segunda-feira, 23 de dezembro de 2013







ryan kenny











Por um rosto chego ao teu rosto,
noutro corpo sei o teu corpo.
 Num autocarro, num café me pergunto
 porque não falam o que vai
 no seu silêncio aqueles cujo olhar
 me fala da solidão.
 Esqueço-me de mim. Tão quieto
 pensando na sua pouca coragem, a minha
 sempre adiada. Por um rosto chegaria o teu rosto,
mesmo de um convite
 e desenha no ar o hábito
 por que andou antes de saíres
 do espaço à sua volta. Estás longe,
 só assim podes pedir algumas horas
 aos meus dias. Sem fixar a voz a tua voz
é uma corda, a minha
 um fio a partir-se.

 helder moura pereira





como uma nesga de luz atravessando nuvens. assim vai o presente - dentro dos olhos nasce e morre o teu rosto. como uma impressão que incomoda e faz chorar - à pele vou contando histórias. memórias do que eu quero que aconteça. como se o futuro que espero fosse já um passado que lembro e a saudade do que foi perturbasse o coração - as minhas mãos. sempre tão frias. procuram as tuas. mas eu sei que as tuas mãos não existem. que o teu corpo não está. que o teu coração não parte -




sexta-feira, 20 de dezembro de 2013






rita lino 













Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

herberto helder











como se o meu corpo existisse sem mim. isolado - como se o meu corpo fosse uma ilha. assim se apaixonam os homens por ele - tudo o resto. que é sonho. esperança. cansaço. tristeza. é um continente onde os homens não chegam - maravilhados com a ilha perdem-se do mar - os descobrimentos acabam em palmos de pele. bocados de terra. nenhum mundo foi assim descoberto. nem ulisses assim se perdeu - meu corpo sou eu. não existe sem mim. meu corpo tem nome. tem saudade. tem tristeza. tem alegria. tem sonho. tem cansaço. tem - meu corpo é um mundo e nenhum homem fará dele uma ilha







quarta-feira, 18 de dezembro de 2013








  laura makabresku






E dói-me esse rio de já me não amares
de já me não quereres assim como eu te quero
de não sobressaltares porque sou eu que te espero
em esquinas de lágrima ou sorriso
manuel cintra









como uma ferida que se tem sem saber onde nem porquê. que só se sente por dentro da pele. quando o corpo quieto recorda o teu. ou quando a saudade me traz o teu rosto em todos os rostos e todo mundo és tu. e cresce em mim a vontade de abraçar todo o mundo - queria ter-te falado no estranho nome do chá chinês (fuki hama). de como tenho medo das noites em dezembro. de como sonho com a aurora boreal em dias tristes. das amoras muito maduras em agosto - se o futuro existe que me traga o teu corpo. agora. mas agora não é futuro - guardarei os meus braços até que os teus existam para tos dar. se os teus nunca existirem que o futuro me tire os braços. não me farão falta -













quinta-feira, 12 de dezembro de 2013








laura makabresku



 A minha morte, não ta dou.
De resto, tiveste tudo
- a flor, a sesta, o lusco-fusco,
a inquietação do dia 8,
as órbitas das mães, das mãos,
das curiosas palavras de não dizer nadinha.
Tudo tiveste: estás contente?

 Feliz assim por teres tudo o que sou? Feliz por perderes tudo o que sei?

 Só não te dou o que não serei.
Não, a minha morte, não ta dou.



pedro tamen 








 a tua morte faz anos - só agora me apercebo que já é dezembro. sei-o pela inquietação dos dias. pelo frio nas mãos. pela dor nos olhos - todos os dias são os dias da tua morte. é como se o ritual da despedida nunca tivesse chegado a acontecer. mas como dizer adeus a alguém que amo tanto - sei que em algum lugar me esperas, feliz - tu sabes a força que faço para acreditar no mundo. na sorte. no amor. que aperto com tamanha força as mãos que as unhas rasgam a pele. que deste lado do peito nada adormece. que a dor é maior nos dias frios - como ninguém conheces as minhas lágrimas. como me recuso a chorar. como acabo sempre por chorar ainda que o negue. ainda que à noite. longe do mundo dos homens que me doem - o que sempre quis foi e é ser feliz. recordo-me que me dizias que o mundo era como uma caixa onde íamos guardando memórias, no final da vida abríamos a caixa e o mais importante era ter mais memórias felizes - todas as memórias que tenho de ti são felizes. são provavelmente as memórias mais felizes da minha vida. o teu sorriso. a tua pele. o teu abraço. - se viver fosse amar-te eu seria a pessoa mais viva da terra - sei que o teu corpo já cá não está. que não posso abraçar-te. nem ver-te. muito menos tocar-te. mas este natal ninguém se sentará no teu lugar. o cantinho do sofá. junto à lareira. será teu - e eu que sempre insisti contigo que o para sempre não existia e tu sempre a convencer-me do contrário. dizias que se o para sempre não existisse então o futuro não faria sentido - talvez o futuro não exista e para sempre não faça sentido - esta noite queria adormecer no teu peito. sentir os teus pés nos meus e ouvir-te respirar - avó. tenho a certeza que habitas nuvens claras.





segunda-feira, 9 de dezembro de 2013





oleg oprisco














 falar-te-ei de como se erguem
em flor as sementes,
de como o luar pode desfazer
a solidão de um nome
e atirar-nos para o lugar das mãos.

ao longe, a púrpura dos dias,
do ar respirado, da vida
que não pára de bater
em cada grão de terra
- nas tuas mãos, o meu
coração de lã e o frio
que não mais te tocará
por ser possível ser-se feliz.

vasco gato 







o corpo regressa a casa. frio. e meus lábios sambam pela memória dos teus - há tantas coisas que queria dizer-te - às vezes penso que o deserto existe para que em algum lugar se possam ver melhor as estrelas - que o futuro te sossegue o coração. 









rengim mutevellioglu







Os amigos amei 
despido de ternura
 fatigada;
 uns iam, outros vinham,
 a nenhum perguntava
 porque partia,
 porque ficava; 
era pouco o que tinha,
 pouco o que dava,
 mas também só queria
 partilhar
 a sede de alegria —
 por mais amarga.

eugénio de andradre






minha queria s. queria dizer-te que está tudo bem. que a vida é fácil. que os baloiços existem para que a gente se acalme - mas não posso. a vida é dura. o tempo passa. os baloiços são da nossa infância. e tudo dói muito - o que te posso dar é este meu mundo. a ternura de anoitecer com a cabeça no meu ombro. de ver ser natal na cidade. de ser sal nos teus olhos. e este sorriso largo de quem ainda acredita no futuro e sabe que nos esperam dias sem nome. nem ninguém. dias de abraços enormes - tu sabes que o passado é feliz porque te conheço. que o meu coração sossega quando te vejo. e sei que o teu corpo espera pelo meu. porque a distância existe dentro das nossas cabeças - 






terça-feira, 3 de dezembro de 2013







rengim mutevellioglu











 sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti o sôpro até raiar-te a cara,
 até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria


  herberto helder 









o teu nome na minha boca. repetido - com um coração à cabeça. dois braços que impedem água. uma boca que grita - meus dias são. começam e acabam na primeira sílaba do teu nome - e o silêncio dói. não dizê-lo dói - queria gritar o teu nome. que então se socorresse de penhascos e precipícios - minha língua procura uma desculpa para não encontrar-te. um país onde o teu nome não exista - teu nome tem corpo. tem boca. tem riso. tem cheiro intenso de mar. infinito - é nuvem. pó. rua. cave. deserto. caminho - o teu nome só existe na minha boca.