corpo cega se a pele não sente. que amor esse onde a cabeça encosta o ouvido e os segredos se dizem numa língua que não conheço. que amor esse onde o coração fica só e o peito já sem feridas se esquece que ainda há guerra - pela manhã estranho não ver o rosto que os olhos obrigam a adormecer - quero acordar depressa. esquecer a vida. fugir do tempo. encontrar um lugar onde guardar a esperança - e talvez o futuro exista para nos ver passar de mãos dadas. de peito feito contra o horizonte. que uma luz muito forte nos leve depressa -


quarta-feira, 12 de setembro de 2012





laura makabresku












 Sozinho na noite da rua Augusto Gil, sentado no carro de motor desligado e luzes apagadas, o psiquiatra apoiou as mãos no volante e começou a chorar: fazia os possíveis para não emitir nenhum som, de modo que os ombros se lhe sacudiam como o das actrizes do cinema mudo, escondendo os caracóis e as lágrimas no abraço de um avô de barbas: Porra porra porra porra porra, dizia ele no interior de si mesmo, porque não achava dentro de mim outras palavras que não fossem essas, espécie de débil protesto contra a tristeza cerrada que me enchia. Sentia-me muito indefeso e muito só e sem vontade, agora, de chamar por ninguém porque (sabia-o) há travessias que só se podem efectuar sozinho, sem ajudas, ainda que correndo riscos de ir a pique numa dessas madrugadas de insónia que nos tornam Pedro e Inês em cripta de Alcobaça, jacentes de pedra até ao fim do mundo. E lembrei-me de uma pessoa me contar que em miúda a mãe a levara a fazer visitas numa época em que criaturas se relacionavam umas com as outras em bicos de pés de delicadezas excessivas; e então ela entrava em casas hirtas povoadas de grandes relógios e de pianos com castiçais onde a música se inclina a tremer na direcção do vento, escutava os lamentos das senhoras afogadas pelo damasco dos reposteiros e os suspiros dos mortos nos retratos da parede, e pensava: Como esta casa deve ser triste às três horas da tarde. De forma que anos e anos volvidos vertia álcool das farmácias nas jarras de flores para o beber às ocultas e conseguir desse jeito um meio-dia perpétuo.

  antónio lobo antunes











 não querer ficar triste neste dia em que o mundo começa por perceber que o tempo vai passando - ao deitar fecho os olhos depressa e rezo para dormir. que me dói a cabeça só de imaginar o tempo que resta até que o corpo se enterre - pouca gente me percebe. dizem que os dias grandes fazem bem ao coração. já sinto as cores do outono a galgar as margens da agonia - tenho pensados todos os dias onde ser feliz. espero ter tempo para ir a esses lugares onde me esperam os braços - estou cansada dos dias grandes e imensos onde te perdi. onde nos perdemos.



domingo, 26 de agosto de 2012






margaret durow




 o que me preocupa é que tu estejas bem, a única coisa na vida que me preocupa é que tu estejas bem, o resto não tem importância, que tu estejas bem por mim que não espero seja o que for, passou muito tempo, entendes, demasiado tempo e não há tempo para mim hoje em dia, chega acontecer, vê só a estupidez, chega a acontecer imaginar-me morta e não é inteiramente desagradável, calcula, porque, pensando um bocadinho nisso, desde que me tornei mulher quando é que foi bom viver? 
  antónio lobo antunes





os grilos. os ralos. as cigarras e os pirilampos vêm à noite para me lembrar que é agosto - que este mês não acabe e a figueira volte a encher-se de figos maduros. de mel. que a água vai no rio fria e as tardes são de calor entre as árvores e um areal imaginado - e nas pedras faço casa. uma imensidão de água. e a floresta a perder de vista e eu a perder-me nela - que o meu não futuro fosse este e aqui ficasse para sempre. entre um mergulho e outro apetece-me morrer dentro de água. com a pele eriçada pela mudança de temperatura e a cabeça esquecida do mundo -




segunda-feira, 20 de agosto de 2012




aëla labbé








 Apenas uma boca. A tua boca
Apenas outra, a outra tua boca
 É Primavera e ri a tua boca
De ser Agosto já na outra boca

david mourão-ferreira








dizem que é tarde. que já não há pássaros nem estrelas e o céu anda deserto. dizem que por ti morreram todas as nuvens e a chuva se extinguiu como se extinguem os gestos quando deixam de se dar há muito tempo - tinhas um jeito manso de ser. leve como o vento. ias empurrando os dias. uns atrás dos outros. com esperança no futuro - gabo-te a paciência. há muito que deixei de acreditar. de ter esperança - sei apenas da existência do mar quando faz frio. que no tempo quente é doutra gente mais sargaceira - queria que me dissessem que está tudo bem. que o vento vai voltar. que nada acaba para sempre - 




sexta-feira, 17 de agosto de 2012




rebecca rijsdijk








 queria de ti um país de bondade e de bruma
 queria de ti o mar de uma rosa de espuma
 mário cesariny 








 - a nossa última viagem foi em silêncio. talvez porque o meu coração ainda não aprendera a falar a tua língua - sempre quis para ti mais do que tudo o que possas imaginar. melhor. um novo país. outra terra. um sol diferente. uma água mais clara. um mar mais quente. uma luz que acalmasse - lá longe. no infinito. acredito que seja possível alguém gostar assim de mim. dessa forma tão clara que incendeia a pele - não te digo que não me queimassem os ossos mas era uma dor boa - nunca pensei. nem penso. que possa ser possível alguém gostar assim de mim. tanto que me conheça. melhor até que eu própria. que me impulsione a crescer - quero dizer-te hoje que o meu coração aprendeu todas as línguas do universo.





sexta-feira, 10 de agosto de 2012




lea mandana








 Cresceram-me entre os ossos já as primeiras ervas.
Talvez dos descampados que me vêm
 o espírito acabar à boca dos sentidos por fim surjam aqueles que quando escavam
o fazem como se avançassem
assim para uma vida mais autêntica. Terão o tempo nas mãos como uma enxada.
Brilhar-lhes-ão nas pás
pedaços do meu corpo que respiram.


 luís miguel nava






costumavas dizer-me frases tão reais que tiravam sentido à vida - a vida faz-se caminhando - todos estes anos caminhei como se não houvesse amanhã - hoje questiono o caminho. se será este. se estarás por aqui. se terá um fim. julgo que não e tenho pena - no fundo só queria encontrar-te para uma conversa. queria que me falasses de mim. que futuro o meu - o mundo mudou. antigamente a figueira tinha mais figos. o céu estava mais limpo. o verão era mais quente. o caminho não tinha silvas - mas sem silvas não há amoras