sábado, 2 de março de 2013






laura makabresku


 E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas ilusões de que tudo podia ser meu pra sempre.

 miguel sousa tavares







a morte é a falta de alguém que já não existe - existir é deixar partir. para sempre. as pessoas que amamos. fechá-las do lado de fora do corpo. nunca mais pronunciar o seu nome - eu existo para que as pessoas que amei nunca morram e por isso te recordo como se estivesses vida. a saia com a bainha desfeita atrás escondida pelo avental. a camisola de lã muito pura. tirada da ovelha ainda virgem. as mãos fartas de agarrar a vida. o rosto muito branco e frio como a neve na serra - se fechar os olhos ainda aqui estás a abraçar-me muito - abraça-me forte. avó. para que não chore.





sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013







heiner luepke







 'Por que é que havia de me sentir sozinho? Raras vezes na minha vida, desde que me lembro de mim, tive um sentimento de solidão. E não me sinto mal na minha companhia, divertimo-nos muito os dois, eu e eu. Não me aborreço' 
antónio lobo antunes









para dentro da noite levo o corpo. de corpo feito vou com o passo certo de quem conhece o abismo - são meus todos os precipícios da terra. sempre tive um fraco por grandes quedas. como quando encostava o corpo à ravina e deixava o sangue doer-me na ponta dos dedos - as noites existem para que se cumpram os dias e os anos e a vida -












quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013






anna ådén 










 pouco mais há a dizer, caminho largando os últimos resíduos da memória. fragmentos de noite escritos com o coração a pressentir as catástrofes do mundo. a grande solidão é um lugar branco povoado de mitos, de tristezas e de alegria. mas estou quase sempre triste. algumas fotografias revelam-me que noutros lugares já estivera triste, por exemplo, no fundo deste poço vi inclinar-se a sombra adolescente que fui. água lunar, canaviais, luminosos escaravelhos. este sol queimando a pele das plantas. caminho pelos textos e reparo em tudo isto. o que começo deixo inacabado, como deixarei a vida, tenho a certeza, inacabada. o mundo pertenceu-me, a memória revela-me essa herança, esse bem. hoje, apenas sinto o vento reacender feridas, nada possuo, nem sequer o sofrimento. outra memória vai tomando forma, assusta-me. ainda quase nada aconteceu e já envelheci tanto.


al berto






és do mundo. estou certa que me lembrarás como um lugar que existiu para que fosses feliz - quando partiste não permiti aos olhos chorar-te mais que um dia. os olhos não podem assim chorar por quem não lhes quer bem - às vezes. de madrugada. imagino como seria se ainda aqui estivesses. se o meu corpo te reconheceria - fico. só queria um pedaço de céu onde encostar a cabeça. um pedaço de terra que se fizesse ilha - há noites tão noites. tão escuras. que o deserto do mundo me sobe à cabeça - não minto. percebo quando o corpo se sente só. por ser assim simples. é quando a mão está fria. quando o corpo sem pele. quando a boca dói no limite dos lábios - fechar os olhos e deitar o mundo. adormece-lo em sal.





segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013







anna ådén













O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher

 ruy belo






sinto o frio nos ossos e uma dor aguda a subir-me pelas costas. já no caco da cabeça - não quero pensar. digo - o meu corpo é um animal que foge. de encontro ao tempo. de encontro ao mundo. por fora da vida - onde estavas quando em mil novecentos e oitenta e sete a menina nascia. encolhida de sangue e frio. era novembro e a mãe fugia - está frio. 









segunda-feira, 28 de janeiro de 2013







laura makabresku 










Não temos saudades, 
é a saudade
que nos 
tem. 

eduardo lourenço 












que parte de mim parte nos dias frios. que mãos são estas que se apartam do corpo por não terem a que se agarrar - e nos braços a pele doída pelo amor que parte - na falta de luz também as noites se deixam esquecer. é porque somos como barcos no mar alto. à procura de rota. contornando tempestades - fico. espero que o tempo quente me traga sol e me mate de luz






domingo, 27 de janeiro de 2013







laura makabresku 







deste lado da morte 
ninguém
responde. 
 pedro sena-lino 









 já quase fevereiro e o tempo passa sem que se note a ferida 
 cresce - tão tarde criança. o corpo tão gasto. como as folhas do jornal daquela infância onde não mais voltarei para te não tornar a ver - e assim perder uma parte de mim que nunca vi. deixei as asas na procissão de nossa senhora dos remédios. e a voz chama abismo a um pedaço de terra - quero que a avó me mande o castelo que me prometeu - por ser condição humana sonhar. acredito com a mesma força com que fujo à vida. ou a vida me foge 
já quase fevereiro e o tempo passa sem que se note 
a ferida cresce.





domingo, 20 de janeiro de 2013





francesca woodman












venho dormir junto de ti
e o meu corpo é uma coisa diferente
do que se vê ou toca ou sente;
é, fora de mim, essa coluna de ar onde respiro,
olhos que beijam o teu corpo exacto,
as muitas mãos que dobram o teu rosto.
Um deus que dorme, um deus que dança, e mais
que um mero deus, o breve amor do tempo. 


antónio franco alexandre








todas as noites. à mesma hora. o mesmo jeito de repousar a cara. e a pele gelada a perguntar por ele. e a pele gelada não sente nada - ninguém conhece como assim dói o coração tão só - por vezes o corpo crê ser uma árvore. ou um polvo. com ramos ou tentáculos suficientemente fortes para se agarrar à vida - por vezes a cara não quer repousar e a pele tão quente - de noite. dizem. as florestas são pardas como os gatos. e ninguém descobre o corpo - de noite. não há mares nem marinheiros que adivinhem a rota. e a rosa tem ventos fortes. fortes são os ventos de noite e a pele tão gelada.