sábado, 22 de fevereiro de 2014






mariam sitchinava














Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos,
mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

eugénio de andrade










que seja como partir e o corpo nem o perceba - a noite é tão negra que o meu coração um corvo - que a vida não incomode e a pele apenas respire - nenhum mal do mundo me condene - que a tua boca me venha buscar como a um segredo. que a tua voz repita o meu nome. que nada pese. que as mãos não voltem - e se a saudade te perturbar demorar-me um pouco mais - em dias tristes regressamos aos dias imensos onde fomos felizes.





terça-feira, 18 de fevereiro de 2014






laura makabresku
















Eu disse tudo, mas não no lugar certo.
Em cera e em metal, por mãos de gente
e estojos de veludo me deitei
e quantos me tiveram sabem quanto
amei e amo a foice do teu rosto,
os cinco ou mais sentidos que me dás.
Um sopro humano, a boca, um coração,
me tocam e alimentam, como antes
águas de chuva no lazer do pântano
quando o vento passava nos pinhais;
sou teu igual, não mais, e no meu corpo
inteiramente novo é que perdura
a liberdade, glória do teu canto.
Desejo meu, em tua sede habito;
meu mestre, escravo, amante, pois servimos
no mesmo chão o mesmo antigo lume.



antónio franco alexandre















foi me dito que o mundo seria consoante os sonhos que temos. a esperança que mantemos. nunca ninguém me disse que os sonhos e a esperança corriam risco de vida - com uma navalha na nuca. assim segue a minha ideia de futuro - têm dito que sou jovem. que ninguém sabe o dia de amanhã. que a vida dá muitas voltas. que o mundo ainda demora - queria dizer-lhes que não sei. não sonho. não esperança. nem sei porque o mundo se demora quando o meu coração tão frio. quando a minha vida tão só - queria dizer-lhes que sofremos de uma tal falta de autoconsciência que assim vamos num campo de minas. correndo com a arma ao peito - foi me dito que havia um lugar para mim nos braços de alguém. que outro corpo me esperava - são meus braços. meu corpo. meu sangue que o chama. fora de mim só existe o que os meus olhos querem ver. o resto será mentira - nenhum homem do lado de fora. nenhum homem do lado de dentro. neste país as mulheres andam tristes porque nenhum amor as chama.só o sangue por dentro recorda os seus nomes. e a medo vão. e são esse campo de minas porque onde vão os que como eu não sabem que a dor só existe por os olhos a querem ver -






















terça-feira, 11 de fevereiro de 2014







laura makabresku













Corpo corpo
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa

abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado

mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas

levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo


al berto






pouco depois alguém grita - apercebo-me que já cá não estás. nem o teu corpo me visita. que mãos faltam nas minhas. que olhos os meus não olham. que pele não sabe. que vida. que mundo. que - o sentido do mundo é a existência de alguém que amamos - nenhum tempo é nosso. nenhum lugar conhece a nossa história. por não haver já tempo ou história que nos pertençam. e sermos um país que o universo esquece à força do sonho - o que de ti existe é esta memória: teus lábios em carne viva. tua boca à espera. teu rosto pálido e esse corpo. que nenhuma palavra poderia pronunciar sem que perdesse um pouco de beleza - o que te quero dizer. por muito que doa. é o grito - como quem parte para sempre - nenhuma paz existe sem ti. nenhum sinal de vida - nem as nuvens são já capazes de precognizar bom tempo. nem a terra nos constrói já ilhas ou continentes inteiros. nada existe fora sem que eu o sinta. e o teu rosto lateja no meu coração à cabeça - que morte dura a vida. que vida - pouco depois talvez alguém mencione de que matéria se constrói a ausência. com que penas se refazem asas. para que lado do céu hiberna o pássaro -













domingo, 2 de fevereiro de 2014














laura makabresku



Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha,
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar

antónio josé forte







insisto no teu nome como se os outros nomes não tivessem vida. só o teu - um dia disse aos homens que o mundo era um corpo sem nome. se assim fosse nenhum nome seria teu. nenhum mundo meu. nenhuma vida - de braço dado ao peito. sei do coração. como um espaço vazio onde guardamos memórias que nos fazem felizes - quando for grande quero ser um barco. uma ilha. um nenúfar. um nome - como se te dissesse calmamente que nos esperam dias melhores e partir.














quinta-feira, 23 de janeiro de 2014








alexandra sophie









Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

ferreira gullar






quero apenas dizer que a tristeza é minha por direito. como a vida ou a morte. ou a fraca sorte - quando o futuro chegar e este corpo já não fizer sentido. recordarei os vossos rostos sem nome. que o nome apaga-se com o passar dos anos. não saberei dizer onde estão os vossos corpos e. ainda assim. será vosso todo este tempo. agora presente. onde existimos - chamo hoje casa a um segundo andar de prédio antigo. com vista para ruínas romanas e janelas altas de onde se vê o céu. não sei que outro nome dar-lhe se é aqui que o corpo está. se aqui dói o coração - quando o futuro chegar de outro lugar farei casa - quero apenas dizer que a tristeza é minha por direito e não importa o que digam. que a vida continua. que a morte é certa. que o tempo cura. terei sempre em mim esta tristeza - quando o futuro chegar vou com os pássaros 





quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

















nunca ninguém há-de entender como o mundo dói - não existe melhor forma de o dizer - a tantos terços fugimos ou chegamos atrasados. pela força das escondidas. contadas como quem parte para nunca mais voltar - a minha infância é uma estação alegre onde o corpo regressa em dias tristes - nos montes inventamos nomes de ervas e árvores. demos forma às nuvens. de tal modo que o céu era um pintura de animais selvagens - às vezes ainda vos ouço chamar-me - nas manhãs mais frias inventávamos corridas. a macaca. a corda. o macaquinho chinês e tantos outros jogos - quando eramos pequenos tudo era possível - quis ser tanta coisa: astronauta. bombeira. professora. médica dos animais. boneca - sei hoje que há uma grande distância entre aquilo que queremos e aquilo que temos. que nem tudo o que sonhamos é possível. e que por isso ser adulto é triste - quando eramos pequenos não queríamos saber. fazíamos de um campo um estádio. de um tanque uma piscina. de um banco um palco - na nossa ignorância tivemos tudo. à nossa maneira lá fomos felizes - não sei onde andam. que mundo vos tem. que sonhos vos perderam. mas sei que quando fecho os olhos. para contar até trinta. ainda vos ouço correr.















domingo, 12 de janeiro de 2014







laura makabresku 









falo contra as palavras que se esvaem, paro no meio de uma frase
e olho em volta, como se quisesse encontrar a palavra que me falta,
como se as palavras fossem objectos. E fica a minha voz
parada. Levanto a mão, a direita, frente aos olhos de quem me
escuta, abertos, tão grandes que desaparece neles a intenção. E procuro,
aflita. As pessoas perguntam-me: que tens?, e eu, calada,
a sentir uma bola na garganta, feita das palavras todas de que
não me lembro, tens bócio: diz-me o meu irmão: tens bócio
como a nossa mãe, de repente lembro-me de que nunca mais me lembrei de minha mãe,
e quero responder-lhe: não é bócio, são frases esquecidas,
são letras que não se juntam, às vezes,
os olhos dos outros param na minha boca,
inquirem o meu silêncio e esperam que eu fale,
e o silêncio aumenta,
até todo o meu corpo ser a falta de uma palavra,
começo então a suar, as mãos ficam viscosas, os lábios secos,
e eles continuam a olhar-me:
fala

rui nunes




de peito aberto. vivo - sei que me esperam dias tranquilos. o sossego das horas vagas. meses calmos. anos inteiros - algures no futuro serei mais um corpo sentado ao sol. de pernas estreitas. rosto ameno. cabelo já branco num penteado quase perfeito - estou certa que ouvirás as minhas histórias - tenho tanto para dizer. contar. esquecer. que à força das palavras a boca muda - e então o peito fechado. havia de me doer. tanto. tão forte. que grito - a vida é a certeza da morte -