segunda-feira, 25 de novembro de 2013










laura makabresku








Olha os meus olhos morena
porque a aventura é ficar
se a minha terra é pequena
eu quero morrer no mar.
Lençóis de algas e peixes
de barcos a menear
no dia em que tu me deixes
eu quero morrer no mar
E se o negro é a tua cor
respirando devagar
depois do amor meu amor
eu quero morrer no mar.

antónio lobo antunes










quando quieta o corpo foge. a pele estala na aridez de outono- de rosto voltado a sul desenho o voo perfeito - e sinto todas essas aves mortas de cansaço. a hibernar afetos como quem escreve canções de amor - falta sempre um pouco mais - é breve e triste o passar dos anos. como suspiros ou arrepios de pele - o que a gente sente é a melancolia de quem sabe que os anos passados já não nos pertencem e uma vontade enorme de os ter - temos memórias mas até essas partem - lembro: o mar estava bravo e o frio no pescoço fazia tremer o corpo. ao longe uma nuvem desaparece no azul -















terça-feira, 12 de novembro de 2013










laura makabresku






'Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te assim por acaso no meu dia livre a meio da semana. Mantêm-se as causas iguais das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono custa. Porque estou contigo e me deixas a tua imagem passa pelas noites sem sono, está aqui a cadeira em que te sentaste a escrever lendo. Pudesse eu propor-te vida menos igual, outras iguais obrigações. Havias de rir, sair à rua...'
helder moura pereira









minha querida c. és do mundo - guardo em mim a paz e a alegria de ter entre os braços. como uma memória bonita que se busca em dias tristes - sei da tua paixão pelas grandes coisas. as essenciais. invisíveis aos olhos e nítidas a um coração que vive de água e mar - as minhas lágrimas são hoje como nuvens onde te deitas feliz. voltada para sul - espero o teu regresso. como espero as andorinhas. uma ânsia de primavera no corpo frio de inverno - quis dizer-te outro país. tão meu como os sonhos. sei que o fizeste teu. - é tão simples como sorrir - ensinaste-me a vida. como resistir à morte. como caçar borboletas e sossegar o coração - talvez um dia te consiga explicar como foge. com que voz grita. um coração assim forte e quente como o meu - também sei que são tuas todas as noites e todas as estrelas. estarei olhando por elas - quando regressares das terras de áfrica para onde partes em breve. estarei aqui para abraçar-te com o corpo cheio de luz e amor.






segunda-feira, 11 de novembro de 2013






mariam sitchinava












As noites desmedidas de novembro
abertas sobre a queixa rígida das árvores
inauguram o outono sobre a terra

 ruy belo







quando era pequena acreditava que o mundo era do tamanho do meu país. e era como uma folha em branco onde seria possível escrever todos os continentes que quisesse. e os mares corriam em cascata rumo ao peito aberto - nunca fui de falar muito. observava por entre nesgas de cabelo. a vida. sei hoje tão pouco da vida como nessa altura. aliás. creio que ainda sei menos - quando era pequena fugia do mundo. hoje ainda mais -






quarta-feira, 6 de novembro de 2013


































laura makabresku












No verão em que partiste bem me lembro
 pensei coisas profundas
 É de novo verão. Cada vez tens menos lugar
 neste canto de nós donde anualmente
 te havemos piedosamente de desenterrar
 Até à morte da morte

ruy belo









é outra vez novembro e nenhum ano passa sem que me lembre de todos os rostos que amei - na década de noventa fiz ninho em corações de homens sós. e às noites frias contei verdadeiras histórias de amor. dessas histórias tão histórias que já nem eu sei o que é verdade ou mentira - porque as mentiras que a boca diz são como cinza fertilizando terra - o meu corpo só. na casa dos vinte. corre de encontro à luz. nem a chuva do mês me impede de ir. nem a cinza na boca - às vezes recordo. com alguma saudade. os homens que amei. as mãos deste. as palavras daquele. os silêncios do outro. e fico apertando o coração até que sangre um pouco. pela certeza de os ter querido como quero os dias de sol. quentes na pele - tenho saudade dos nomes. dos corpos. dos homens que amei. que agora recordo em esforço - com os anos a memória encolhe.










quarta-feira, 9 de outubro de 2013






ann he















Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

 Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

ruy belo







quando era pequena era loira e tinha os joelhos tão tortos que as minhas saias eram mais compridas. de propósito só para os tapar - tinha uma terrível afeição por notas e para me portar bem era só dar-me uma ou outra para a mão - lembro-me que não gostava das estátuas da virgem maria e quase sempre fazia dela a minha boneca. onde experimentava as roupas da barbie ou fazia espetaculares pinturas - a minha avó. que por ser tão paciente e amável há-de estar no céu. ensinou-me bonitas canções. histórias de uma carolina com lagartos na saia ou de um serafim que comia sem usar colher. que eu cantava tapada abaixo até ao rio - sempre gostei muito de água. ainda hoje. sentar-me descalça na borda do tâmega e deixar os peixes pequenos fazerem-me cócegas nos pés. dormir com as mãos dentro de água. ainda hoje - eu sei que a minha avó já cá não está mas às vezes é como se ela me desse uma nota para a mão. eu a apertasse tão forte que as unhas me ficassem marcadas na palma. e a ouvisse dizer - porta-te bem.











sábado, 5 de outubro de 2013










laura makabresku







Por tu amor me duele el aire,
el corazón
y el sombrero.

lorca









 o caminho faz-se caminhando - assim me dizia a boca ao coração. como um segredo que o tempo guarda - os dias passam. lentamente. uns sobre os outros. o corpo resiste à memória - não quero perder nada - os caminhos da minha infância. o cheiro a hortelã. o gosto da canja de galinha. o entardecer na ponte. o teu sorriso demorado. os caracóis no quintal. as histórias do tio zé. não quero perder nada - o meu maior medo é esquecer - as girandolas. a geada nos campos. as flores amarelas das giestas. a água fria do tâmega. as modas da joaquina. as quadras dos réis. as saias da dona isaura. os diospiros do ferreiro. a marmelada. a lenha a estalar no lume. as urtigas nas pernas - o meu maior medo é esquecer - as tangerinas. a roupa a secar na eira. a aletria quente. as ceroulas do avô. o frio das manhãs em dezembro. os mergulhos. as meias de lã - não quero perder o teu nome. as ruas por onde passaste. os lugares onde me levaste. nenhuma festa. nenhum carinho. não quero perder-te e o corpo resiste à memória.








quarta-feira, 2 de outubro de 2013










Ann He











Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
 perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui


ruy belo






às vezes invento terra. só para construir montes onde existam bosques e árvores densas onde guardar memórias - ando pela vida. às vezes sem vontade. como em pesadelos. e invento dias melhores. um futuro onde sossegar o corpo e entregar a pele ao frio das manhãs - as estações passam por mim como pirilampos no verão. depressa chegam. depressa partem. e não há um momento em que a consciência consiga nomear o dia exato de estar. apenas se é hoje ou amanhã - tenho uma vaga ideia dos dias porque o corpo adormece e acorda em diferentes lugares. sei quando escurece porque não se vêem as nuvens. pouco mais - tantas vezes me esqueço de mim. até. que descubro que idade tenho porque me dói andar - o meu maior medo é morrer sem me lembrar de quem me fez feliz.