sexta-feira, 24 de maio de 2013







laura makabresku 



 Quando entre nós
só havia uma carta certa
a correspondência completa
o trem os trilhos
a janela aberta uma certa paisagem
sem pedras ou sobressaltos
meu salto alto
em equilíbrio
o copo d’água
a espera do café

ana c.





deram-me um espaço vazio e eu construí a noite. deram-me um corpo e eu construí o dia - se não me dessem nada não haveria mundo e o tempo seria um lugar vazio à espera dos corpos - dizer silêncio é encolher-me inteiro. deixar doer-me o coração tão duro e assim anoitecer como se as estrelas se pudessem de repente apagar para sempre - tenho medo.





quarta-feira, 1 de maio de 2013






laura makabresku 







 Desde a obscuridade
de tudo que tudo é inocente.
Nunca se pode ver a noite toda de súbito.

 herberto helder






se fosses viva hoje seria o teu aniversário - e todas as árvores chamariam o teu nome neste dia de abril em que os pássaros não voltam - talvez por teres morrido já nem abril é o mesmo. já não há sol e as nuvens aquecem os olhos - faz anos que não te abraço. nem me dizes baixinho ao ouvido que tudo vai ficar bem. como pode ficar tudo bem sem a tua pele tão velha a ensinar à minha como construir vida - já o mês acabou e até o dia mas a tua memória permanece a bater-me no coração.




sábado, 27 de abril de 2013






laura makabresku 


 fazia nós no outono. o eco genital de Deus a abrir avessos. um sangue muito branco falava na água da pele. é aqui o meu corpo, perguntei, mas deste lado da morte ninguém respondia. árvores todas caíam os braços. o deserto escorria no lugar da pele. um lençol cheio de silêncio respondia pelo mundo. é aqui o meu corpo, perguntei, mas deste lado da morte ninguém respondeu. o dia não sabia se existia. uma canção de barco abria feridas no tempo. as janelas diziam dezembro, dezembro, e a primavera tinha sido ontem por fora. é aqui o meu corpo, perguntei, mas deste lado da morte ninguém responde. 
 pedro sena-lino








tantas vezes na vida inventei memórias de dias felizes. só para sofrer menos. para que os dias passassem mais depressa - às vezes perdia-me. sem saber se era realidade o que vivia ou uma memória feliz que inventara - contigo nunca foi preciso inventar memórias. todos os dias eram felizes no teu rosto branco como neve. foste a ruiva mais ruiva que já conheci. a amiga mais amiga que nunca tive - às vezes descíamos a calçada como dois sardões ao sol. tão devagar que o tempo nem passava por nós. depois corríamos a rasgar o verde de uma infância sem sombra - queria para ti um mundo maior. uma vida mais vida - que fazer enquanto a morte cresce. que fazer enquanto ninguém dorme - que a dor não te incomode e a luz te abrigue.



segunda-feira, 15 de abril de 2013

 
mariam sitchinava 








 De manhã, apanho as ervas do quintal. A terra,
 ainda fresca, sai com as raízes; e mistura-se com
 a névoa da madrugada. O mundo, então,
 fica ao contrário: o céu, que não vejo, está
por baixo da terra; e as raízes sobem
 numa direcção invisível. De dentro
 de casa, porém, um cheiro a café chama
 por mim: como se alguém me dissesse
 que é preciso acordar, uma segunda vez,
 para que as raízes cresçam por dentro da
 terra e a névoa, dissipando-se, deixe ver o azul.

 nuno júdice






partir por partir que me parta o coração já tão habituado - se a origem do mundo fosse um barco talvez nós fossemos a água e o caminho do mundo fosse feito de descidas de rio ou de ondas de mar - que a vida que hoje muda amanheça alegre na esperança de que em algum lugar alguém nos espera. de que de alguma forma o mundo nos pertence - aconteça o que acontecer é primavera e as estações são construídas no coração de um mundo que aprendeu o oceano.





sábado, 2 de março de 2013






laura makabresku


 E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas ilusões de que tudo podia ser meu pra sempre.

 miguel sousa tavares







a morte é a falta de alguém que já não existe - existir é deixar partir. para sempre. as pessoas que amamos. fechá-las do lado de fora do corpo. nunca mais pronunciar o seu nome - eu existo para que as pessoas que amei nunca morram e por isso te recordo como se estivesses vida. a saia com a bainha desfeita atrás escondida pelo avental. a camisola de lã muito pura. tirada da ovelha ainda virgem. as mãos fartas de agarrar a vida. o rosto muito branco e frio como a neve na serra - se fechar os olhos ainda aqui estás a abraçar-me muito - abraça-me forte. avó. para que não chore.





sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013







heiner luepke







 'Por que é que havia de me sentir sozinho? Raras vezes na minha vida, desde que me lembro de mim, tive um sentimento de solidão. E não me sinto mal na minha companhia, divertimo-nos muito os dois, eu e eu. Não me aborreço' 
antónio lobo antunes









para dentro da noite levo o corpo. de corpo feito vou com o passo certo de quem conhece o abismo - são meus todos os precipícios da terra. sempre tive um fraco por grandes quedas. como quando encostava o corpo à ravina e deixava o sangue doer-me na ponta dos dedos - as noites existem para que se cumpram os dias e os anos e a vida -












quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013






anna ådén 










 pouco mais há a dizer, caminho largando os últimos resíduos da memória. fragmentos de noite escritos com o coração a pressentir as catástrofes do mundo. a grande solidão é um lugar branco povoado de mitos, de tristezas e de alegria. mas estou quase sempre triste. algumas fotografias revelam-me que noutros lugares já estivera triste, por exemplo, no fundo deste poço vi inclinar-se a sombra adolescente que fui. água lunar, canaviais, luminosos escaravelhos. este sol queimando a pele das plantas. caminho pelos textos e reparo em tudo isto. o que começo deixo inacabado, como deixarei a vida, tenho a certeza, inacabada. o mundo pertenceu-me, a memória revela-me essa herança, esse bem. hoje, apenas sinto o vento reacender feridas, nada possuo, nem sequer o sofrimento. outra memória vai tomando forma, assusta-me. ainda quase nada aconteceu e já envelheci tanto.


al berto






és do mundo. estou certa que me lembrarás como um lugar que existiu para que fosses feliz - quando partiste não permiti aos olhos chorar-te mais que um dia. os olhos não podem assim chorar por quem não lhes quer bem - às vezes. de madrugada. imagino como seria se ainda aqui estivesses. se o meu corpo te reconheceria - fico. só queria um pedaço de céu onde encostar a cabeça. um pedaço de terra que se fizesse ilha - há noites tão noites. tão escuras. que o deserto do mundo me sobe à cabeça - não minto. percebo quando o corpo se sente só. por ser assim simples. é quando a mão está fria. quando o corpo sem pele. quando a boca dói no limite dos lábios - fechar os olhos e deitar o mundo. adormece-lo em sal.