segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013







anna ådén













O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher

 ruy belo






sinto o frio nos ossos e uma dor aguda a subir-me pelas costas. já no caco da cabeça - não quero pensar. digo - o meu corpo é um animal que foge. de encontro ao tempo. de encontro ao mundo. por fora da vida - onde estavas quando em mil novecentos e oitenta e sete a menina nascia. encolhida de sangue e frio. era novembro e a mãe fugia - está frio. 









segunda-feira, 28 de janeiro de 2013







laura makabresku 










Não temos saudades, 
é a saudade
que nos 
tem. 

eduardo lourenço 












que parte de mim parte nos dias frios. que mãos são estas que se apartam do corpo por não terem a que se agarrar - e nos braços a pele doída pelo amor que parte - na falta de luz também as noites se deixam esquecer. é porque somos como barcos no mar alto. à procura de rota. contornando tempestades - fico. espero que o tempo quente me traga sol e me mate de luz






domingo, 27 de janeiro de 2013







laura makabresku 







deste lado da morte 
ninguém
responde. 
 pedro sena-lino 









 já quase fevereiro e o tempo passa sem que se note a ferida 
 cresce - tão tarde criança. o corpo tão gasto. como as folhas do jornal daquela infância onde não mais voltarei para te não tornar a ver - e assim perder uma parte de mim que nunca vi. deixei as asas na procissão de nossa senhora dos remédios. e a voz chama abismo a um pedaço de terra - quero que a avó me mande o castelo que me prometeu - por ser condição humana sonhar. acredito com a mesma força com que fujo à vida. ou a vida me foge 
já quase fevereiro e o tempo passa sem que se note 
a ferida cresce.





domingo, 20 de janeiro de 2013





francesca woodman












venho dormir junto de ti
e o meu corpo é uma coisa diferente
do que se vê ou toca ou sente;
é, fora de mim, essa coluna de ar onde respiro,
olhos que beijam o teu corpo exacto,
as muitas mãos que dobram o teu rosto.
Um deus que dorme, um deus que dança, e mais
que um mero deus, o breve amor do tempo. 


antónio franco alexandre








todas as noites. à mesma hora. o mesmo jeito de repousar a cara. e a pele gelada a perguntar por ele. e a pele gelada não sente nada - ninguém conhece como assim dói o coração tão só - por vezes o corpo crê ser uma árvore. ou um polvo. com ramos ou tentáculos suficientemente fortes para se agarrar à vida - por vezes a cara não quer repousar e a pele tão quente - de noite. dizem. as florestas são pardas como os gatos. e ninguém descobre o corpo - de noite. não há mares nem marinheiros que adivinhem a rota. e a rosa tem ventos fortes. fortes são os ventos de noite e a pele tão gelada.




quinta-feira, 10 de janeiro de 2013






petra collins










 Pelo teu amor dói-me o ar
 o coração e o chapéu.

 frederico garcía lorca







- quero acreditar no mundo mas dói-me tanto o corpo. tenho uma esperança tão pequena - há dias apeteceu-me morrer como morrem as plantas. por sobre a terra encolher. encolher. até desaparecer. ser nada no tudo que a terra encerra - foi quando me lembrei de todos os rostos que amei. foram-me aparecendo essas pessoas que me serviram amor e alguns sonhos. como se fosse fácil - mas amor não me engana assim. nem se lembra assim em forma de caras - mas pode ser que o passado não doa. ou doa menos um bocadinho. por as ter lembrado. assim quase tão de repente como quando as esqueci -





quinta-feira, 20 de dezembro de 2012






laura makabresku











dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nunhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

al berto












um dia no corcovado pedirei a cristo que me mate de sol - somos feitos de água e o nosso corpo ao mar regressa depois da morte - nascemos em montes altos enormes. onde os braços das moças não chegam por serem pequenos. e somos sós - não entendo por que assim deixam morrer os corpos sós. sempre me disseram que havia um final feliz. e eu que acreditava em finais felizes vejo hoje que tudo apenas existiu pela força da minha fé - já os anos têm passado sem que me dê conta do tempo que já não vivo e. porque ao corpo não regressa a luz. encosto o ouvido às nuvens e sigo com os pássaros -




segunda-feira, 17 de dezembro de 2012








laura makabresku







quero dizer-te: não morras.
Nem me digas quem és, quem foste, como sabes
a língua que se fala sobre a terra.
Ao lume lanço
toda a vontade de viver, ser vivo,
a cautela do ar, ardendo em torno.
Passarei, terás passado em mim, só quero
dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.

antónio franco alexandre







penso nos anos que viveste comigo e nos anos que vivi sem ti. concluo que a tua fé não te salvou e deus está morto. ou foi a minha fé que não me salvou da tua morte e deus vive ainda - são duros os dias na memória do teu rosto branco. pela lembrança da tua pele tão fria. e todos os invernos custam por haver dezembros. e todos os dezembros doem por haver dezoitos - sossega-me saber que são mais os anos que viveste comigo, por agora.