quinta-feira, 23 de janeiro de 2014








alexandra sophie









Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

ferreira gullar






quero apenas dizer que a tristeza é minha por direito. como a vida ou a morte. ou a fraca sorte - quando o futuro chegar e este corpo já não fizer sentido. recordarei os vossos rostos sem nome. que o nome apaga-se com o passar dos anos. não saberei dizer onde estão os vossos corpos e. ainda assim. será vosso todo este tempo. agora presente. onde existimos - chamo hoje casa a um segundo andar de prédio antigo. com vista para ruínas romanas e janelas altas de onde se vê o céu. não sei que outro nome dar-lhe se é aqui que o corpo está. se aqui dói o coração - quando o futuro chegar de outro lugar farei casa - quero apenas dizer que a tristeza é minha por direito e não importa o que digam. que a vida continua. que a morte é certa. que o tempo cura. terei sempre em mim esta tristeza - quando o futuro chegar vou com os pássaros 





quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

















nunca ninguém há-de entender como o mundo dói - não existe melhor forma de o dizer - a tantos terços fugimos ou chegamos atrasados. pela força das escondidas. contadas como quem parte para nunca mais voltar - a minha infância é uma estação alegre onde o corpo regressa em dias tristes - nos montes inventamos nomes de ervas e árvores. demos forma às nuvens. de tal modo que o céu era um pintura de animais selvagens - às vezes ainda vos ouço chamar-me - nas manhãs mais frias inventávamos corridas. a macaca. a corda. o macaquinho chinês e tantos outros jogos - quando eramos pequenos tudo era possível - quis ser tanta coisa: astronauta. bombeira. professora. médica dos animais. boneca - sei hoje que há uma grande distância entre aquilo que queremos e aquilo que temos. que nem tudo o que sonhamos é possível. e que por isso ser adulto é triste - quando eramos pequenos não queríamos saber. fazíamos de um campo um estádio. de um tanque uma piscina. de um banco um palco - na nossa ignorância tivemos tudo. à nossa maneira lá fomos felizes - não sei onde andam. que mundo vos tem. que sonhos vos perderam. mas sei que quando fecho os olhos. para contar até trinta. ainda vos ouço correr.















domingo, 12 de janeiro de 2014







laura makabresku 









falo contra as palavras que se esvaem, paro no meio de uma frase
e olho em volta, como se quisesse encontrar a palavra que me falta,
como se as palavras fossem objectos. E fica a minha voz
parada. Levanto a mão, a direita, frente aos olhos de quem me
escuta, abertos, tão grandes que desaparece neles a intenção. E procuro,
aflita. As pessoas perguntam-me: que tens?, e eu, calada,
a sentir uma bola na garganta, feita das palavras todas de que
não me lembro, tens bócio: diz-me o meu irmão: tens bócio
como a nossa mãe, de repente lembro-me de que nunca mais me lembrei de minha mãe,
e quero responder-lhe: não é bócio, são frases esquecidas,
são letras que não se juntam, às vezes,
os olhos dos outros param na minha boca,
inquirem o meu silêncio e esperam que eu fale,
e o silêncio aumenta,
até todo o meu corpo ser a falta de uma palavra,
começo então a suar, as mãos ficam viscosas, os lábios secos,
e eles continuam a olhar-me:
fala

rui nunes




de peito aberto. vivo - sei que me esperam dias tranquilos. o sossego das horas vagas. meses calmos. anos inteiros - algures no futuro serei mais um corpo sentado ao sol. de pernas estreitas. rosto ameno. cabelo já branco num penteado quase perfeito - estou certa que ouvirás as minhas histórias - tenho tanto para dizer. contar. esquecer. que à força das palavras a boca muda - e então o peito fechado. havia de me doer. tanto. tão forte. que grito - a vida é a certeza da morte - 






domingo, 5 de janeiro de 2014






ellen rogers 





De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

 vinicius de moraes




três tristes textos



foi natal - dos meus anos ao natal é um tiro no escuro - sabes como são as noites frias em dezembro. e a voz de quem queremos a chamar-nos para mais perto - se aqui estivesses. se aquele canto onde ninguém se senta fosse novamente teu. por direito ou dever todo o frio me esquecia - na casa não esquecemos nozes. nem figos. nem vinho. e os abraços que tardam são para mais tarde. quando as horas no relógio forem já um novo dia onde ninguém vive com medo do futuro - os teus passos em silêncio pela casa. e uma tosse insistente nos corredores - é como se ainda aqui estivesses - o teu corpo esteve morto no lugar da mesa de jantar. não há como não lembrá-lo. nenhuma noz. nenhum figo. nenhum vinho. nenhuma vida apaga a imagem do teu corpo esticado na sala. no lugar da mesa de jantar - 






diamantino. diamantino. de diamante puro. vestido de amarelo e branco - diamantino regressa da minha infância e vem de corpo esguio feito a mim - nenhum osso o cala. nem dizer o seu nome o devolve ao silêncio de um tempo que não volta. ainda que a memória persista - tinha mais anos que eu e reconhecia o meu cheiro a léguas de distância - vinha esperar-me à estrada quando voltava da escola. de corpo esguio feito a mim - quando estava triste e me sentava na erva. de pés pintados de verde a confundirem os olhos. diamantino vinha. com o pêlo muito armado. enroscava-se ao meu corpo e ali ficava. de respiração funda. à espera  - sei que partiste mas não te deixo morrer. sempre que estou triste pinto os pés de verde e fico à espera.






nenhuma palavra. ainda que dita em voz alta. te trará de volta - nem nenhum silêncio. nenhuma forma de encostar o corpo. de pedir um copo. de gritar com o mundo. de sentir-me só e sem jeito. nem peito. nem coração que bata. nem corpo que parta. nem nome que vá               ao teu encontro. 




























terça-feira, 24 de dezembro de 2013






mariam sitchinava








Um dia, quando a minha memória de homem fugitivo
alcançar a idade de um deserto, debruçar-me-ei num poço e
tentarei beber o tempo esquecido do teu rosto. Estarei lucidamente
morto, eu sei, e os meus olhos já não prenderão a adolescência,
nem as imagens que dela se soltaram. E a minha cegueira surgirá
cercada por frondosas árvores e pássaros, mas não os verei mais.
O rosto, o teu rosto, já não conseguirá atrair-me para o fundo
circular do poço.

O tempo de sedução terminou. Terás de me tocar, terás de
trocar o tacto dos olhos pelo tacto dos dedos. Apenas persistirá o
jogo, a cumplicidade, e uma ténue vibração do corpo que se
perdeu contra o meu corpo.

Por isso me ergo daqui e atravesso estas imagens coladas às
paredes, e ao atravessá-las descubro que estou perdido, e
condenado também a perder-te.

Levanto-me do fundo de mim mesmo e abandono a casa, os
bens que herdei, e vou pela memória daqueles vestígios que se me
cravaram no interior das pálpebras, mas não semeio nem recolho
nada. Apenas persigo os passos que outrora abandonei pelas
cidades onde te procurei, antes mesmo de saber que existias.

E perco-me, perco-me onde a sombra dos corpos é um
sudário de melancolia sobre o mar. Mas, ainda aqui estou, quase
vivo, atento ao movimento perene de tuas mãos sobre o meu
corpo. E sem bússola, nómada até aos ossos, sigo pela noite onde

aportei, e não reconheço a casa que me destinaram para morrer.

al berto









minha pele respira a memória do teu corpo - não percebo como fui capaz de perder-te. que caminho se fez vida onde não existes. se algum dia foste ou se ainda és - e sinto-me só. como quando o corpo inteiro procura um lugar onde esconder-se. onde não ser - ninguém saberá de ti. teu nome só existiu na minha boca. nosso mundo foi um sonho e à força do grito o silêncio fez-se noite - esperar-te - no limite o futuro tem-te e serão minhas todas as noites onde te deitas - hoje sei que não estás. não sei porquê. nem entendo assim o tempo de estares longe - talvez um dia. não muito longe. fiques perto para sempre. e o para sempre existe como tu - feliz natal. feliz. para sempre. 









segunda-feira, 23 de dezembro de 2013







ryan kenny











Por um rosto chego ao teu rosto,
noutro corpo sei o teu corpo.
 Num autocarro, num café me pergunto
 porque não falam o que vai
 no seu silêncio aqueles cujo olhar
 me fala da solidão.
 Esqueço-me de mim. Tão quieto
 pensando na sua pouca coragem, a minha
 sempre adiada. Por um rosto chegaria o teu rosto,
mesmo de um convite
 e desenha no ar o hábito
 por que andou antes de saíres
 do espaço à sua volta. Estás longe,
 só assim podes pedir algumas horas
 aos meus dias. Sem fixar a voz a tua voz
é uma corda, a minha
 um fio a partir-se.

 helder moura pereira





como uma nesga de luz atravessando nuvens. assim vai o presente - dentro dos olhos nasce e morre o teu rosto. como uma impressão que incomoda e faz chorar - à pele vou contando histórias. memórias do que eu quero que aconteça. como se o futuro que espero fosse já um passado que lembro e a saudade do que foi perturbasse o coração - as minhas mãos. sempre tão frias. procuram as tuas. mas eu sei que as tuas mãos não existem. que o teu corpo não está. que o teu coração não parte -




sexta-feira, 20 de dezembro de 2013






rita lino 













Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

herberto helder











como se o meu corpo existisse sem mim. isolado - como se o meu corpo fosse uma ilha. assim se apaixonam os homens por ele - tudo o resto. que é sonho. esperança. cansaço. tristeza. é um continente onde os homens não chegam - maravilhados com a ilha perdem-se do mar - os descobrimentos acabam em palmos de pele. bocados de terra. nenhum mundo foi assim descoberto. nem ulisses assim se perdeu - meu corpo sou eu. não existe sem mim. meu corpo tem nome. tem saudade. tem tristeza. tem alegria. tem sonho. tem cansaço. tem - meu corpo é um mundo e nenhum homem fará dele uma ilha