quarta-feira, 27 de novembro de 2013







laura makabresku








quero dizer-te: não morras.
Nem me digas quem és, quem foste, como sabes
a língua que se fala sobre a terra.
Ao lume lanço
toda a vontade de viver, ser vivo,
a cautela do ar, ardendo em torno.
Passarei, terás passado em mim, só quero
dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.


antónio franco alexandre 









quero um corpo de encontro à pele. ainda que gele - esta beleza dói no abraço que não damos - sei de alguma beleza. guardada em lugares. pessoas. memórias. onde regresso quando me falta pele - e cresce no corpo uma vontade de ir. tão bela que dói. resgatar a pele dos braços que me faltam - no lugar do coração surge sargaço. e a terra. salgada de mar. faz crescer as árvores - ninguém nos vê. deste lado do peito. ninguém nos vê - espero que saibas que o caminho é uma vida inteira onde existimos.






segunda-feira, 25 de novembro de 2013










laura makabresku








Olha os meus olhos morena
porque a aventura é ficar
se a minha terra é pequena
eu quero morrer no mar.
Lençóis de algas e peixes
de barcos a menear
no dia em que tu me deixes
eu quero morrer no mar
E se o negro é a tua cor
respirando devagar
depois do amor meu amor
eu quero morrer no mar.

antónio lobo antunes










quando quieta o corpo foge. a pele estala na aridez de outono- de rosto voltado a sul desenho o voo perfeito - e sinto todas essas aves mortas de cansaço. a hibernar afetos como quem escreve canções de amor - falta sempre um pouco mais - é breve e triste o passar dos anos. como suspiros ou arrepios de pele - o que a gente sente é a melancolia de quem sabe que os anos passados já não nos pertencem e uma vontade enorme de os ter - temos memórias mas até essas partem - lembro: o mar estava bravo e o frio no pescoço fazia tremer o corpo. ao longe uma nuvem desaparece no azul -















terça-feira, 12 de novembro de 2013










laura makabresku






'Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te assim por acaso no meu dia livre a meio da semana. Mantêm-se as causas iguais das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono custa. Porque estou contigo e me deixas a tua imagem passa pelas noites sem sono, está aqui a cadeira em que te sentaste a escrever lendo. Pudesse eu propor-te vida menos igual, outras iguais obrigações. Havias de rir, sair à rua...'
helder moura pereira









minha querida c. és do mundo - guardo em mim a paz e a alegria de ter entre os braços. como uma memória bonita que se busca em dias tristes - sei da tua paixão pelas grandes coisas. as essenciais. invisíveis aos olhos e nítidas a um coração que vive de água e mar - as minhas lágrimas são hoje como nuvens onde te deitas feliz. voltada para sul - espero o teu regresso. como espero as andorinhas. uma ânsia de primavera no corpo frio de inverno - quis dizer-te outro país. tão meu como os sonhos. sei que o fizeste teu. - é tão simples como sorrir - ensinaste-me a vida. como resistir à morte. como caçar borboletas e sossegar o coração - talvez um dia te consiga explicar como foge. com que voz grita. um coração assim forte e quente como o meu - também sei que são tuas todas as noites e todas as estrelas. estarei olhando por elas - quando regressares das terras de áfrica para onde partes em breve. estarei aqui para abraçar-te com o corpo cheio de luz e amor.






segunda-feira, 11 de novembro de 2013






mariam sitchinava












As noites desmedidas de novembro
abertas sobre a queixa rígida das árvores
inauguram o outono sobre a terra

 ruy belo







quando era pequena acreditava que o mundo era do tamanho do meu país. e era como uma folha em branco onde seria possível escrever todos os continentes que quisesse. e os mares corriam em cascata rumo ao peito aberto - nunca fui de falar muito. observava por entre nesgas de cabelo. a vida. sei hoje tão pouco da vida como nessa altura. aliás. creio que ainda sei menos - quando era pequena fugia do mundo. hoje ainda mais -






quarta-feira, 6 de novembro de 2013


































laura makabresku












No verão em que partiste bem me lembro
 pensei coisas profundas
 É de novo verão. Cada vez tens menos lugar
 neste canto de nós donde anualmente
 te havemos piedosamente de desenterrar
 Até à morte da morte

ruy belo









é outra vez novembro e nenhum ano passa sem que me lembre de todos os rostos que amei - na década de noventa fiz ninho em corações de homens sós. e às noites frias contei verdadeiras histórias de amor. dessas histórias tão histórias que já nem eu sei o que é verdade ou mentira - porque as mentiras que a boca diz são como cinza fertilizando terra - o meu corpo só. na casa dos vinte. corre de encontro à luz. nem a chuva do mês me impede de ir. nem a cinza na boca - às vezes recordo. com alguma saudade. os homens que amei. as mãos deste. as palavras daquele. os silêncios do outro. e fico apertando o coração até que sangre um pouco. pela certeza de os ter querido como quero os dias de sol. quentes na pele - tenho saudade dos nomes. dos corpos. dos homens que amei. que agora recordo em esforço - com os anos a memória encolhe.










quarta-feira, 9 de outubro de 2013






ann he















Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

 Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

ruy belo







quando era pequena era loira e tinha os joelhos tão tortos que as minhas saias eram mais compridas. de propósito só para os tapar - tinha uma terrível afeição por notas e para me portar bem era só dar-me uma ou outra para a mão - lembro-me que não gostava das estátuas da virgem maria e quase sempre fazia dela a minha boneca. onde experimentava as roupas da barbie ou fazia espetaculares pinturas - a minha avó. que por ser tão paciente e amável há-de estar no céu. ensinou-me bonitas canções. histórias de uma carolina com lagartos na saia ou de um serafim que comia sem usar colher. que eu cantava tapada abaixo até ao rio - sempre gostei muito de água. ainda hoje. sentar-me descalça na borda do tâmega e deixar os peixes pequenos fazerem-me cócegas nos pés. dormir com as mãos dentro de água. ainda hoje - eu sei que a minha avó já cá não está mas às vezes é como se ela me desse uma nota para a mão. eu a apertasse tão forte que as unhas me ficassem marcadas na palma. e a ouvisse dizer - porta-te bem.











sábado, 5 de outubro de 2013










laura makabresku







Por tu amor me duele el aire,
el corazón
y el sombrero.

lorca









 o caminho faz-se caminhando - assim me dizia a boca ao coração. como um segredo que o tempo guarda - os dias passam. lentamente. uns sobre os outros. o corpo resiste à memória - não quero perder nada - os caminhos da minha infância. o cheiro a hortelã. o gosto da canja de galinha. o entardecer na ponte. o teu sorriso demorado. os caracóis no quintal. as histórias do tio zé. não quero perder nada - o meu maior medo é esquecer - as girandolas. a geada nos campos. as flores amarelas das giestas. a água fria do tâmega. as modas da joaquina. as quadras dos réis. as saias da dona isaura. os diospiros do ferreiro. a marmelada. a lenha a estalar no lume. as urtigas nas pernas - o meu maior medo é esquecer - as tangerinas. a roupa a secar na eira. a aletria quente. as ceroulas do avô. o frio das manhãs em dezembro. os mergulhos. as meias de lã - não quero perder o teu nome. as ruas por onde passaste. os lugares onde me levaste. nenhuma festa. nenhum carinho. não quero perder-te e o corpo resiste à memória.