sábado, 5 de outubro de 2013










laura makabresku







Por tu amor me duele el aire,
el corazón
y el sombrero.

lorca









 o caminho faz-se caminhando - assim me dizia a boca ao coração. como um segredo que o tempo guarda - os dias passam. lentamente. uns sobre os outros. o corpo resiste à memória - não quero perder nada - os caminhos da minha infância. o cheiro a hortelã. o gosto da canja de galinha. o entardecer na ponte. o teu sorriso demorado. os caracóis no quintal. as histórias do tio zé. não quero perder nada - o meu maior medo é esquecer - as girandolas. a geada nos campos. as flores amarelas das giestas. a água fria do tâmega. as modas da joaquina. as quadras dos réis. as saias da dona isaura. os diospiros do ferreiro. a marmelada. a lenha a estalar no lume. as urtigas nas pernas - o meu maior medo é esquecer - as tangerinas. a roupa a secar na eira. a aletria quente. as ceroulas do avô. o frio das manhãs em dezembro. os mergulhos. as meias de lã - não quero perder o teu nome. as ruas por onde passaste. os lugares onde me levaste. nenhuma festa. nenhum carinho. não quero perder-te e o corpo resiste à memória.








quarta-feira, 2 de outubro de 2013










Ann He











Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
 perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui


ruy belo






às vezes invento terra. só para construir montes onde existam bosques e árvores densas onde guardar memórias - ando pela vida. às vezes sem vontade. como em pesadelos. e invento dias melhores. um futuro onde sossegar o corpo e entregar a pele ao frio das manhãs - as estações passam por mim como pirilampos no verão. depressa chegam. depressa partem. e não há um momento em que a consciência consiga nomear o dia exato de estar. apenas se é hoje ou amanhã - tenho uma vaga ideia dos dias porque o corpo adormece e acorda em diferentes lugares. sei quando escurece porque não se vêem as nuvens. pouco mais - tantas vezes me esqueço de mim. até. que descubro que idade tenho porque me dói andar - o meu maior medo é morrer sem me lembrar de quem me fez feliz.
















sexta-feira, 27 de setembro de 2013







laura makabresku









Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.

herberto helder






às vezes o amor doía - que fazer do coração. sem cabeça. o que dizer à boca - e vivia o completo silêncio de quem sabe que os meus dedos existiam com o único propósito de sentir a tua pele - e doía como uma madrugada fria na pele. como uma luz forte nos olhos ou maracujás ainda não maduros na língua - talvez o amor seja isto. este sentir-me só entre os teus braços - 







domingo, 22 de setembro de 2013






laura makabresku








E demais a mais a gente vai-se habituando aos objectos e acaba por ter saudades deles quando desaparecem. Teria saudades do marido se ele desaparecesse? Julgou que sim, julgou que não, julgou que sim, cessou de julgar. Em trinta e seis anos o marido não desaparecera nunca e, portanto, seria pouco natural que desaparecesse agora, perto dos setenta. Para mais afigurava-se-lhe que de há semanas para cá ele começara a arrastar um pouco uma das pernas e de perna arrastada ninguém vai muito longe.

antónio lobo antunes






- o futuro nunca chega e o tempo passa. tão rápido como os anos pela pele. já murcha de espera - a tristeza não acaba. nem o tempo - que fazer ao corpo quando a noite se precipita. que fazer da boca quando os silêncios fartam - no peito cresce musgo. humidades de um outono que não chega - às vezes acredito que o futuro é o lugar onde nunca chegamos - os braços pêndulos. as pernas esticadas e um corpo inerte pelo peso das memórias - assim vou pela vida como um voo de pássaro entre neve e gelo -









quinta-feira, 5 de setembro de 2013


























laura makabresku







andávamos sem nos procurarmos,
 mas sabendo que andávamos
 para nos encontrarmos.

 júlio cortázar







a idade não perdoa e o corpo cresce - deixo esta casa para regressar aos vales da minha infância. uma nesga de vento nos cabelos. no rosto. no corpo. na pele fria. sob o olhar atento das madrugadas de agosto - não quero esquecer. o latidos dos cães nos primeiros dias de setembro e uma voz muito fina chamando o meu nome. como se só o meu nome existisse e o mundo fosse o medo de me perder - era tanto sol por entre as árvores que os ramos ardiam nos olhos das crianças e era como se a terra não existisse e tudo fosse só luz - quero morrer de encontro ao sol.








quarta-feira, 4 de setembro de 2013






laura makabresku






Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir a voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.


 antónio botto







setembro tardava no gosto de amoras bravas. no corpo morno das horas. nas flores já secas nas jarras. no rosto pálido dos avós. na minha esperança ténue - assim tardasse agosto e todos os meses que o antecedem. assim tardasse a morte - às vezes esqueço o teu nome e é como se a sombra dos pinheiros no monte me aclarasse a memória. e é o teu rosto de encontro ao meu em passo calmo. e é o teu corpo ao meu abraçado. e é como se fosse presente o que já só passado - como uma fotografia que o bolso não larga e a pele gasta. assim te dou vida. nos tantos dias que tenho. nos tantos anos que restam. da tanta vida que falta -











quarta-feira, 3 de julho de 2013

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mariam sitchinava









 «Vou contar uma história. Havia uma rapariga que era maior de um lado que do outro. Cortaram-lhe um pedaço do lado maior: foi de mais. Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno. Cortaram. Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior. Tornaram a cortar. Foram cortando e cortando. O objectivo era este: criar um ser normal. Não conseguiam. A rapariga acabou por desaparecer de tão cortada nos dois lados.»

herberto helder




como uma sombra de nuvem atravessando os prédios. assim é o futuro - sei que existe um mundo novo lá fora. e quando abrir os olhos um mundo novo cheio de luz aquecerá o corpo - não quero abrir os olhos agora. é das trevas que faço casa - quando voltarem as estações frias atiro o corpo ao mar. quero morrer com os peixes. de sal na boca e escamas no coração - certas vozes gritam o pânico de não haver mundo e eu em silêncio. fico. talvez o mundo seja esta maneira de ficar. assim muda. sem dó nem si. nem de si dó - amanhã alguém morre de luz.