sexta-feira, 27 de setembro de 2013







laura makabresku









Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.

herberto helder






às vezes o amor doía - que fazer do coração. sem cabeça. o que dizer à boca - e vivia o completo silêncio de quem sabe que os meus dedos existiam com o único propósito de sentir a tua pele - e doía como uma madrugada fria na pele. como uma luz forte nos olhos ou maracujás ainda não maduros na língua - talvez o amor seja isto. este sentir-me só entre os teus braços - 







domingo, 22 de setembro de 2013






laura makabresku








E demais a mais a gente vai-se habituando aos objectos e acaba por ter saudades deles quando desaparecem. Teria saudades do marido se ele desaparecesse? Julgou que sim, julgou que não, julgou que sim, cessou de julgar. Em trinta e seis anos o marido não desaparecera nunca e, portanto, seria pouco natural que desaparecesse agora, perto dos setenta. Para mais afigurava-se-lhe que de há semanas para cá ele começara a arrastar um pouco uma das pernas e de perna arrastada ninguém vai muito longe.

antónio lobo antunes






- o futuro nunca chega e o tempo passa. tão rápido como os anos pela pele. já murcha de espera - a tristeza não acaba. nem o tempo - que fazer ao corpo quando a noite se precipita. que fazer da boca quando os silêncios fartam - no peito cresce musgo. humidades de um outono que não chega - às vezes acredito que o futuro é o lugar onde nunca chegamos - os braços pêndulos. as pernas esticadas e um corpo inerte pelo peso das memórias - assim vou pela vida como um voo de pássaro entre neve e gelo -









quinta-feira, 5 de setembro de 2013


























laura makabresku







andávamos sem nos procurarmos,
 mas sabendo que andávamos
 para nos encontrarmos.

 júlio cortázar







a idade não perdoa e o corpo cresce - deixo esta casa para regressar aos vales da minha infância. uma nesga de vento nos cabelos. no rosto. no corpo. na pele fria. sob o olhar atento das madrugadas de agosto - não quero esquecer. o latidos dos cães nos primeiros dias de setembro e uma voz muito fina chamando o meu nome. como se só o meu nome existisse e o mundo fosse o medo de me perder - era tanto sol por entre as árvores que os ramos ardiam nos olhos das crianças e era como se a terra não existisse e tudo fosse só luz - quero morrer de encontro ao sol.








quarta-feira, 4 de setembro de 2013






laura makabresku






Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir a voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.


 antónio botto







setembro tardava no gosto de amoras bravas. no corpo morno das horas. nas flores já secas nas jarras. no rosto pálido dos avós. na minha esperança ténue - assim tardasse agosto e todos os meses que o antecedem. assim tardasse a morte - às vezes esqueço o teu nome e é como se a sombra dos pinheiros no monte me aclarasse a memória. e é o teu rosto de encontro ao meu em passo calmo. e é o teu corpo ao meu abraçado. e é como se fosse presente o que já só passado - como uma fotografia que o bolso não larga e a pele gasta. assim te dou vida. nos tantos dias que tenho. nos tantos anos que restam. da tanta vida que falta -











quarta-feira, 3 de julho de 2013

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mariam sitchinava









 «Vou contar uma história. Havia uma rapariga que era maior de um lado que do outro. Cortaram-lhe um pedaço do lado maior: foi de mais. Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno. Cortaram. Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior. Tornaram a cortar. Foram cortando e cortando. O objectivo era este: criar um ser normal. Não conseguiam. A rapariga acabou por desaparecer de tão cortada nos dois lados.»

herberto helder




como uma sombra de nuvem atravessando os prédios. assim é o futuro - sei que existe um mundo novo lá fora. e quando abrir os olhos um mundo novo cheio de luz aquecerá o corpo - não quero abrir os olhos agora. é das trevas que faço casa - quando voltarem as estações frias atiro o corpo ao mar. quero morrer com os peixes. de sal na boca e escamas no coração - certas vozes gritam o pânico de não haver mundo e eu em silêncio. fico. talvez o mundo seja esta maneira de ficar. assim muda. sem dó nem si. nem de si dó - amanhã alguém morre de luz.





sexta-feira, 24 de maio de 2013







laura makabresku 



 Quando entre nós
só havia uma carta certa
a correspondência completa
o trem os trilhos
a janela aberta uma certa paisagem
sem pedras ou sobressaltos
meu salto alto
em equilíbrio
o copo d’água
a espera do café

ana c.





deram-me um espaço vazio e eu construí a noite. deram-me um corpo e eu construí o dia - se não me dessem nada não haveria mundo e o tempo seria um lugar vazio à espera dos corpos - dizer silêncio é encolher-me inteiro. deixar doer-me o coração tão duro e assim anoitecer como se as estrelas se pudessem de repente apagar para sempre - tenho medo.





quarta-feira, 1 de maio de 2013






laura makabresku 







 Desde a obscuridade
de tudo que tudo é inocente.
Nunca se pode ver a noite toda de súbito.

 herberto helder






se fosses viva hoje seria o teu aniversário - e todas as árvores chamariam o teu nome neste dia de abril em que os pássaros não voltam - talvez por teres morrido já nem abril é o mesmo. já não há sol e as nuvens aquecem os olhos - faz anos que não te abraço. nem me dizes baixinho ao ouvido que tudo vai ficar bem. como pode ficar tudo bem sem a tua pele tão velha a ensinar à minha como construir vida - já o mês acabou e até o dia mas a tua memória permanece a bater-me no coração.