segunda-feira, 9 de dezembro de 2013








rengim mutevellioglu







Os amigos amei 
despido de ternura
 fatigada;
 uns iam, outros vinham,
 a nenhum perguntava
 porque partia,
 porque ficava; 
era pouco o que tinha,
 pouco o que dava,
 mas também só queria
 partilhar
 a sede de alegria —
 por mais amarga.

eugénio de andradre






minha queria s. queria dizer-te que está tudo bem. que a vida é fácil. que os baloiços existem para que a gente se acalme - mas não posso. a vida é dura. o tempo passa. os baloiços são da nossa infância. e tudo dói muito - o que te posso dar é este meu mundo. a ternura de anoitecer com a cabeça no meu ombro. de ver ser natal na cidade. de ser sal nos teus olhos. e este sorriso largo de quem ainda acredita no futuro e sabe que nos esperam dias sem nome. nem ninguém. dias de abraços enormes - tu sabes que o passado é feliz porque te conheço. que o meu coração sossega quando te vejo. e sei que o teu corpo espera pelo meu. porque a distância existe dentro das nossas cabeças - 






terça-feira, 3 de dezembro de 2013







rengim mutevellioglu











 sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti o sôpro até raiar-te a cara,
 até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria


  herberto helder 









o teu nome na minha boca. repetido - com um coração à cabeça. dois braços que impedem água. uma boca que grita - meus dias são. começam e acabam na primeira sílaba do teu nome - e o silêncio dói. não dizê-lo dói - queria gritar o teu nome. que então se socorresse de penhascos e precipícios - minha língua procura uma desculpa para não encontrar-te. um país onde o teu nome não exista - teu nome tem corpo. tem boca. tem riso. tem cheiro intenso de mar. infinito - é nuvem. pó. rua. cave. deserto. caminho - o teu nome só existe na minha boca.





domingo, 1 de dezembro de 2013










elif karakoç










Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste
onde estiveste ou até se exististe
ou se eu mesmo existi pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?

 ruy belo 





sei que é tarde. teu corpo é hoje o musgo cobrindo àrvores. rasgando terra. partindo raízes - a vida é injusta. mas como dizer amor sem que a honestidade da palavra me costure o corpo - tenho tanto para te dizer que a boca me dói. e à força do silêncio dou-te os meus braços. que te agarrem forte quando o país partir e o meu corpo for - queria que o tempo existisse. que o futuro não fosse esse lugar tão escuro onde adormeces - quero acreditar que em algum lugar existimos. como um acaso feliz - 







sábado, 30 de novembro de 2013






mariam sitchinava













é tarde meu amor
 estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva de meu corpo sofrido 
agora, tuas máquinas trituraram-me, cospem-me, interrompem o sono
 habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais… 
a solidão tem dias mais cruéis
 tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro… quis ser grande e morrer contigo
enfeitar-me com as tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda…
cantar-te
os gestos com
 [ternura
 mas não
águas, águas inquinadas pulsando dentro do meu corpo, como um peixe ferido, louco
 em mim a lama... e o visco inocente dos teus náufragos sem nome-de-rua, nem 
[estátua-de-jardim-público
 aceito o desafio do teu desdém
 na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição
 apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam

al berto








quando o mundo pára vejo uma calma e não regresso à terra - é o mar - como ilha vou. estou. em água. e sou da água como um peixe - tenho vontade de mar - subitamente. sou o teu rosto. sossego o tempo na tua boca - e fico. permaneço. e não regresso à terra de homens sem nome. nem morada. nem peito para atirar à bala. nem bala que mate - quero morrer de azul. de água. de frio - sentir a pele tremer e um calafrio no corpo - depois serei mar. azul que mente. e viverei como peixe que conhece a escuridão das águas fundas - do sargaço farei ninho e nos meus braços morrerão pescadores. piratas e homens que ao mar se lançam em suicídio -




quarta-feira, 27 de novembro de 2013







laura makabresku








quero dizer-te: não morras.
Nem me digas quem és, quem foste, como sabes
a língua que se fala sobre a terra.
Ao lume lanço
toda a vontade de viver, ser vivo,
a cautela do ar, ardendo em torno.
Passarei, terás passado em mim, só quero
dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.


antónio franco alexandre 









quero um corpo de encontro à pele. ainda que gele - esta beleza dói no abraço que não damos - sei de alguma beleza. guardada em lugares. pessoas. memórias. onde regresso quando me falta pele - e cresce no corpo uma vontade de ir. tão bela que dói. resgatar a pele dos braços que me faltam - no lugar do coração surge sargaço. e a terra. salgada de mar. faz crescer as árvores - ninguém nos vê. deste lado do peito. ninguém nos vê - espero que saibas que o caminho é uma vida inteira onde existimos.






segunda-feira, 25 de novembro de 2013










laura makabresku








Olha os meus olhos morena
porque a aventura é ficar
se a minha terra é pequena
eu quero morrer no mar.
Lençóis de algas e peixes
de barcos a menear
no dia em que tu me deixes
eu quero morrer no mar
E se o negro é a tua cor
respirando devagar
depois do amor meu amor
eu quero morrer no mar.

antónio lobo antunes










quando quieta o corpo foge. a pele estala na aridez de outono- de rosto voltado a sul desenho o voo perfeito - e sinto todas essas aves mortas de cansaço. a hibernar afetos como quem escreve canções de amor - falta sempre um pouco mais - é breve e triste o passar dos anos. como suspiros ou arrepios de pele - o que a gente sente é a melancolia de quem sabe que os anos passados já não nos pertencem e uma vontade enorme de os ter - temos memórias mas até essas partem - lembro: o mar estava bravo e o frio no pescoço fazia tremer o corpo. ao longe uma nuvem desaparece no azul -















terça-feira, 12 de novembro de 2013










laura makabresku






'Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te assim por acaso no meu dia livre a meio da semana. Mantêm-se as causas iguais das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono custa. Porque estou contigo e me deixas a tua imagem passa pelas noites sem sono, está aqui a cadeira em que te sentaste a escrever lendo. Pudesse eu propor-te vida menos igual, outras iguais obrigações. Havias de rir, sair à rua...'
helder moura pereira









minha querida c. és do mundo - guardo em mim a paz e a alegria de ter entre os braços. como uma memória bonita que se busca em dias tristes - sei da tua paixão pelas grandes coisas. as essenciais. invisíveis aos olhos e nítidas a um coração que vive de água e mar - as minhas lágrimas são hoje como nuvens onde te deitas feliz. voltada para sul - espero o teu regresso. como espero as andorinhas. uma ânsia de primavera no corpo frio de inverno - quis dizer-te outro país. tão meu como os sonhos. sei que o fizeste teu. - é tão simples como sorrir - ensinaste-me a vida. como resistir à morte. como caçar borboletas e sossegar o coração - talvez um dia te consiga explicar como foge. com que voz grita. um coração assim forte e quente como o meu - também sei que são tuas todas as noites e todas as estrelas. estarei olhando por elas - quando regressares das terras de áfrica para onde partes em breve. estarei aqui para abraçar-te com o corpo cheio de luz e amor.